Como uma das tantas versões atuais do empreendedor de si, vejo escritoras e escritores se desdobrando um tanto na vida, nas redes sociais e nos espaços públicos para sustentar a atividade literária. Isso vale também para aquelas e aqueles que, como eu, têm outra atividade responsável pelo sustento principal. Talvez não na mesma medida, mas, na mesma intenção, boa parte de nós está exposta na vitrine mais do que nossas obras.
Nesse sentido, sentar diante de um teclado e não ter muito o quê dizer parece ser o menor dos problemas se, mais adiante, quando destravar, a escritora não se ocupar com o seu público, quer dizer, com o alcance que seu texto terá. Editores fazem o que podem, já sei, mas, cada vez mais, o alcance de um texto, de um livro ou de uma obra vai se tornando refém da pessoa – e, publicitariamente, da persona – que o escreveu.
Parece que estou enveredando para uma queixa, mas nem tenho tempo. O principal hoje, para mim, seria levantar um pensamento sobre como isso que aqui vou chamar de blogueirismo compulsório impacta na atividade literária em si. Como consequência esse pensamento me leva à seguinte questão: qual texto se sustenta sozinho hoje? Melhor dizendo, quais textos são capazes de chegar aos leitores sem a influência ativa da persona – nos casos de fama e engajamento – e/ou do trabalho de difusão incansável da pessoa do autor? Quais textos ainda merecem ser lidos anonimamente ou no regaço de um pseudônimo qualquer?
Não sei, não sei e não sei. Desconfio, ainda assim, que a questão radica em algo que nós escritoras e escritores tememos enfrentar: o fato de que leitores estão em extinção. Ou, se não é exatamente isso, estão mudando radicalmente a noção de leitura. Porque ler mal, inclusive, interpretar mal, ainda é ler. Temos likes, compartilhamentos e até mesmo clickbaits, mas temos leitoras e leitores. Fica o enigma.
E, para nós, escritoras, encurraladas nessas barreiras, além do patriarcado, racismo e sexismo, resta saber se escreveremos ainda assim. Queremos ser lidas, é fato, mas como ponderar o risco, inclusive subjetivo, quando nossa pessoa precisa estar na primeira linha de tudo o que escrevemos? A ilusão ou cinismo do “escrever por escrever” também não soluciona, a não ser em parceria com a gaveta, já que parte da atividade é publicar. O sensível aqui é o limite entre publicar uma obra e o incessante publicizar de si.
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Foto da Capa: Freepik

