‘Fulano é o amor da minha vida’, um monte de mulheres já me disse isso. ‘Fulana é a mulher da minha vida’, um monte de homens já me disse isso, inclusive disseram que era eu mesma o tal amor. Imagina se não fosse. Eu, mesmo tendo casado de véu e grinalda e usado aliança por mais de vinte anos, nunca fui adepta da ideia de que qualquer coisa seja para a vida inteira, exceto a própria existência, que, mal ou bem, vai conosco até o fim. Eu não tenho problemas com finalizações. Tenho um pouco com a finitude porque os meus mortos me fazem falta, e a morte é para sempre. Não tem quem me convença do contrário. Para mim, se alguém reencarna, a história já é outra.
Qualquer um de nós que fosse diferente do que é, teria uma vida diferente da que tem, atrairia outras pessoas, teria outro cheiro, outra voz, outra saúde, etc. Portanto, não me enganem porque eu não gosto. De verdade, tenho pavor de ser passada para trás e, mais do que isso, de ser tratada como se eu não soubesse do que acontece debaixo do meu nariz ou pelas minhas costas. Sempre sei. Acredito que a maior parte de nós sabe. A questão é que alguns preferem fazer de conta de que não o tempo todo. E tudo certo. Cada um é cada um.
No meu caso, levando em consideração a minha personalidade, isso é impossível. Adoro aprender, saber, conhecer. Conhecer me fascina. Conhecer tira a gente da zona rasa das coisas e das relações, implica profundidade, verdade e coragem. Gente covarde não conhece quase nada de nada dentro da lógica daquele ditado que diz que ‘quem não arrisca não petisca’. Eu sou uma petiscadora convicta. Haja o que houver, prefiro tentar e me trumbicar a ficar imaginando o que poderia ter sido. Se der tudo certo, fantástico. Se tudo for pelo ralo, que pena. E fim de drama.
Dramas adoro na arte. A arte se dá bem com Deus e o Diabo. Talvez não se dê tão bem com o entretenimento e a produção artesanal. Tudo que é feito em série acaba por perder o impacto, a singularidade e o mistério. Talento é um mistério que ninguém desvenda e que não se aprende, ainda que matriculado no melhor curso de sei lá o quê para se tornar um artista maravilhoso. No Brasil, artista da fome. Quem leu o Um artista da Fome, do Franz Kafka? De modo geral, o A Metamorfose é o Kafka lido. Eu gosto do Gregor Samsa, me identifico com ele. Ele é a cara da mulher do terceiro mundo, com sua dupla, tripla, por vezes, quádrupla jornada.
A minha jornada até que não é das piores. Mas sou mãe e cachorreira. A cachorrada não cresce, só envelhece, logo demanda, dia após dia, os cuidados de sempre, sem nos prometer e oferecer nada em troca. Nem gostaria que prometesse. Promessas foram feitas para serem quebradas. Confio muito mais na vontade e na espontaneidade das pessoas do que nas suas palavras. E olha que sou uma mulher do mundo dos verbos que não gosta que apaguem a gramática, que não gosta de apagamentos em geral. Os misóginos gostam. Se pudessem, passavam uma borracha sobre nós. Já viram misógino ser empático com quem não foi feito à sua imagem e semelhança? E machista? Machistas até oscilam porque uma parte está em evolução. ‘Digimon evoluiu’, vão nos dizer quando tiverem se tornado melhores homens.
Penso que deveriam ser considerados os melhores homens aqueles que entendem o lugar da arte na sociedade e dentro do ser humano. Se se predispuserem a produzi-la, nem se fala. E aqui entra a minha admiração também às mulheres artistas, nós que, com raríssimas exceções, volta e meia somos tratadas com menos respeito que os homens e mal remuneradas. Os artistas fora do pequeno rol de famosos, de modo geral, ganham pouco dinheiro, trabalham em outras atividades para pagarem seus boletos. Com todo o respeito à classe das diaristas, muitos não faturam nem o que elas conseguem em meio-turno. A que limpa a minha casa, por exemplo, trabalhando de segunda a sexta-feira, às vezes menos que vinte horas, recebe uns R$ 3.500,00 por mês. E aí penso também nos professores. Pergunta quanto recebe um professor estadual no Rio Grande do Sul? Com doutorado, R$ 3.163,98. E quem tem tempo e recursos para se dedicar a um? Aliás, quem quer ainda ser professor neste país?
Minha mãe e minha avó foram professoras. Trabalharam os tubos e sempre ganharam muito menos que o meu avô e o meu pai. Os tubos? Que gíria é essa? De que época? Da minha, que começou o dia em que nasci e terminará dentro dos próximos trinta anos se eu quebrar o padrão de ‘adeus também foi feito para se dizer’ da minha família, em que muitos saem de cena na curva perigosa dos cinquenta. Eu tenho mais de cinquenta anos. Ainda não passei a idade que a minha mãe tinha quando morreu. Meus irmãos todos conseguiram. De vez em quando, penso que o palitinho premiado sobrou, outra vez, para mim. Para o bem e para o mal, eu já o tirei diversas vezes. Talvez seja melhor eu passar a ter eternamente quarenta e nove anos ou sessenta. Tanto faz, tanto fez.
Todos os textos de Helena Terra aqui
Foto: Freepik

