Cena 1: no hospital
Chego ao hospital em São Paulo.
No elevador, há seis pessoas.
Duas estão tossindo.
Cinco estão sem máscara.
Apenas um sujeito está mascarado. Nas mãos, leva uma revista de palavras cruzadas.
Ele precisaria aproveitar o tempo para fazer crônicas, mas sabe que nem sempre dá para buscar, mais que inspiração, concentração.
Além disso, talvez nem haja lugar para se sentar direito.
Cruzadas é um bom jeito de passar o tempo.
Na sala de espera do andar do hospital, há pelo menos sete pessoas tossindo.
Duas delas sem parar. Alucinadamente.
Parecem competir para saber quem ganhará o Campeonato Mundial de Tossidas.
Competem em dois quesitos: quem tosse mais alto e quem tosse mais vezes.
Vejo duas enfermeiras, aproximo-me e pergunto, com educação. Tenho certeza de que foi com educação:
– Bom dia! Não quero ser intrometido, mas, vejam, tem muita gente tossindo. O país vive agora a epidemia de influenza, e ninguém está de máscara. Ou melhor: tem aqui nesta sala umas 40 pessoas e só eu e aquela senhora lá ao fundo é que estamos usando máscara. Vocês bem que poderiam orientar as pessoas, especialmente essas que estão tossindo…
Uma delas responde:
– Mas não se pode mais obrigar as pessoas a usarem máscaras!
E acrescenta, como se fosse um dito libertário:
– É proibido obrigar.
– Veja, não estou pedindo para vocês expulsarem quem está sem máscara. Nem para jogarem essas pessoas aqui do quinto andar. É proibido obrigar, mas não é proibido orientar. Por isso eu disse: “Orientar as pessoas”. Uma instituição de saúde não serve apenas para curar, mas também para prevenir doenças.
Ela me olha como se eu fosse um ET.
E simplesmente responde:
– Oriento o senhor a se sentar. Aqui atrapalha o movimento.
Cena 2 – No Posto de Saúde
Chegamos, Maria e eu, ao posto de saúde.
As campanhas nos chamaram e aqui estamos.
Vacina para idosos no SUS.
Para influenza.
Acho que vão nos barrar.
Dizer: vocês são jovens.
O que estão fazendo aqui?
Caiam fora, seus impostores.
Mas deixam que a gente entre.
Imagino que, se Maria estivesse sozinha, seria impedida.
Mas ao meu lado talvez pensem:
– Veio acompanhar o senhor grisalhão…
Quando nos chamam,
Sou cavalheiro e digo para Maria:
– Podes ir primeiro…
A enfermeira simpática está de luvas.
Se prepara para aplicar a vacina na minha esposa.
O telefone celular toca.
Ela – a enfermeira – atende. Conversa por pouco mais de um minuto. Digita alguma coisa, pega a seringa e volta em direção a Maria.
Indago:
– Mas a senhora não vai higienizar as mãos antes?
– Eu estou com as mãos limpas, senhor.
– Talvez até estivesse. Mas há pouco a senhora pegou no celular com a palma da mão e também digitou no teclado. As pessoas, eu inclusive, usam o celular em tudo o que é lugar. Até mesmo no banheiro! Acho que, como enfermeira, a senhora sabe que pouca coisa é tão propagadora de infecções quanto o celular – digo.
Ela olha feio.
Passa álcool nas mãos e se aproxima da Maria.
Tem o rosto maligno.
Uma bruxa.
Salvei a Maria da morte por infecção, mas agora, como vai doer muito, ela vai me matar de tanta bronca ao chegarmos em casa…
Mas a enfermeira é delicada e Maria, que sempre tem medo de vacinas, sai incrivelmente leve, como se nem tivesse sido picada.
Agora é a minha vez.
A desgraçada se aproxima.
Vejo a bruxa, a torturadora, a inquisidora se aproximando de mim. Poupou minha esposa, mas agora vai enfiar a agulha de um jeito que atravessará o braço e chegará ao coração.
Mas também mal sinto a picada.
A moça é de uma delicadeza impressionante.
Respiro aliviado.
Essa enfermeira é uma santa!
Ao sair, faço questão de agradecer:
– Obrigado! Boa tarde e ótimo final de semana para ti.
Olho para trás para me despedir e agradecer.
Ela mal escuta.
Já está com o celular nas mãos, digitando.
Cena 3: na Farmácia
Entro na farmácia em Santos, onde vivo há poucos meses. Torço para que uma funcionária, que é sempre simpática e bem-humorada, esteja no caixa.
É quase um ritual.
Todas as manhãs me peso antes de caminhar.
Que bom.
Ali está ela.
Diante dela há uma fila de, talvez, oito pessoas.
Ela me vê.
– Tudo bem? – indago!
Ela responde:
– Não… não está.
É a primeira vez que a vejo assim.
Preocupado, pergunto o que houve.
Ela responde:
– É que hoje estou muito gripada.
Penso se devo ou não falar. Isso dura segundos. Como na maioria das vezes, eu não resisto.
– Então, por que é que você não está de máscara?
Ela, surpresa e um tanto constrangida, responde, sempre com simpatia.
– É verdade. Eu tenho máscara lá dentro. Depois eu vou buscar…
Já que comecei, vou até o fim…
– Suponho que lá dentro não seja longe. Ida e volta dá, no máximo, um minuto. Por que você não vai agora? Até mesmo porque algumas das pessoas que estão aqui na farmácia porque estão doentes ou porque não querem ficar doentes…
Ela me olha surpresa.
Não esperava que eu fosse tão contundente.
Pede licença e volta depois de um tempinho.
Acho que em menos de um minuto.
Falo tchau, meio sem jeito, por ter sido rude com quem é sempre tão afável.
Ela pergunta:
– O senhor não vai se pesar hoje?
– Agora não – respondo. Comi pizza e doce ontem à noite, além de beber vinho. Desta vez, só verei meu peso após a caminhada, que hoje será ainda maior.
E acrescento, inventando uma culpa que não sinto:
– Estou é com excesso de peso na barriga e na consciência.
A caixa sorri e exclama:
– Até mais tarde.
O tom de voz deixa claro que não mudará a forma de me tratar.
Quando me aproximo da saída, ouço uma tossida.
Olho para trás. Foi um senhor na fila.
Eu não tinha reparado.
Ninguém na fila está de máscara.
Nem na farmácia.
Só eu e a caixa.
Será que ninguém neste país tem peso na consciência por infectar os outros?
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Foto da Capa: Freepik

