Duas coisas sem relação uma com a outra me levaram a uma crise de identidade estética. A primeira é que, por pura brincadeira, peguei esses dias uma porção dos textos que já publiquei nesta plataforma e joguei na ferramenta IA Copilot, do navegador Edge, da Microsoft, com o seguinte comando: “Analisando os textos a seguir, aponte os cinco maiores pontos negativos e talvez despercebidos desse material”. Fiz isso meio que inspirado por uma corrente que andei vendo nas redes sociais, em que as pessoas lançavam seus textos nas ferramentas de Inteligência Artificial e incitavam a máquina a ler o que, naqueles textos, revelava as piores características delas mesmas como pessoas. Eu não preciso embarcar nessa, sei que não sou uma pessoa das melhores e que o melhor de mim está em minha escrita, então resolvi avaliar o quanto a IA é proficiente para fazer o meu trabalho, crítica literária, e verificar em quanto tempo ela pode vir a me substituir.
Aqui um breve parêntese: eu sei que não serei substituído por IA nenhuma, mas não pela flamante qualidade de meu trabalho, mas por falta de interesse geral mesmo. A resenha crítica, como eu pratiquei por anos em jornal, está morrendo. Um dos indícios mais alarmantes nesse sentido foi a notícia recente de que a agência de notícias Associated Press (AP), uma das maiores do mundo, deixou de contratar colaboradores externos para produzir resenhas de livros devido ao custo de produção não compensar a baixa audiência. Os veículos, de modo geral, já se amparam nas agências para produzir conteúdo. Se as próprias agências já acham que resenha de livro não vale a pena produzir, isso, por consequência, reduz automaticamente os espaços para crítica de livros em veículos, em um efeito bola de neve inevitável. Fim do parêntese.
A IA, o leitor e eu
Voltando ao meu pedido para que o Copilot desse uma de crítico com meus textos, na resposta dele, duas coisas me chamaram a atenção. O que ele me respondeu nos pontos 2 e 5 foi o seguinte:
2. Elitismo intelectual sutil
Sua escrita é sofisticada, cheia de referências literárias e filosóficas, o que é uma marca admirável. No entanto, isso pode criar uma barreira de acesso para leitores menos familiarizados com esse repertório. Há momentos em que o tom pode parecer que pressupõe um leitor já iniciado, o que pode soar excludente.
5. Resistência à simplificação
Você valoriza a complexidade — o que é uma virtude — mas isso pode se tornar uma aversão à síntese. Em alguns textos, há uma recusa em oferecer conclusões claras ou caminhos possíveis, o que pode deixar o leitor com a sensação de que tudo é ambíguo ou insolúvel.
Nos demais pontos de sua análise de meu trabalho, achei que a IA estava chutando ou mesmo alucinando de modo genérico (como já mencionei que elas fazem aqui), mas, nesses dois, ela tocou em um ponto que já me foi comunicado em outras ocasiões, mesmo quando eu escrevia em um jornal de alta circulação. Houve uma ocasião em que publicamos no Facebook a foto da equipe qualificada que, durante um breve período, foi a responsável pela experiência do caderno PrOA na Zero Hora: a editora Cláudia Laitano, os repórteres Letícia Duarte e Paulo Germano, e eu, como editor-assistente. Um leitor deu sua apreciação dos textos de cada um de nós (Cláudia já era, como é até hoje, articulista semanal no jornal, e eu, mesmo já editor, fazia reportagens e mantinha a coluna de livros no Segundo Caderno). Até tentei procurar a postagem no Face para pegar o texto exato, mas não encontrei, então vocês vão ter que acreditar em mim. Basicamente, o leitor dizia que eu usava palavras e frases rebuscadas e ele não conseguia entender metade do que eu escrevia.
Não digo que fiquei chocado, talvez um pouco chateado. Sempre achei que, apesar de aqui e ali sempre semear alguma palavra que provavelmente levaria alguém ao dicionário, escrevia do modo mais simplificado que o assunto me permitia (a prova disso, por exemplo, é que está documentado em um trabalho acadêmico que dois escritores que admiro no Estado não consideravam o que eu fazia no jornal crítica literária. Nessa aí eu também não fiquei chocado, mas fiquei muito mais chateado). Mas, depois desse comentário, comecei a prestar mais atenção ao modo como escrevia, voltando a alguns textos uns tempos depois.
Eu, leitor, e os outros
Continuo não vendo tanto hermetismo neles, mas vejo algumas tentativas conscientes e outras inconscientes de complicar a forma, não apenas o vocabulário. Aqui mesmo na Sler, o conjunto dos meus textos revela (além de muitos constrangedores erros de digitação, fruto da pressa do deadline) uma certa inquietação com a estrutura. Começo falando de uma coisa totalmente colateral para só depois abordar o tema central, dou cortes abruptos, andei experimentando tópicos numerados porque às vezes eles ajudam a organizar melhor a aleatoriedade dos impulsos que dão origem a cada coluna.
