Só eu que tenho essa impressão ou você também vê que o debate político virou uma permanente, rasa e chata troca de ameaças? E que os discursos miram mais a eleição que vai acontecer só no ano que vem do que a solução de problemas que a população encara diariamente?
Vamos lá… o governo entrega um projeto para o Congresso votar.
Os grupos de interesses melhor representados na Câmara – às vezes, nem tão melhor, mas mai$ fortemente – se mobilizam e pre$$ionam contra a proposta. Os deputados – nem todos, mas boa parte deles – $ensibilizado$, derrubam o projeto do governo sem levar em consideração a quem a derrubada ajuda: o interesse do país, ou dos grupos de pre$$ão? Aí, o Executivo ameaça recorrer ao Poder Judiciário contra a decisão do Legislativo. E este, por sua vez, pula a etapa de mostrar que tem argumentos para defender a própria decisão e ameaça de volta: cuidado! Se forem ao STF, a coisa vai ficar pior aqui no Congresso…
A recente pesquisa Quaest, que quis saber como os deputados federais avaliam o governo e a posição deles – deputados em relação aos principais projetos em tramitação, dá bem a medida dessa troca de ameaças. O dilema que mexe com governistas e oposição, neste momento, é a eterna busca do chamado ajuste fiscal. O equilíbrio está entre o que o governo arrecada e o que gasta, de forma que as contas sejam pagas e sobre algum dinheiro para investimentos em obras e programas sociais, dos quais o Brasil, ainda durante bom tempo, vai precisar. Os deputados exigem que o Executivo corte custos. O Executivo diz que já cortou o que podia e argumenta que cada corte precisa da correspondente compensação. E aí, como a gente parece desacostumada com divergência, o desentendimento vira crise…
A mais recente é essa do aumento do IOF, que o governo, fazendo o que lhe permite a Constituição, aumentou por decreto e a Câmara dos Deputados derrubou, gritando que não aceita mais nenhum aumento de imposto. A briga, como sempre, foi parar no STF. Enquanto isso, tramita na Câmara o projeto – promessa de campanha do Lula – que isenta do Imposto de Renda quem ganha até R$ 5 mil mensais. Para compensar a perda de arrecadação com essa ajuda aos menos aquinhoados, o mesmo projeto aumenta o IR para quem ganha R$ 1 milhão por ano. A pesquisa Quaest constata que 88% dos deputados são favoráveis à isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil por mês. Mas 46% são contra aumentar o IR dos ricos… E 10% não sabem se são contra ou a favor. Ou não querem contar para ninguém…
O governo tem outra proposta para reduzir seus gastos: cortar os supersalários. Adivinha o que mostra a pesquisa? Ora, ora… 53% dos representantes do povo são contra essa medida. E assim vão os deputados. Exigem equilíbrio fiscal desde que não se corte nenhum privilégio. A demora em votar projetos do governo, como o que propõe corte linear nas isenções e incentivos tributários, é prova disso. O silêncio sobre a possibilidade de redução dos valores das emendas parlamentares é outro. Essa relativa impopularidade do governo facilita a pressão do Congresso contra Lula.
Olha o que dizem nossos representantes na Câmara dos Deputados: 46% deles avaliam negativamente a gestão Lula III. Outros 27% acham bom este terceiro mandato do petista. Agora, olhando para trás, dá para ver que esse apoio de 27% está dentro da média que garantiu ao lulismo – fora os anos FHC – a presença em todos os segundos turnos de eleições desde 1989, com a exceção de 2018. Aí vai uma numeralhazinha. Em 1989, Fernando Collor, com 30,48%, e Lula, com 17,19% dos votos, foram ao segundo turno. Vinte e dois candidatos disputaram aquela eleição. Entre eles, estrelas da nossa política: Mário Covas, Ulisses Guimarães, Leonel Brizola. Collor ganhou com 53,03% dos votos. Lula chegou aos 46,97%.
Em 1994, Fernando Henrique e o Plano Real ganharam no primeiro turno. Mas Lula alcançou, respectivamente, 27,04% e 31,71% dos votos. E chegamos à era Lula. Em 2002, líder metalúrgico vira presidente da República, derrotando José Serra por 61,26% a 38,73%. O bi de Lula viram em 2006, quando venceu Geraldo Alckmin por 60,83% a 39,17%. E aqui vale um parêntese para uma curiosidade sobre aquela eleição. No final do primeiro turno, meio desgostoso com a condução da campanha, o então presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, alertou: corremos o risco de ter menos votos no segundo turno… Não deu outra. No primeiro turno, Alckmin recebeu 41,62% dos votos. Acho que foi a única vez que um candidato teve a votação diminuída…
De volta a Lula. Em 2010, impedido de disputar – daquela vez pela Constituição – lançou e elegeu Dilma contra José Serra no segundo turno. Em 2014, ainda na sombra de Lula, Dilma derrotou, também no segundo turno, Aécio Neves. Aí, chegamos a 2018 com Lula outra vez impedido. Desta vez, pela Justiça e pela Constituição, por consequência. O candidato lulista, Fernando Haddad, foi derrotado por Jair Bolsonaro. O candidato que se apresentava como o “contra tudo isso que está aí” aproveitou todo o descontentamento da população diante do que resultava da Operação Lava Jato. Mas os 44,8 por cento dos votos em Haddad no segundo turno mostraram que o lulismo não morrera. O que se confirmou em 2022 com a nova vitória do Lula.
E hoje, o que podemos esperar de opções para votar no ano que vem? Já muita gente preconiza a derrota de Lula. Há quem ache que ele não conclua o mandato. Eu acho que ainda é cedo. Afinal, nenhuma pesquisa, até agora, aponta Lula abaixo da medida de 30, 30 e poucos por cento de apoio popular. Vamos à pesquisa Quaest. Os deputados que avaliam o governo negativamente são 46%. Outros 27% (olha a média aí) consideram o governo positivamente e outros 24% dizem que a gestão Lula III é regular. Número para todos os gostos. Os lulistas somam o regular com o positivo. Os bolsonaristas somam o positivo com o regular. E dá para ser pessimista ou otimista usando a margem de erro da pesquisa, que é 4,5 para cima ou para baixo.
Assim, o Lula pode estar mal avaliado por 41,5% e apoiado por 31,5%, diriam os lulistas, puxando a margem de erro para baixo… Quando perguntados sobre quem vai ganhar a eleição, 50% dos deputados arriscam dizer que será um candidato da oposição. Mas outros 35% dizem que Lula ganha a eleição, como diz o povo nas pesquisas populares. Ainda é cedo. Ninguém sabe quem será o candidato da oposição e, até agora, nenhum grupo político teve competência para apresentar um candidato que abra uma brecha nessa disputa lulismo x bolsonarismo. Então, o que se pode afirmar – com boa chance de acerto – é que Lula é candidato e estará no segundo turno. A guinada do discurso à esquerda, para dizer que só não ajuda mais os pobres porque não deixam, mostra que Lula quer, já, a militância, que lhe garante, desde sempre, esses permanentes 27%, 30% de apoio mobilizado.
Resta ver se a comunicação do governo saberá levar esse discurso às ruas e levar mais gente para dentro da bolha lulista. A ver…
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Foto da Capa: Rovena Rosa / Agência Brasil

