Estamos encerrando aquilo que convencionamos chamar de “semana Gre-Nal”, e neste domingo rola o primeiro jogo das finais do “charmosão” (o regional). Não sou a pessoa mais indicada para falar positivamente sobre o “charmoso” e a rivalidade que lhe empresta alguma mínima relevância. Por quê? Porque não o aprecio. Acho que, em nome do charme e da tradição (daí o apodo) e para dar alguma vazão à tal da rivalidade, ok, continuemos tendo esse campeonato quase que completamente irrelevante, mas que seja um quadrangular em algumas semanas de disputa, e não mais que isso.
Mas quero falar de futebol abordando aquilo que me interessa e atrai pra ser um aficionado desse jogo que não por acaso é o mais popular do planeta. Falo dos simbolismos afetivos, dos ídolos, da paixão, do pertencimento, do amor que une gerações, elementos que independem da pobreza dessa rivalidade tóxica, em que muitos preferem vibrar com o sofrimento alheio do que se regozijar pelas próprias conquistas.
Quero falar sobre um profissional que recentemente deixou o Grêmio, porque tenho informações que considero importantes a seu respeito. Refiro-me ao Edenílson, jogador que sempre me agradou como ser humano e atleta, porque gosto dos meias e volantes movediços, que correm de área a área (“box to box”), que marcam, armam e chegam no ataque, tipo o “Passarinho”. Evidentemente, respeito quem pensa diferente, e inclusive incorro numa aparente contradição. Acho que possivelmente o Edenílson não seria titular no time, em especial depois que chegaram novos volantes a se somar ao Arthur, ao Villasanti e a outros, e nem chego a discordar disso, até porque cada vez menos, diante dos calendários maratônicos, o grupo se resume aos 11 jogadores da equipe titular.
Vou contar pra vocês, então, quem é o homem Edenílson, um grande gremista nascido no Humaitá, um dos bairros que fazem parte da Comunidade Tri (Humaitá, Farrapos e Navegantes) e que conformam o entorno da nossa linda Arena, região de pessoas em situação de vulnerabilidade que contam com a ajuda do clube, em especial do IGT (Instituto Geração Tricolor), o braço social da instituição, cuja história tive a honra de escrever em livro bilíngue (IGT: Uma História de Amor e Inclusão, Editora Entrelinhas).
Em primeiro lugar, a liderança positiva de Edenílson era inconteste. Todos o adoravam, dos jogadores aos funcionários. Em segundo lugar, ele é um cara tímido e reservado, mas internamente e aos amigos sempre enfatizou o gremismo que vem da família, desde criança. Em terceiro lugar, vou contar que renovou contrato, no fim do ano passado, aceitando uma redução salarial (seu salário girava em torno de R$ 500 mil mensais, modesto no contexto do futebol). Em quarto lugar, ele saiu dignamente, respeitando seu clube do coração, diante de uma bela proposta do Botafogo, que lhe ofereceu um salário mais elevado e contrato mais duradouro.
Estou reclamando da sua saída? Não! Porque acho que foi boa pra todos os envolvidos. No Grêmio, é provável que ele não fosse titular, o contrato era de apenas um ano e o próprio jogador percebeu que não teria espaço, saindo do clube sem pedir nenhum valor que não fosse o do derradeiro salário (ao contrário de outros, que exigem uma fornida indenização). Pro profissional, foi a oportunidade de um contrato mais vantajoso e um possível melhor aproveitamento. Pro Botafogo, foi a aquisição de um volante movediço e técnico, extremamente útil pela destreza e pela inteligência tática.
Fico, realmente, na torcida pra que Edenílson seja muito feliz, até porque o Botafogo foi o único clube que, na enchente histórica de 2024, aceitou fazer duas partidas em campo neutro no Brasileiro daquele ano (turno e returno), gesto nobre e enorme. E fica aqui o meu pedido pros demais torcedores do Grêmio: Edenílson foi prejudicado quando jogou no Internacional porque sabiam que ele era gremista (lembram a foto do bolo?) e foi prejudicado no Tricolor porque tinha jogado no Inter. O cara é um grande profissional, excelente caráter e consciente da divisão que precisa estabelecer entre carreira e paixão. Ao jogar no Grêmio, realizou um sonho. E defendo que a torcida lhe dedique a alta consideração que merece.
