
Sim, preciso falar sobre nós! Desejo falar com você sobre cada um e cada uma de nós, brasileiros e brasileiras. Quero falar sobre o Brasil que estamos sendo e aquele que poderemos chegar a ser. Vamos conversar sobre o segundo turno das eleições, que ocorrerá no próximo dia 25. E eu realmente não intento confabular sobre outra coisa. Contudo, preciso lhe dizer que, em meu entendimento, essa polarização tão acirrada entre direita e esquerda, conforme insistentemente comentada, é mais do que propriamente entre direita e esquerda. É entre bolsonaristas e defensores da soberania nacional. De fato, a disputa eleitoral expressa um conflito entre projetos distintos de democracia, soberania, inclusão social e relação com as instituições republicanas.
Não é sobre a direita convencional que quero discutir, pois observo que as dinâmicas na disputa eleitoral já estão consolidadas em nossa história. Foco no fenômeno do bolsonarismo consciente – não necessariamente militante – que representa uma ameaça mais severa: trata-se de um movimento de características fascistas sob o verniz da direita, rendido ao ultranacionalismo, à construção de inimigos internos, ao culto à autoridade, à deslegitimação do pluralismo, à mobilização política pela produção do medo e à tolerância à violência contra adversários. Tampouco estamos diante de uma mera polarização entre conservadorismo e progressismo. Há uma tentativa de associar o uso político de valores tradicionais para justificar práticas de exclusão e intolerância ao pensamento conservador; são premissas propositadamente falsas. Cogito que o verdadeiro conservadorismo está representado, por exemplo, em nossa defesa da família como núcleo de afeto, dignidade e formação cidadã. Ressalto que defender a família não se vincula a uma modalidade exclusiva de viver o direito ao afeto. Nós, humanistas conservadores, defendemos a família muito para depois da heteronormatividade. Abominamos ataques ao que chamam de ideologia de gênero e à conceituação heteronormativa da família.
Reconhecemos o direito de cada indivíduo ser e viver de acordo com os princípios que organizam sua vida. Essa tese está longe de ser inovadora, pois resgata as tradições greco-romanas e o pensamento da Renascença burguesa. Convém, portanto, não se deixar ludibriar por falácias que mascaram graves distorções da realidade. Atitudes como o respeito às instituições democráticas, o reconhecimento do pluralismo, a aceitação da alternância no poder e a rejeição da violência política podem, tranquilamente, ser concebidas como conservadoras, e não são bolsonaristas.
Quero palestrar sobre um Brasil que, após amargar o terror de vinte anos de ditadura militar, experimentou um processo de redemocratização construído com muito sangue e luta nos porões da sociedade capitalista burguesa. Um Brasil que estatuiu uma Constituição Cidadã e foi progressivamente reconhecendo direitos de minorias organizadas em resistentes movimentos sociais.
Os vinte e um anos de ditadura militar significaram uma dura expressão da vontade norte-americana, que parece ter patrocinado governos de força e exceção em toda sofrida América Latina. Esse evento de desejarem fazer do nosso país um quintal a ser explorado ultrapassa o poderoso Tio Sam. Marca a suposta descoberta das Américas – um “mundo novo” de possibilidades para a exploração europeia – e a invasão portuguesa, que foi generosamente alcunhada de descoberta pelo povo dominador, que aqui deitou e rolou, espoliando nossa gente e nossa riqueza. A tão exaustivamente celebrada Independência do Brasil (1822) consolidou a dependência econômica brasileira da maior potência global de então, a Grã-Bretanha. Em 1889. Ela, cujos interesses geopolíticos e econômicos atravessaram a decantada Proclamação da República.
