
O que um aposentado que vive com um salário-mínimo na periferia de uma metrópole — ou numa cidade pequena, ajudando filhos e netos com o pouco que recebe — tem em comum com uma árvore da Amazônia, do Cerrado ou da
Mata Atlântica?
À primeira vista, nada. O aposentado depende do pagamento que recebe no final do mês; a árvore está distante, oculta em um morro ou às margens de um rio para onde quase ninguém vai. Mesmo assim, ambos dependem de uma
decisão política parecida: considerar a proteção social e a proteção ambiental como despesas sem retorno e adiáveis, enquanto prometem juros mais baixos, investimento, emprego e prosperidade.
Uma das propostas apresentadas na campanha deste ano é desvincular os benefícios previdenciários do salário-mínimo e os pisos de saúde e educação da arrecadação. A justificativa é bem conhecida: controlar o déficit público,
diminuir a dívida, reduzir os juros e promover o crescimento. Não se trata de uma conversa ilegítima. A dívida elevada e os altos juros dificultam a vida tanto de quem trabalha quanto de quem depende de serviços públicos.
O problema surge quando essa conta é apresentada como se houvesse apenas uma forma de pagá-la. Reduzir a renda de quem ganha pouco, congelar salários, cortar gastos na educação, diminuir a fiscalização e confiar que o mercado resolverá tudo não é a única alternativa: é uma decisão. Normalmente, é a mais fácil.
E existem opções das quais se fala muito menos, pois envolvem forças poderosas: empréstimos com juros vantajosos que permanecem acessíveis para a agricultura empresarial; incentivos à mineração e a grandes empreendimentos imobiliários, apresentados como geradores de divisas e empregos; e subsídios a indústrias poluidoras, incluindo a de combustíveis fósseis. É imprescindível o crédito público. A produção rural também. A questão é outra: quais atividades serão financiadas, quais serão as regras e para quem elas serão destinadas.
Quando há cortes em benefícios e salários, mas se preservam grandes conglomerados econômicos e rentistas, a renda disponível diminui e o consumo encolhe exatamente nos pontos onde ele sustenta a economia: no comércio local, na oficina, na pequena empresa, na feira. O resultado pode ser contrário ao esperado: redução de empregos formais, aumento de trabalhos precários e dificuldades para pequenos negócios. Não é uma questão de futurologia, mas de um padrão já identificado em políticas de ajuste que se baseiam principalmente em cortes de gastos.
A história se apresenta de várias formas. Em algumas ocasiões, é apresentada com a promessa de combater a corrupção; em outras, como tem ocorrido frequentemente na América Latina, pelo discurso de guerra à violência.
Ocasionalmente, reúne os dois. Como a memória tende a ser curta, a promessa de ordem, austeridade e prosperidade parece renovada, e decisões passadas surgem como se fossem inevitáveis.
O corte que aparenta ser pequeno
Quando se menciona “flexibilizar regras ambientais, pode dar a impressão de que se trata apenas de diminuir a burocracia. No entanto, muitas dessas regras determinam decisões práticas: se o impacto ambiental de uma barragem será
cuidadosamente avaliado, se uma comunidade será consultada, se uma nascente será protegida e se o órgão ambiental terá tempo suficiente para analisar um projeto antes que ele se torne um fato consumado.
Aprovada em 2025, a Lei Geral do Licenciamento Ambiental preservou a obrigatoriedade de Estudo de Impacto Ambiental para projetos com potencia de causar degradação significativa. No entanto, por iniciativa do Congresso
Nacional, foram ampliados os procedimentos simplificados e a licença por adesão e compromisso para determinadas atividades de pequeno ou médio porte e baixo ou médio potencial poluidor. O licenciamento não acabou, e
nem toda simplificação é irresponsável. O perigo reside em expandir essas modalidades sem aumentar a capacidade de fiscalização. Em um país com controle irregular e intensa pressão econômica, os problemas geralmente
surgem quando já é tarde.
