Não sei se a minha madrinha pode ser considerada uma poeta, mas há grandes chances. Dona de uns ditos muito particulares – típicos de quem nasceu na fronteira entre Brasil e Argentina –, sua fala sempre me gerava algum tipo de riso ou enigma.
Ainda hoje, quando não quer aceitar um convite, a tendência dela é ser direta: “Não vou, não. Hoje estou contrariada”. Nada de inventar desculpas, o que é bom. Em todo o caso, o “contrariada”, assim no passado, sempre me deixou pensando: por que será? Quem a contrariou se ela ainda nem veio? Será contrariada por ela mesma? Ou será que ela é do contra? Enfim, melhor não perguntar e deixar a imaginação fluir.
Outro “clássico” que ficou marcado no anedotário familiar é quando a dinda quer falar mal de algum pai desnaturado e irresponsável. Aí a tal poesia vai pro espaço: “Ah… Pai é qualquer toco de pau”. E vá mudar de assunto, porque não vale a pena. Era sua maneira de dizer que pai não pega junto, que nós, mulheres, é que temos mesmo que nos lascar. Nem vou entrar na semântica ligada ao falo, ao poder e à violência. Felizmente, nós estamos é cada vez mais atentas no encontro dos nossos tocos, gravetos e sarrafos. Ou ainda, nos unimos a outra de nós e nos aventuramos em uma co-maternidade. E, meio sem saber com quantos paus se faz uma canoa, estamos cada vez mais sensíveis à ideia de que, para criar uma criança, realmente faz falta uma aldeia inteira.
É uma pena que, para muitos, pai seja tão somente uma ideia, um nome no documento, a lembrança de alguns finais de semana, ou ainda, a lembrança dolorosa de abusos e castigos físicos. Ao mesmo tempo, tenho observado alguns pais modernos com um pouco mais de esperança. Meu companheiro, meu irmão, alguns amigos, coisas que escuto dos meus pacientes e que me fazem perceber que está funcionando não aceitar essa história de “qualquer toco de pau”.
Apesar disso, reconheço a minha pequena e limitada bolha. Nem é preciso furá-la para ver que alguns pais-bosta são capazes de armar um império, um clã fortalecido politicamente e, ainda assim, não conseguem enlaçar o amor e o respeito de seus filhos. Em parte, esses tiranos nos quais pensava há pouco, a saber, Elon Musk e Bolsonaro, têm tanto desamor pela humanidade que logo isso fica evidente até mesmo no seu círculo mais íntimo, porque o sangue não sustenta o vínculo.
Eu poderia até ter feito essas reflexões no Dia dos Pais, mas hoje é um dia especial também. É o julgamento do Bolsonaro. Ser repugnante de longa ficha criminal e que apontou para um toco de pau para dizer que esse era o “psicólogo”. Alusão barata a uma violência exacerbada pelo patriarcado, todos os dias. Nesses mesmos “todos os dias”, batalho para que a minha madrinha esteja errada e que já não aceitemos toco de pau, nem quebra-pau no nosso corpo, nem cruz nas nossas costas. Feliz dia!
O que você achou desse texto? Gostou? Então, você pode comentar ou apoiar financeiramente meu trabalho com a Apoia.se. Além de reconhecimento, seu apoio melhora minhas condições de sustentar este e outros projetos de escrita. Clique no link abaixo. Obrigada.
Todos os textos de Priscilla Machado de Souza estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA.

