A literatura fantástica é um gênero literário que apresenta acontecimentos fora da realidade comum, mas, em determinado momento, surge algo inexplicável. Pode ser um objeto mágico, uma criatura incomum ou um acontecimento sobrenatural.
Quando o escritor argentino Blas Matamoros (1942- ) perguntou a Jorge Luis Borges o que pensava sobre a psicanálise, este respondeu com sua fina ironia que “era apenas um ramo da literatura fantástica”, mas que na América Latina havia dois autores pelos quais tinha grande admiração: Garcia Marques e Vargas Llosa. Nem tocou no nome do cubano Alejo Carpentier, que para Garcia Marques foi o pioneiro do referido gênero literário.
O livro O RECURSO DO MÉTODO é a sua obra-prima. Neste romance pleno de ironias e sarcasmos, é onde Carpentier, com sua imaginação literária, eleva a língua espanhola a limites insuspeitados; os temas de repressão dos regimes ditatoriais, tão banalizados pela cruel realidade da América Latina, estão reinventados e admiravelmente recriados pela imaginação poderosa do maior romancista de Cuba.
Eis uma de suas definições:
“Ele é um homem refinado, tem residência em Paris, veste-se com requinte, é gentil anfitrião, de gosto refinado. Assina os melhores jornais, gosta de ler bons escritores e cultiva a convivência com eles. Adora óperas e canto lírico, é consumado gastrônomo e homem de ação, tem profunda admiração pelo racionalismo cartesiano.
Pena que ele seja um sanguinário ditador latino-americano.”
Possivelmente, era a firme e ativa atuação política de esquerda de Carpentier que fez Borges não se lembrar de citar seu nome, embora, com certeza, o tenha lido em sua imensa “biblioteca de Babel”.
Borges, por ingenuidade em política ou por rejeição a certos escritores marxistas, expressava a literatura fantástica em situações e personagens reais com imensa e inesgotável imaginação metafísica, mágica e fascinante ao mesmo tempo. Por exemplo, quem lê seus contos Tlön Uckar Orbius Tercios e, principalmente, El Imortal, saberá o que é o gênero literário chamado de “realismo fantástico”.
O escritor uruguaio Emir Rodríguez Monegal (1921-1985) definiu Borges dizendo que “Todo lo que Borges toca, se vuelve Borges” e reproduz na biografia que escreveu sobre ele a seguinte definição pessoal do bruxo argentino:
“El tiempo es un río que me arrebata, pero yo soy el río; es un tigre que me destroza, pero yo soy el tigre; es un fuego que me consume, pero yo soy el fuego. El mundo, desgraciadamente, es real; yo, desgraciadamente, soy Borges“.
Enfim, a meu ver, ler e sentir, este é um perfeito retrato que define o que chamamos de literatura fantástica.
O fantástico, afinal, surge quando o leitor, junto com os personagens, hesita entre aceitar ou não aquilo como real ou como absolutamente imaginário. Desta tensão, produz-se uma ideia de espanto, assombro e fascínio, principalmente quando associada com uma sofisticada qualidade literária.
Franklin Cunha é médico e membro da Academia Rio-grandense de Letras
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Foto da Capa: Gerada por IA.

