Vamos colocar as coisas nos seus devidos lugares? Um judeu e um “antissionista” (como eu já disse inúmeras vezes neste espaço, “antissionismo” é a roupagem moderna do antissemitismo) deixaram de se falar, e isso é interpretado como “divergência ideologica”.
Opa! Percebam a perversidade de tal premissa comum e corrente.
Vale ir à raiz dessa conversa e sermos lindamente radicais. Esse rompimento não é entre pessoas que pensam diferente. É entre o integrante de uma das minorias mais perseguidas, excluídas e violentamente discriminadas da história e os racistas que a rejeitam.
Tem muito cara por aí que deveria estar preso pelas palavras absurdas que profere. Mas não dá nada, né? Falar mal de “sionistas” é bacana, está na moda, é não apenas aceito, mas também estimulado inclusive por líderes que usam a nefasta palavra “vitimização”.
Sempre é bom lembrar que, no julgamento do Caso Ellwanger, há mais de 20 anos, o STF estabeleceu que o crime inafiançável do racismo não se limita à cor da pele, mas inclui também o ódio étnico. Diante disso, eu pergunto: Ministério Público, cadê você?!
Aliás, um contexto era o de romper com o tio bolsonarista ou o primo “comuna” (categoria na qual me incluo) e depois se reconciliar aos risos vendo o rompimento como folclore, tapinhas nas costas, “coisas daqueles tempos polarizados”, bola pra frente, passou etc.
Até porque é e deve ser assim, a não ser que, claro, o sujeito seja um racista ou homofóbico incontornável. Aí o furo é mais embaixo. Mas o terraplanista, por exemplo, dá pra aguentar, porque sempre foi folclórico e não pode ser visto como nada além disso, tipo o cara que até hoje duvida que o homem chegou à Lua ou acredita que o Paul morreu dando lugar a um sósia. Dessas figuras, só se ri, e até com algum carinho condescendente. Vira folclore.
O fato é que precisamos conviver com e respeitar o diferente, sempre que não for um criminoso ou representar perigo.
Mas, voltando ao assunto: esse racismo antissemita que estamos vendo é algo imensamente profundo e nocivo, tem vínculos impossíveis de serem recuperados. São rupturas incontornáveis, a não ser que a pessoa se dê conta do que está cometendo e faça uma necessária, forte e sincera contrição.
Escrevi o trecho acima e me lembrei de Massada.
No excelente livro “Minha Terra Prometida: o Triunfo e a Tragédia de Israel”, de Ari Shavit, há um alerta. Temos duas efemérides a serem lembradas sobre Massada, aquela fortaleza para onde correram os revoltosos judeus que resistiam à expulsão romana no ano 70 da Era Comum. Foi ali que começou a nossa atual diáspora, e desde então o povo judeu sonhava com o retorno ao lar ancestral (e somente isso é o tão demonizado sionismo). Na ocasião (mais precisamente no ano 73), 960 homens, mulheres e crianças tiraram a própria vida para não serem submetidos ao jugo romano. E o movimento sionista por muito tempo não deu ênfase a esse episódio porque o suicídio, mesmo que heróico, não era e não é bem visto na cultura judaica.
Mas veja que temos agora os 1950 anos de uma obra (do historiador Flávio Josefo) e os cem anos de outra (do também historiador Joseph Klausner). Eis o trecho de Shavit:
“Em 1923, a única fonte histórica sobre o episódio de Massada, a obra ‘A guerra judaica’, escrita por Flávio Josefo por volta de 75 d.C., foi traduzida [do aramaico] para o hebraico. Em 1925, o historiador sionista Joseph Klausner escreveu sobre os zelotes de Massada com intensa afeição. Dois anos depois, Yitzhak Lamdan publicou seu poema trágico ‘Massada’. À medida que o nacionalismo judaico era revivificado, também o era o interesse pelo remoto e esquecido sítio e por tudo o que ele encarnava. Estudantes secundaristas de Tel Aviv e Jerusalém empreenderam várias excursões a Massada nos anos 1920.”
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Era o desespero daqueles judeus ao serem jogados numa diáspora crudelíssima que, como veríamos depois, lhes exporia a perseguições como as inquisições, os pogroms e o Holocausto.
Diante disso, e aqui fala um judeu (sionista como naturalmente a quase totalidade dos judeus -e deveriam ser todos) defensor de dois Estados, Israel Palestina, o sionismo é simplesmente o movimento pela autodeterminação e também pela sobrevivência do nosso povo. E digo com todas as letras: quem rejeita a existência do Estado de Israel e não entende a necessidade de defesa da sua sobrevivência como sendo a própria sobrevivência judaica, uma comovente, sofrida e heróica luta de milênios pela preservação da minha etnia e do meu povo (de mim mesmo), é meu inimigo. E isso não é “política”. Esse rompimento é irreversível.
Insights
É igual ou pior que defender a cloroquina!
É igual ou pior que cantar o hino nacional pra pneu!
É igual ou pior que ser terraplanista!
