Ninguém entende a maneira como organizo os meus livros. Não obedeço a nenhum dos critérios oficiais das bibliotecas e tampouco a mim mesma. De vez em quando, quebro, em pedacinhos, o sistema vigente por mim desenvolvido e recomeço meio do zero, como das relações afetivas em que alguém sai mais dolorido e revoltado ou raivoso quando elas terminam. Eu já estive em algumas. Poderiam ser em maior quantidade se eu não tivesse passado vinte e poucos anos envolvida com o mesmo homem.
Outro dia, outra semana, na verdade no mês passado, parei para pensar por que não sinto desejo sexual por mulheres se eu gosto tanto de estar com elas. Não com todas, é claro. Há mulheres insuportáveis, portadoras das piores características do ser humano, violentas na fala e nos gestos, interesseiras e más. Não suporto gente má, que se move cheia de graça e de dolo, pensando primeiro, segundo, terceiro, infinitamente em si.
Eu penso em mim, choro por mim, não choro mais por ele. Eles. Mas penso e me preocupo com as outras pessoas. Não lembro em que ano, mas houve um em que uma dupla sertaneja ou de categoria similar cantava algo do gênero só que no sentido afirmativo. Uma música daquelas que cola na língua, por mais que não faça a nossa cabeça. Não aprecio duplas sertanejas. Mais do que isso: elas me aborrecem. Mais do que me aborrecem: me torturam. Certa vez, como punição, escrevi parte da letra em uma folha e a coloquei dentro da mala de um ser que não cabia mais na malinha de mão do meu coração. Essa última parte da frase é de uma música da Liniker. Sou louca por ela.
De louca, desequilibrada, maluca, inconstante, etc., já fui chamada por homens. Escrevo homens no plural, mas foram poucos, espécies de professores em relacionamentos tóxicos e abusivos. E me refiro a eles dessa forma porque fui boa aluna e aprendi boa parte da lição. Se fosse possível converter essa dinâmica em uma prova objetiva, eu estaria perto de gabaritá-la. Não que isso seja bacana. Aprender dentro da escola da vida, clichê que escuto desde menina, é difícil, ainda mais quando se tem a alma mais leve.
Os mais pesados não suportam a leveza. Não entendem de que fala o livro A Insustentável Leveza do Ser. E aqui não estou falando de peso que possa ser convertido em quilos. Falo dos transtornos mentais e da imensa vastidão de neuroses que, individual e coletivamente, construímos, quase sempre ignorando nossa mesquinha participação. Milan Kundera é um autor para os que atravessam dimensões buscando justiça, ética, afeto e harmonia.
A poeta Wislawa Zsymborska escreveu, entre os seus 300 e tantos poemas, dois versos que coloco acima de todos os demais. Um diz: “Nada substitui o sentido de participação” e o outro: “Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro”. Super me identifico com eles. Com o primeiro, porque ninguém se conecta com nada se não se envolver, e com o segundo, porque é como eu me sinto. Meu coração é desmemoriado em um certo sentido. Sofre atualizações, como os aplicativos que agora dominam nossas vidas e nossa parafernália eletrônica, e deleta tudo o que não funciona ou perdeu o sentido.
Qual é o sentido da vida é uma pergunta, também clichê, que escuto também desde que me entendo por gente. Se entender por gente é uma frase da mesma natureza. Este parágrafo, embora eu pretenda dizer alguma coisa que seja útil, dedico ao maravilhoso mundo dos clichês que nos salvam todos os dias. Não estou ironizando. Os clichês funcionam como remédios e como manifestações de estima. Por vezes, de pseudoestima. Os falsos os conhecem bem. Dominam a arte de dizê-los. Alguns não falsos, idem.
Naquele filme, da década de 1980, com a Demi Moore versão-cabelos-curtinhos, em que ela fica viúva e o fantasma do marido tenta salvá-la das investidas de quem o matou, um amigo do casal (estou tentando lembrar do título sem consultar o Google, me cansa tanta dependência da internet), eles usam, como código para dizer eu te amo, a repetição ‘idem idem’. Uma dupla de palavras simpática aos meus ouvidos.
A palavra ‘dupla’ me agrada. Está entre os meus dez livros favoritos o A Dupla Chama Amor e Erotismo, do Octavio, sem acento, Paz. Segundo ele, o primeiro grande poema de amor do mundo ocidental se chama A Feiticeira. O autor é um exemplar do cromossomo Y, o grego Teócrito, e ele o escreveu três séculos antes de Jesus Cristo ter dado o ar de sua bondade neste nosso planeta com pós-doutorado em crucificações.
O amor ergue cruzes e as derruba. O amor, de acordo com o Charles Bukowski, “é tudo aquilo que nós dissemos que não era”. “Nossa vingança é o amor”, escreveu a Cristina Peri Rossi. Estou in love com ela. Cristina. Mad about her e estou escrevendo em inglês para manter a linha clichezenta deste texto. E talvez agora como ironia aos que batem continência ao norte-americano alaranjado. Eu não a conhecia. A ignorância me ronda tanto quanto o conhecimento. E, é óbvio, ganha todas as disputas. Sou um pouco menos ignorante hoje do que era ontem, mas isso passa longe de ser suficiente. Uma vida não é o suficiente, muitas vidas não seriam. O conhecimento corre anos-luz à nossa frente. Não há verdade nem idioma que deem conta dele.
O conhecimento é e não é natural. Os outros mamíferos (eu me orgulho de ser uma, de poder produzir leite e nutrir alguém) não se saem, nesse critério, tão bem como nós que os exploramos e até devoramos. Eu ainda como carne. Não como gente, como disse aquele outro a quem muitos bateram continência aqui nas nossas bandas mesmo. Os homens costumavam dizer que nos comeram. Uma parte ainda diz comi a Fulana e a Beltrana. Não quero humilhar ninguém, mas, em regra, são os de baixo desempenho e que não sabem que o ato erótico se desprende do ato sexual e da função reprodutiva, que traz outro, outros ritmos.
No livro A Dupla Chama, Paz explica o quanto o erotismo é uma variação incessante e o sexo é sem cessar o mesmo. Os animais copulam repetidamente da mesma forma. “Por mais estranhos que sejam os ajuntamentos animais, uns ternos e outros ferozes, não há mudança alguma neles. O pombo voa e ronda a fêmea. A manta devora o macho depois de fecundada”, ele escreve. Não há desejo. Há instinto. E não há amor, nem fragmentos de seu discurso, em que a linguagem ora é demasiadamente pouca, ora é demais e sempre imprescindível.
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