Só isso. Nada mais.
Mesmo que você seja da turma que critica o futebol do Edenílson e torça o nariz pro fato de ele ter antes atuado profissionalmente no rival, entenda o que digo: enxergue a dimensão humana e os valores mais bacanas do futebol, que são a paixão e o pertencimento. O Edenílson hoje está no Botafogo, vai vestir a camiseta da estrela solitária certamente com dedicação, mas sabia que é eternamente nosso.
Sobre o “charmoso”
Você sabe que a mídia em geral vive do lucro, e nada há de errado nisso, ainda mais quando a revolução digital estabeleceu uma guerra pela sobrevivência. O problema é que questões éticas nem sempre são observadas, nem quando se glamourizava o tabaco cancerígeno, nem quando se normalizam os jogos de apostas viciantes. A rivalidade não tem a mesma seriedade desses dois exemplos gravíssimos, mas alimenta mentalidades imbecis porque a imbecilização é monetizável. A mídia empurra o torcedor pra “secar” o adversário e trata um campeonato quase sem importância como se fosse de alta relevância. Por quê? Porque dá lucro.
E por que acho ruim? Porque o ódio ao diferente é a essência de sentimentos perigosos. Porque querer o mal do outro acima do próprio bem é de uma vileza descomunal. Porque quem sofre com o seu time (e é um sofrimento genuíno, sei disso por mim mesmo) e tripudia os outros quando sentem a mesma tristeza é, com todas as letras, um sádico. É da minha natureza desprezar isso. Não quero a desconstrução de ninguém, só quero amar o meu. Quem me conhece desde guri sabe que sempre fui assim, não só depois que me tornei jornalista, há 40 anos, e tive de ter alguns discernimentos, características que, nesta selva do futebol, nem todos têm.
O curioso nisso é que talvez você esteja se perguntando: o autor desta coluna é o mesmo que escreveu oito livros sobre o seu time? E agora vem espinafrar o torneio regional e a rivalidade? Não confunda. Escrevi, sim, livros sobre o Grêmio, com muita ênfase na diversidade. E adoro futebol! Mas não por causa da rivalidade, e sim APESAR dela. Nunca foi ela que me moveu. Desprezo a rivalidade, em especial a Gre-Nal. Não tem cabimento uma série de atitudes e discursos rasos e infundados que vejo por aí de gente que nem sabe, nem se dá conta ou nem reflete sobre os absurdos de alguns gestos por vezes violentos e das sandices que manifesta, igualmente vis.
Conclusão: como o “charmosão” se justifica por essa rivalidade que tanto critiquei aí em cima, não sinto afeição por ele. Você me perguntará se estarei torcendo pelo meu time no Gre-Nal de domingo. Claro que sim, e até talvez vá ao estádio. Mas a eventual conquista regional renderá uma breve vibração e… cama, porque lá vem o dia seguinte, e logo adiante tem jogos importantes dos torneios relevantes que, aí sim, decidem o futuro do clube: aquilo que chamo de “jogo de gente grande”, e não uma tolice que alimenta sentimentos baixos, ofensas, agressões, desrespeitos e maus influencers. Se eu ganhar, vou olhar o meu amigo colorado e dar uma risadinha marota de quem venceu um duelo no pátio da escola. E em seguida subir pra classe, porque a sirene tocou, e precisamos aprender a ser adultos.
Shabat shalom!
PS: a imagem que ilustra esta coluna eu captei da TV quando o Edenílson comemorava seu gol na excelente atuação que teve justamente contra o Botafogo (5 a 3 pra nós) e que talvez tenha sido a razão pra ser procurado e contratado a peso de ouro pelo clube carioca (teve uma assistência absurdamente linda dele pro André nesse jogo que só não se eternizou porque o goleiro defendeu o chute do nosso centroavante). Repare que atrás do Edenílson está o mascote Flecha Negra, inspirado no Tarciso. Vi o lance e, com a minha permanente atenção de repórter aos detalhes mais reveladores, me emocionei com a cena agora aqui congelada. Edenílson é um negro do Humaitá, gremista raiz, que viveu o seu maior sonho ao jogar em casa. E eu curti o seu momento. Muito axé, querido Edenílson!
Todos os textos de Léo Gerchmann estão AQUI.
Foto: Reprodução da TV