Serei didático:
1) O Irã, além de estar na iminência de ter a bomba, DIZIA EXPRESSAMENTE (ok?!) que queria varrer Israel do mapa e eliminar os judeus.
2) A busca do apagamento de judeus e Israel é um saco sem fundo. Se tu desmonta o argumento, o cara nega até a tua identidade.
3) A ideia de varrer os judeus pra impor um califado é igual aos nazistas fazendo o mesmo para impor os arianos. Só mudam os termos (nem todos…).
Tchê, pelo amor de Deus, é muito básico!
Tem o gado de direita, mas tem o de esquerda.
E é muuuuuuuito cansativo!
Muuuuuuu-ito cansativo (sacou o trocadilho, ou tu é tão burro q não percebeu?)
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Ciro, o Grande! Grande mesmo!
Rei da Pérsia (atual Irã), é também um herói de Israel.
Dá pra se dizer que Ciro foi um sionista.
Dá pra se dizer que foi libertador do povo judeu.
Permitiu o retorno à Judeia na primeira das duas diásporas e a reconstrução do templo. Era nosso amigo! Era gigantesco.
Que os persas rompam as trevas e se inspirem nele!
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Um governo completamente obscurantista, que mata homossexuais e mulheres “transgressoras”, foi à ONU se queixar do governo de um país e de um povo que ele EXPRESSAMENTE diz querer aniquilar. Um país e um povo, aliás, que só lutam pela sobrevivência e amariam poder conviver em paz e segurança com os vizinhos caso isso seja possível.
E os caras acham isso normal?!
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Vi um vídeo em que o inacreditável fascista e fanfarrão Nicolás Maduro diz ter o “verdadeiro sangue judeu”, das 12 tribos, sefaradi, de Moisés etc. Que “esses judeus que saíram da Polônia” (sic) não são autênticos. Como é que é?! Concluo que, na lógica desse primata inadmissível, ele é judeu, e nós não somos (!!!). Outro detalhe: se esses judeus que “saíram da Polônia” (o desgraçado ignora por que fomos parar na Polônia) são falsos, os nazistas então mataram o povo errado. É isso, caradura fraudador de eleições?! Vai pensar na diáspora que tu provocou no teu próprio povo, vagabundo, antissemita! Vai explicar por que tu quer arrancar 75% da Guiana antes de nos definir como “colonialistas”, canalha! Verme! Hipócrita!
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Dias atrás, passei por um conhecido dos meios sedizentes intelectuais, e o cara claramente me olhou com desprezo. O nosso problema não é ideológico, muito longe disso, aliás. Ponhamos os pontos nos “is”. O problema é de racismo antissemita, e eu dizer isso faz ele ficar com ainda mais ódio ao judeu. Sim! Os caras se ofendem!!! É inacreditável! Na Alemanha dos anos 1930, a adesão ao nazismo foi massiva, o que incluía muitos “queridos” letrados e cheios de bons argumentos. Você é igual!
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Dizer que minoria historicamente perseguida se “vitimiza”? Coisa de fascista. Mas se forem judeus…
Slogan desrespeitoso a um povo é só retórica desimportante? Coisa de fascista. Mas se forem judeus…*
Dizer que obscurantistas podem falar na boa em apagar um povo? Coisa de fascista. Mas se for o povo judeu…
Dizer que estupros, degolas e sequestros de centenas são aceitáveis? Coisa de fascista. Mas contra judeu é “resistência”.
*Eu soube que um deputado, conhecido por combater o uso de palavras que interpreta como preconceituosas (e inclusive eu endosso essa interpretação, vejam só que ironia) em outros contextos, acha “só força de expressão” o asquerosamente absurdo slogan genocida “Palestina do rio ao mar”. Ah, claro! São judeus…
Será possível que vocês não se dão conta?!!!
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Ponho aqui breves e talvez desconcertantes reflexões.
“Dói de forma constante, triste, meio surda e bastante decepcionada ver aquele amigo que só silencia pra ‘ñ se comprometer com uma opinião’ (hein?!) quando tu divide no WhatsApp uma situação muito sofrida de antissemitismo empacotado como ‘antissionismo’”.
“Judeu x antissemita não é uma ‘discussão ideológica’; é um integrante de minoria histórica e violentamente perseguida x um cara que o odeia e usa a política como álibi envernizado”
“Esta frase, que é uma informação eloquente sobre o real e essencial motivo desta guerra, merece ser repetida e lida ao infinito pra ver se entendem de uma vez: Israel bombardeou em Teerã um RELÓGIO QUE CONTAVA O TEMPO PRA DESTRUIÇÃO DE ISRAEL”.
Repito: os caras tinham um RELÓGIO QUE CONTAVA O TEMPO PRA DESTRUIÇÃO DE ISRAEL. E você acha normal falarem em “genocídio”, “crime de guerra” e “fair play”?
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Por favor! Basta ter um pouco de boa vontade, bom senso e disposição pra pensar.
Ah, e não ser antissemita.
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Shabat shalom!
Todos os textos de Léo Gerchmann estão AQUI.
Foto da Capa: Ciro, o Grande - Reprodução do Youtube