Mas sim, vejo que coloco nesses textos uma certa ambição formal, que minhas frases costumam ser longas e se estender de acordo com o fluxo do raciocínio. Se isso representa um desafio ao leitor contemporâneo em tempos de internet, sou obrigado a admitir que sim, sou resistente à simplificação. Também sabendo que escrevo para uma plataforma de nicho como a Sler, mirando um tipo mais exigente de leitor, explico algumas coisas e conceitos, mas sim, muitos talvez tenham de conhecer já o básico daquilo que aparece no noticiário para seguirmos conversando.
Essa foi a primeira coisa, mas, como eu disse lá no início, eram duas. A segunda foi que me percebi impaciente e algo ansioso durante a leitura de textos de outras pessoas. Artigos que leio constantemente em substacks, em blogs ainda, nas redes. “Textões”, como se dizia na época do finado Facebook já mencionado aqui. Em muitos deles, percebi uma intenção do autor de preparar um contexto para o que seria o núcleo do assunto que abordaria e da abordagem que levaria a efeito. Talvez porque eu conhecesse bem alguns desses contextos, achei a sua recapitulação prolixa, achei as estruturas algo complexas do texto incômodas, eu sentia gritar em mim a urgência nefasta de que o texto fosse direto ao ponto, algo que não apenas não tenho controle algum como também uma prática que eu raramente adoto nos meus próprios textos.
Minha primeira coluna nesta plataforma foi justamente refletindo sobre a dificuldade que eu sentia como leitor para me engajar em textos mais longos e complexos, principalmente online (leia aqui). Ali eu já citava muitas das hipóteses para isso: a popularização do comportamento de “surfar” na rede, criando o hábito de leitura superficial, em busca das informações de modo mais mastigado e rápido possível, é um deles, bem como o próprio fato de que a cultura digital que se formou à nossa volta está modificando os cérebros dos mais velhos, como eu, e formando os dos mais jovens já em modelo de atenção dispersa e hiperestimulação intelectual e sensorial.
Toda vez que deparo com situações como essa, e foram muitas as vezes desde a pandemia, sou acometido por uma crise de identidade estética e intelectual: estaria eu me tornando um leitor que não leria os textos que eu mesmo escrevo? É possível.
O que escrevo
Discussões sobre a brevidade média e o que constitui um “bom estilo” são tão antigas quanto a própria escrita. Aristóteles, um defensor em geral da moderação e do “caminho do meio”, elogiava uma linguagem mais moderada e menos rebuscada na sua Poética: “Obtém-se a clareza máxima pelo emprego das palavras da linguagem corrente, mas à custa da elevação. […] A elocução mantém-se nobre e evita a vulgaridade, usando vocábulos peregrinos (chamo peregrinos os termos dialetais), a metáfora, os alongamentos, em suma tudo o que se afasta da linguagem corrente. Se, porém, o estilo comportar apenas palavras deste gênero, torna-se enigmático ou bárbaro; enigmático, pelo abuso de metáforas; bárbaro, pelo uso de termos dialetais”. Mostrando que esse tipo de discussão é pendular, ao longo da história, outros pensadores vão defender que determinadas coisas só podem ser ditas de um determinado jeito e, se ele precisar abraçar a complexidade, as metáforas, a alegoria, que seja. Era o que dizia Hegel em sua Estética, por exemplo.
Eu, alguém que não tem uma teoria estética própria, mas pensa ter alguma sensibilidade para reconhecer quando um texto é bom ao simplesmente lê-lo, me preocupo com os impulsos ansiosos que nascem em mim, porque eles não vêm da mesma fonte da minha sensibilidade de leitor, formada ainda antes do surgimento da internet. Fico ansioso quando, inadvertidamente, traduzo qualquer coisa em termos de “informação” ou “conteúdo”. Com tanta coisa reclamando minha atenção de espectador e leitor, desenvolve-se em mim (e, tenho certeza, em todos vocês), uma neurose por chegar ao cerne daquele texto específico, porque preciso passar para os próximos, esquecendo-me de que a forma do texto também é parte de sua identidade. Isso me inquieta.
Ao mesmo tempo, noto que esse tipo de angústia que me atinge como leitor não parece tomar lugar quando sento ao computador para escrever estes textos que compartilho semanalmente com vocês. Quanto mais pareço “emburrecer” como leitor, menos afetado me sinto pelos compromissos que eu mesmo exijo de textos de terceiros.
Curiosamente, isso me consola. Atingido pela profusão de estímulos e por esse fenômeno contemporâneo desgastante e incômodo da pragmatização da estética, transformando em “dever de casa” qualquer tipo de fruição artística ou intelectual, me conforta saber que, enquanto escritor, traio constantemente meus anseios de leitor. Pois continuo, do modo mais teimoso, escrevendo apenas aquilo que consigo, no meu único estilo possível e inevitável.
Todos os textos de Carlos André Moreira estão AQUI.
Foto da Capa: Gerada por IA.

