Se tem um cara que vale sempre a pena elogiar, porque é um grande parceiro, um dos melhores amigos que fiz na profissão e na vida e um dos jornalistas mais brilhantes que conheci, esse é o Ariel Palacios. O Ariel é tudo isso e ainda é humilde.
É um baita querido! Generoso! Afável!
Mas quero, primeiro, falar sobre o interessante novo livro que ele escreveu: “América Latina, Lado B (o cringe, o bizarro e o esdrúxulo de presidentes, ditadores e monarcas dos vizinhos do Brasil)”. O livro é Ariel puro: muita informação com humor.
O Guga Chacra, outro queridão, disse isto no prefácio: (o Ariel é) “uma figura única e uma das raras unanimidades positivas no jornalismo brasileiro. Jamais vi um colega de profissão criticá-lo. Todos o idolatram”. É isso aí, Guga! Assino embaixo.
Guga fala no prefácio, também, das diversas e enormes qualidades do Ariel Palacios como jornalista. Já comecei me emocionando ao pegar o livro de 446 páginas, editado pela GloboLivros, para ler. O Guga descreve o divertido, culto, inteligente e afetivo Ariel tal como ele é.
Ariel faz um passeio pela América Latina com suas bizarrices, com o caldo informativo que consolidou o Realismo Fantástico. Não nos esqueçamos de que, antes de escritor, o gênio Gabriel García Márquez era um orgulhoso jornalista, apaixonado pela sua profissão, e se debruçou sobre a realidade que tinha à frente.
Evidentemente, não pode faltar a deliciosa história do Nicolás Maduro dizendo que se comunicava com o espírito de Hugo Chávez por intermédio de um passarinho médium, algo assim. Maduro também já conversou com vacas. Só falta pastar.
Como estive quatro vezes fazendo coberturas enormes na Venezuela, atesto: Maduro renderia um livro só pra ele. Além de passarinhos e vacas, ele falou com cavalos, de igual pra igual. E justificou a falta de papéis higiênicos nos mercados pela alta demanda dos venezuelanos, que, comendo mais, cagam idem.
Tudo isso está no livro do Ariel Palacios.
O parça do Maduro, o inacreditável Evo Morales, é páreo duro. Renderia desdobramentos infinitos do livro (fica a dica, Ariel querido!).
Uma vez, pra justificar algum desequilíbrio econômico, ensinou aos bolivianos que comer frango provoca “homossexualismo” (sic). Viram como preconceito e ignorância andam de mãos dadas?
Ah, Bolívia, que prato cheio! Não de frangos, claro.
Em 1870, o general Mariano Melgarejo (presidente boliviano entre dezembro de 1864 e novembro de 1871), grande francófilo, insistiu em levar tropas pra defender a França na guerra contra a Prússia. Morreu meses depois, assassinado pelo irmão da amante no Peru.
Mas falemos da amada Argentina com suas necromanias, país onde Ariel vive há muitos anos, e sobre a sua atualidade. O presidente Javier Milei clona seus cães mortos e pede conselhos políticos aos mesmos, assegurando que são os seus melhores conselheiros. São os seus oráculos!
Milei jura que foi gladiador há 2 mil anos, na Roma Antiga, e enfrentou um leão que era a encarnação dum dos seus cães. Ali, ele e o bicho fizeram um acordo de cavalheiros segundo o qual não se agrediriam pensando no poderoso futuro comum (hoje).
Quando o assunto é a forma como o ditador Jorge Rafael Videla morreu, sentado no vaso sanitário com o rolo de papel higiênico ao lado, o divertido Ariel Palacios tem seu momento quinta série: “Esta forma de encerrar a carreira não abunda na tradição militar. É um hábito que entra para os anais da história.”
E eu me caguei de tanto rir!
Ariel tem uma boa explicação pra tanta bizarrice: a tradicional concentração de poder na região, que leva a instituições fracas, é certamente a mais convincente. E daí deriva a figura do caudilho, que desperta uma percepção de divindade em seus seguidores.
