Diferente dos modernos, não tenho muita fé no destino positivo e assertivo da História Humana. E os rumos atuais que a experiência humana dá sinais de trilhar esvaziam ainda mais qualquer credo ou esperança no progresso civilizatório, que não deve ser confundido com o avanço tecnológico: os atuais exércitos em guerra acionam a mais alta tecnologia para perpetrar a mais baixa vileza nos campos de batalha, a comunicação por meio das sofisticadas redes digitais abriu as portas para as mais nocivas desinformações e as mais abjetas manifestações de ódio. Vejam: não é que o distópico pessimismo tenha nublado minha consciência, mas também não dá para seguir estampando uma alegria à sem-lenço-e-sem-documento. A roda-viva gira o tempo do Brasil, do Mundo e o nosso, carregando para lá qualquer inocente esperança em se ter alguma ciência do sentido do destino.
Assim, não tendo sentido aparente, o destino e a história fizeram cruzar, mais uma vez, os caminhos de uma determinada personagem de telenovela com as vicissitudes da política brasileira e o atentado contra a preservação do meio ambiente.
Em 1988, época da versão original do teledrama Vale Tudo, o Centrão (recém articulado) barrava os avanços na Carta Constitucional, um certo tenente dos paraquedistas era expulso do Exército com suspeitas de atentado a bomba contra seus próprios quartéis e a sociedade brasileira dava de costas para a preservação de suas florestas e matas. Em 22 de dezembro deste ano, numa quinta-feira, Chico Mendes é assinado, dois dias antes da morte da personagem: fato que o excluía da lista de suspeitos… A eliminação da figura teledramática se deu no sábado, 24 de dezembro: a Ceia de Natal (devorada nesta véspera) se deu sob um dos mais históricos picos de audiência. Por sua vez, a notícia da morte do ambientalista foi dada primeiro nos EUA: no Brasil, naquela época, a causa de Chico não valia nada…
Nos dias de hoje, Odete Roitman vai morrer antes da COP 30.
Nesses quase trinta anos do assassinato de Chico Mendes, se avançou bastante na visibilidade sobre as questões ambientais. Porém, o atentado contra a preservação do meio ambiente aumentou de volume: o governo dos EUA, que havia apoiado o prêmio Global 500 (criado pela ONU e ganho por Chico no ano anterior a sua morte), atualmente, abandonou o Acordo de Paris; os ambientalistas de todos os cantos do planeta alertam que já estamos muito próximos do ponto sem-retorno no que se refere às mudanças climáticas, provocadas pelo modelo de industrialização capitalista. Por outro lado, em fado diverso da personagem e do herói verdadeiro, o Centrão segue vivo e fez aprovar na Câmera dos Deputados a nefasta PEC das Praias (a privatização de um dos espaços mais populares e democráticos do país), além da manutenção dos mecanismos (i)legais que permitem as emendas individuais serem repassadas para municípios e estados sem o controle de convênios que possibilitem sua fiscalização: o Centrão mudou a face do nosso presidencialismo.
Em suma, rodado o globo e nossas esperanças, o Brasil e o mundo estão mostrando a sua cara e apresentando, a quem queira ver, quem é que paga para que fiquemos pior do que já estamos.
Porém, como afirmei acima, o ceticismo ainda não tomou por completo meu espírito: apesar do tenente expulso três décadas atrás das forças armadas ter chegado a ser presidente (navegando nas ondas da retomada da Ditadura Militar), foi recentemente condenado a mais de vinte e sete anos (quase trinta) por tentativa de golpe militar. E o esforço do Centrão, de passar uma cínica anistia para ele e outros, foi (por ora) barrado em decorrência das mobilizações populares nas ruas.
Não dá para saber o sentido do trajeto a ser percorrido pela História do Mundo e, muito menos, pela História do Brasil, mas dá para desconfiar que nessas novelas, os personagens têm o poder de interferir no roteiro.
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Foto: Arte, Agência Brasil