Mas, se de um lado a história brasileira carrega as cicatrizes dos alinhamentos das elites a interesses escusos e poderio inconsequente; do outro, somos um povo que sempre resistiu. De tal sorte, formamos uma gente que tem orgulho de pertencer a uma tradição de lutas contínuas que caracterizam nosso povo desde a chegada dos colonizadores portugueses no século XVI – ocasião em que povos nativos enfrentaram tentativas de escravização e perda de territórios – até os tempos que desaguam no hoje do segundo turno eleitoral. São grandes lutas contra o domínio externo e são batalhas nacionais e regionais em busca de liberdade e respeito.
Desde a nossa ancestralidade negra e das comunidades de terreiro, passando pelas populações vulneráveis e por toda a pluralidade de gêneros, raças e credos, seguimos firmes no combate à opressão e ao preconceito. Essa é a verdadeira essência da nossa trajetória histórica: uma nação moldada pela coragem de um povo que não recua diante das adversidades.
Acontecimentos históricos, como a resistência dos quilombos, liderados por figuras como Zumbi e Dandara dos Palmares, e a preservação das comunidades de terreiro, que historicamente enfrentaram e ainda combatem o racismo religioso, são exemplos de luta para salvaguardar suas tradições sagradas de matriz africana. Temos conhecimento de que, ao contrário do mito da “colonização pacífica”, a invasão europeia enfrentou forte oposição militar das nações indígenas. Trata-se de uma resistência contínua contra a colonização, a escravidão e a perda de seus territórios. Essa trajetória se divide historicamente entre as guerras e revoltas armadas coloniais e os movimentos políticos contemporâneos organizados a partir do século XX.
A história recente registra a mobilização de movimentos sociais nas periferias e comunidades urbanas na batalha por moradia digna, saneamento básico e contra a violência estrutural. Eles se unem à articulação política de mulheres, populações indígenas e à comunidade LGBTQIA+. Por meio de protestos, ocupações institucionais e ações afirmativas, desafiam as estruturas de preconceito para garantir igualdade de gênero, diversidade e o reconhecimento pleno de suas existências e direitos civis.
O que dizer do movimento estudantil recente, que se constitui em diversas articulações de estudantes da educação básica e universitária, ocupando instituições educacionais públicas e reivindicando direitos sonegados? Veja, por exemplo, a “primavera secundarista” ocorrida em 2015, no Estado de São Paulo. O Movimento Ocupa, nos anos 2000, durante o governo do golpista Temer, liderou mobilizações frente às questões educacionais de então. Este pautou-se como resistência à MP 746/2016, que visava a uma reforma nefasta do ensino médio sem um diálogo com a comunidade. Não se pode esquecer a PEC 55, que instituía um teto para os gastos públicos pelo período de 20 anos, prejudicando em demasia o financiamento da saúde e educação e a continuidade de políticas educacionais dos governos Lula e Dilma. Como se não bastasse, eclodiu o projeto Escola Sem Partido no intento de promover uma castração da liberdade de docentes e discentes nos afazeres dos processos educacionais.
Em Pernambuco, participamos do movimento nacional com a ocupação da Escola de Referência em Ensino Médio (EREM) Cândido Duarte, no bairro de Apipucos, Zona Norte do Recife, em novembro de 2016. Outras unidades aderiram ao movimento, como a Escola Martins Júnior (Torre), a Escola Governador Barbosa Lima (Centro) e a Escola do Porto Digital.
Como deixar escapar da memória uma história tão densa? É nosso chão de perspectiva; com ela aprendemos, desde ele conseguimos realizar projetos e realizar a construção de futuros. Um povo sem memória padece ao repetir erros, ao não superar limites, ao não desenhar outros mundos possíveis. A memória nos convoca a assumir uma responsabilidade política diante do presente e do futuro e nos permite retroalimentar nossas energias no mirante das lutas que travamos.