O aposentado provavelmente nunca se preocupará com essa lei. No entanto, experimentará suas consequências quando uma chuva intensa descer por uma encosta ocupada de forma imprudente, quando sua cidade enfrentar a falta de água devido à degradação de uma bacia ou quando a fumaça de um incêndio florestal fechar escolas, hospitais e comércio. É nesse ponto que a árvore e o benefício social se cruzam: quando a prevenção é vista como um gasto adiável, o custo se manifesta como perda de renda, serviços públicos e segurança — e recai primeiro sobre aqueles que têm menos recursos para se proteger.
A conta tem um destinatário
Há muitas evidências, tanto no Brasil quanto no exterior, de que não só a magnitude do ajuste fiscal é relevante, mas também a maneira como ele aloca seus custos. O Fundo Monetário Internacional aponta que as consolidações
focadas principalmente em cortes de despesas tendem a aumentar a desigualdade mais do que aquelas que se baseiam em receitas (como reformas fiscais e redução de subsídios). Isso ocorre especialmente quando essas medidas afetam empregos, salários e gastos que protegem a população de menor renda. Não é uma questão de defender o desperdício, mas de entender que diferentes abordagens geram diferentes consequências sociais.
Uma versão atual desse experimento pode ser encontrada na Argentina. Embora o governo tenha priorizado o déficit zero em sua política, um estudo da Fundação Ambiente e Recursos Naturais revelou que a Subsecretaria de Ambiente teve, em 2025, o orçamento mais baixo dos últimos nove anos. A discrepância nas prioridades se reflete nos valores: o Fundo de Bosques Nativos utilizou 2,38 bilhões de pesos, ao passo que os subsídios às empresas de hidrocarbonetos totalizaram 377,82 bilhões — um montante 41,5 vezes maior do que o destinado a energias renováveis e eficiência energética. Isso não implica que cada real economizado na floresta tenha sido direcionado a
uma empresa petrolífera. No entanto, isso indica que o ajuste não foi neutro: houve uma escolha sobre onde apertar e onde afrouxar.
Posteriormente, o Congresso argentino aprovou uma reforma que permite que as províncias determinem as proteções para glaciares e regiões periglaciares. Governo e setor mineral vinculam a alteração à oportunidade de investimentos e criação de empregos; especialistas alertam sobre o risco para as reservas de água dos Andes. Assim, a disputa não coloca o desenvolvimento em oposição a uma abstração ideológica, mas sim os benefícios econômicos
imediatos contra uma reserva de água que não pode ser criada após o derretimento do gelo.
Existem outras opções. Nos EUA, a Inflation Reduction Act de 2022 integrou a política climática ao suporte para comunidades de baixa renda. Nesses locais, projetos de energia limpa puderam obter bônus de 10 a 20 pontos percentuais em créditos fiscais. Além disso, parte da capacidade foi destinada a terras indígenas, habitação subsidiada e iniciativas que proporcionassem benefícios financeiros às famílias. Embora a lei não tenha resolvido todos os problemas, ela demonstrou, durante sua vigência mais ampla, que emprego, transição energética e proteção social não precisam competir pelo último lugar da fila. No entanto, posteriormente, o governo republicano reverteu a maior parte dessas medidas.
Pode ser necessário alcançar o equilíbrio fiscal. No entanto, ele não toma essas decisões de forma isolada, como quais aposentadorias serão cortadas, quais órgãos perderão funcionários, quais empresas receberão crédito e quais
subsídios permanecerão inalterados. Essas decisões são tomadas por pessoas em gabinetes e parlamentos, e têm autores, locais e votos.
Quem derruba árvores também considera um luxo o tratamento da água, do ar e do solo, além da proteção contra enchentes. E corta ainda mais ao enviar a conta para a família que não tem condições de pagar um plano de saúde,
comprar água, mudar de bairro ou aguardar anos pela prosperidade prometida. Ao final, a árvore derrubada e a redução do benefício levantam a mesma questão: quem se beneficia quando os mais pobres perdem até o que parecia
não ter custo?