E dê-lhe a desfilar monarcas, presidentes, ditadores, sacerdotes e adeptos do vodu, como os haitianos Papa e Baby Doc. Tem também os esquerdistas, como o mexicano AMLO e o equatoriano Rafael Correa, com seus discursos reacionários nos costumes (AMLO chegou a dizer que feminismo e ecologia são coisas do neoliberalismo!). Enfim, nada que surpreenda muito se vemos hoje supostos progressistas enrolados numa bandeira do grupo genocida e obscurantista Hamas.
Mas não sejamos cruéis com a América do Sul. E o México, lá no norte da região? !Mira vos! É uma usina de bizarrices, além do AMLO e das suas ditaduras perfeitas.
Antonio López de Santa Anna, por exemplo. Na Guerra dos Bolos, recusou-se a indenizar um francês cuja confeitaria fora demolida pelo fogo mexicano. Daí o curioso nome da contenda (“Guerra de los pasteles”, em espanhol). A França tomou as dores do comerciante e enviou 10 barcos para invadir Vera Cruz.
Anos depois, Santa Anna perdeu a perna num enfrentamento armado em Vera Cruz. Amputar a perna era a solução para o salvamento da sua vida. Não tinha outra. E o que fez Santa Anna? Velório e enterro com cerimônia religiosa (as pernas têm alma?) e honras militares para o membro amputado.
Santa Anna assistiu ao próprio enterro. Em parte.
Depois, ele também deixou a prótese da perna no campo de batalha contra os EUA. Essa não foi enterrada, e seus descaminhos, ao contrário dos da original, foram encontrados. Virou peça exposta no Museu Militar de Illinois (EUA).
…
Mas vamos falar de sanidade.
O Ariel Palacios que você conhece da GloboNews tem um lado B, menos conhecido, que é tão brilhante quanto o seu lado A.
Conheci o Ariel quando fui viver a minha inesquecível temporada como correspondente da Folha de S. Paulo (sete meses entre 1997 e 1998) na Argentina. O Ariel era o correspondente do Estado de S. Paulo. Ou seja, os nossos jornais competiam.
Mas, de imediato, eu soube quem era o meu futuro amigo.
O presidente americano, Bill Clinton, visitava a Argentina naquele momento. Ia pra Buenos Aires e Bariloche. A Folha me enviou para a cobertura em Bariloche antes da data prevista para o meu começo (e também voltei depois do previsto, em razão da crise no país). Tudo acontecia naquele momento, e, por motivos que não valem a pena detalhar aqui, eu não tinha a agenda básica de um correspondente. Quem me forneceu os contatos necessários? O meu gentil concorrente.
E foi só o início. Eram tantas a afinidade e a amizade, que, quando fui embora e ele ficou, nos despedimos abraçados e chorando num café perto da Plaza de los Congresos.
A amizade ficou pra sempre, óbvio.
Em 2015, quando fui cobrir a eleição ganha por Mauricio Macri, telefonei pro Ariel. E ele: “Vamos nos encontrar”. O encontro foi na frente de uma porta lateral do Congresso. Entrei com ele numa caminhonete que nos levou até um casarão no Tigre. Pra minha alegria, todo o futuro governo estava lá reunido, num churras. Jornalistas estrangeiros? O Ariel e eu! Entrevistei meio gabinete. Pena que Zero Hora (o jornal para onde eu havia retornado depois de 11 anos na Folha) não tem muito banco de dados, porque virou “GZH”. Se tivesse, eu poderia mostrar aqui a enorme entrevista que fiz com a Patricia Bullrich (ex e atual ministra da Segurança) sobre o Alberto Nisman.
Ariel! Querido Ariel!
Acho que só agora a direção de ZH consegue entender como consegui fazer aquela baita cobertura, com tantas fontes.
Enfim, eu tinha uma fonte: ele.
Recentemente, escrevi o livro “A cronologia do Alef Bet – O abecedário judaico contra a ignorância e a maldade do antissemitismo”. O Ariel Palacios, com seu humanismo, inteligência, cultura e lucidez, fez um belo texto de contracapa.
Nenhuma surpresa pra mim o prazer que me deu a leitura do ótimo livro que ele está lançando para o nosso deleite.
Um beijo, Ariel!
O Guga tem razão: é impossível não te adorar.
…
Shabat shalom!
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Foto da Capa: