Comemoramos as saídas e as entradas do tempo – 365 dias passaram e 365 dias chegam para marcar o cotidiano de um novo ano. Enviamos e recebemos mensagens de quem está distante. Abraçamos quem está perto. Vivemos emoções diversas. Fizemos planos. Ou não. Muitos foram para as ruas brindar, cantar, dançar. Outros ficaram no aconchego da casa com familiares e amigos. O importante mesmo é que, de uma forma ou de outra, fizemos uma pausa, relaxamos e nos entregamos para os momentos de celebração. Cumprimos rituais das nossas tribos, que são muitos e evidenciam a nossa rica diversidade. O verão está no ar. E com ele as merecidas férias tão esperadas pelos trabalhadores, mas especialmente pelas crianças.
O que aprendemos neste vai e vem?
Em meio às inúmeras manifestações, mais uma vez – e já são tantas! – constatei que o preconceito não dá trégua. Está em atitudes, em palavras, em olhares. Uma fala no TikTok celebrando a chegada de 2026 – “que venha o ano novo” – sinaliza o que estou dizendo. A fala até é curiosa, mas em um determinado momento Evandro Couto, que não sei quem é, diz: “Andamos mais perdidos que anão em comício”. Ouvi e imediatamente me dei conta de que já participei de muitas manifestações de rua, acompanhada ou não, e nunca me perdi. Definitivamente é mais uma das tantas “piadinhas inocentes” que rolam por aí sem limites e me incomodam. Sim, incomodam. E muito! Não vejo graça nenhuma nesses usos indevidos de uma condição, seja física ou mental. De tão contaminada que ficou, não usamos mais a palavra ‘anão’. Hoje usamos a expressão ‘pessoa com nanismo’. Portanto, ratifico o meu desejo para 2026: que não seja mais um ano contaminado pelo preconceito! Sei que estou sendo repetitiva, mas sei também que é necessário reagir aos impulsos que ratificam a discriminação.
Qualquer um de nós pode se perder, independentemente da deficiência, do tamanho, do peso, da opção sexual, da idade, do cansaço, dos problemas de saúde física ou mental. Até porque somos humanos e, assim como temos coragem e força, temos medo e fragilidades. Usar a condição de uma pessoa para fazer este tipo de piada em busca de seguidores, ou o que for, é de uma mediocridade lamentável. Falta vocabulário. Falta respeito. Falta conhecimento. Falta um olhar acolhedor para o outro e para as diferenças que nos constituem.
Já refleti e já escrevi muito sobre estas questões e vou seguir refletindo e escrevendo em nome da nossa dignidade.
Caetano Veloso já mostrou a singularidade da experiência de cada ser humano na canção “Dom de Iludir” – “Não me olhe como se a polícia andasse atrás de mim / Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.
Todos os textos de Lelei Teixeira estão AQUI.
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