A história recente do país ficou maculada com uma governança que sonegou direitos e armou nossa gente, promovendo uma verdadeira luta de todos contra todos. São páginas infelizmente caracterizadas pela militarização, pela expansão de milícias e por milicianos assumindo importantes postos no poder. Um golpe na democracia que comprometeu nossa vida e sonegou alguns direitos conquistados. Depois, um indivíduo assumiu a presidência, eleito pelo sufrágio de pessoas simples e trabalhadoras, que foram manipuladas ou assustadas pelos discursos que manchavam a imagem de cidadãos de bem. As narrativas de então espalharam-se mediante o monopólio de uma infinidade de redes sociais e denominações religiosas convencidas de que o comunismo avançava e os valores da pátria corriam o risco de irem para a lata do lixo. Sequestraram os símbolos da pátria, confiscaram a ideologia fascista e levantaram a bandeira de “Deus, Pátria, Família” no propósito de seduzir as pessoas mais simples.
Neste momento é mister ponderarmos, acionando nossa memória. Desde a distante história de sofrimentos e lutas de nossos ancestrais, de nossos pais e mães, até as vitoriosas batalhas de libertação. Pessoas negadas, sem vez e sem voz, conquistaram políticas de resgate de sua dignidade em numerosos âmbitos da vida cidadã. A memória de tudo que vivemos e somos indica que não queremos mais os nossos filhos e filhas excluídos/as do direito fundamental a uma vida digna. Pois bem, meu amigo leitor, ainda que você possa discordar de mim, e eu o respeitarei de forma incondicional, precisamos colocar em questão qual é o Brasil que desejamos construir no hoje de nossa história.
Estou muito apreensivo – confesso -, pois são dois projetos políticos opostos em disputa. Um que representa um povo inescrupuloso, cujo lema é riqueza, poder e interesses acima de tudo. A qualquer preço! Essa gente nós conhecemos bem e somos cotidianamente suas vítimas. É preciso enxergar bem o bolsonarismo como uma estratégia de consecução do poder por uma família e milicianos, cujo projeto político se alinha a uma perspectiva política de concentração da riqueza e sua distribuição. Como disse, direita e bolsonaristas não são exatamente a mesma coisa! Embora não nos alinhemos nem defendamos essas perspectivas, elas são distintas. Estão unidos porque em seus projetos políticos não existe espaço para políticas sociais que restituam ao trabalhador, ao negro, ao empobrecido, às mulheres, sua dignidade. São perspectivas que defendem a propriedade privada, a concentração de renda e a exploração do trabalhador.
Este projeto logrou êxito no primeiro turno em razão da consagração eleitoral conferida a uma infinidade de indivíduos, alguns absolutamente sem a menor experiência política, para cargos eletivos nos próximos quatro anos. Mas essa é uma luta que vamos deixar para depois do dia 25 de outubro. Importa saber que ainda restam eleições para cargos majoritários proximamente.
E qual é o outro projeto político? O outro você tem experimentado por meio de resultados concretos na educação, na saúde, no emprego, na economia. São os melhores resultados? Claro que não. Há muito ainda a ser feito e estamos aquém daquilo que merecemos ter. Porém, estamos no caminho. Escolher esse segundo projeto não implica em subserviência e adesão sem crítica. Muito pelo contrário. Vamos permanecer atentos. Vamos fazer as críticas necessárias, pois, com certeza, haverá o espaço democrático para o embate político. A escolha eleitoral não precisa ser interpretada como aprovação integral de um governo, mas como um julgamento comparativo entre alternativas políticas, considerando seus efeitos sobre os direitos, as instituições e as condições de vida da população. Por isso, precisamos discernir bem, recorrendo à nossa memória histórica, e apostar no avanço daquilo que já conquistamos.
Você certamente tem assistido à juventude indo às ruas, ao povo enxergando a necessidade de evitar a ascensão de um candidato que nem sabe exatamente o que é ser trabalhador de direito e de fato. Todos nós estamos cercados por um turbilhão de mentiras, de ameaças, de prisões arbitrárias, de eventos criminosos. Tentam nos fazer inimigos uns dos outros. Não o somos! Somos cidadãos de uma nação democrática, livre, de gente esperançosa e trabalhadora. Certamente, estamos juntos buscando o melhor para nossa gente.