Seis ponto um, 6.1, 61, sessenta e um. Aqui cheguei nesta sexta-feira, 11 de julho.
E vou fundo num clichê detestado com razão pela maioria das pessoas: sim, é a “melhor idade”, até porque digo com toda a segurança que me sinto mais perto dos 20 que dos 80. Me adianto a ressalvar que a proximidade da finitude e as perdas de referências são doloridas (chega uma hora em que o cara vai mais a enterros de entes queridos do que a casamentos, e isso é um mau sinal), mas me refiro à maturidade como inteireza, sabedoria e sentimento de certa completude sempre inacabada, o que fortalece a pessoa emocionalmente, lhe dá um tipo de integridade íntima e liberdade pra ser autêntica.
Sou jornalista com trajetória profissional dentro das redações. Entre Folha de S. Paulo e Zero Hora foram 24 anos, além dos dois anos na Revista Placar e de alguns meses no Correio do Povo e no Jornal NH, entre outros trampos. Mas conto um segredo: o trabalho diário em um jornal muitas vezes aliena. O cara quer aprofundar um assunto e nem sempre consegue.
Frequentemente, é mecânico e emburrecedor.
E eventualmente o profissional precisa tratar de um assunto do qual quer distância, algo que não lhe agrega valor humano.
Uma vez, pela Folha, tive que cobrir o incêndio em uma creche em Uruguaiana. O que é “cobrir”? Entrevistar pais e mães das 12 criancinhas mortas naquele tristemente inesquecível junho de 2000, há 25 anos, na Casinha da Emília (esse era o nome da creche).
Não tenho dúvida de que foi a mais difícil reportagem da minha vida. Foi sofrida.
Cheguei ao local e fui falar com aquelas pessoas devastadas pelo luto absurdo que tinham de atravessar.
– Bom dia. Meu nome é Léo Gerchmann. Sou repórter do jornal Folha de S. Paulo, e lhe peço perdão, mas é o meu trabalho. Preciso saber como a senhora está…
Se ela fosse eu, eu me mandaria tomar no cu.
Perceberam que comecei a abordagem pedindo perdão? Sim, assim foi.
Reportagem que nada acrescenta e muito emburrece, porque a pergunta que fiz era a única possível e ao mesmo tempo uma barbaridade. O ideal era ficar quieto e dar um abraço, resumindo-me a me sentar num banquinho, buscar a cabeça a pensar na fragilidade humana.
Mas assim é o jornalismo. Temos que levar os fatos e a emoção ao leitor. E isso é muito importante, às vezes é essencial.
Falo mal da minha profissão? Não. Só pontualmente.
Se eu fosse fazer agora a opção profissional, seria a mesma e com ainda mais convicção.
Duas coisas, porém, me apavoram no exercício do jornalismo: lidar com a tragédia e demolir a vida de pessoas por injustiça ou até por um deslize isolado e sem gravidade.
Sim, nem todo erro merece o opróbrio.
Digo e repito. Não sou hipócrita, também erro e tenho empatia.
Mas confesso, putz, que já detonei reputações.
Enfim, cito esses maus momentos e também as agruras de horas enfiado numa redação com chefes recalcados e burocratas, por vezes cruéis e injustos, e reuniões tediosas.
Nem te conto…
Devo dizer que, em meio a essas desditas, houve momentos lindos. Grandes coberturas nacionais e internacionais, entrevistas emocionantes (algumas delas impactantes e exclusivas), revelações importantes, a mágica e eterna temporada em Buenos Aires.
Entre esses bons e maus momentos, o certo é que plantei uma semente.
E a estou colhendo nesta virada dos meus 50 pros 60.
Cheio de energia, porque a minha geração foi forjada nos anos 1960, tempos de opressão e revolução cultural. Nossa liberdade tinha o doce e inebriante cheiro daquela erva.
Sempre brinco: nasci em 1964. Quando veio a Revolução Cultural, em 1968, aqui tínhamos o sinistro AI-5 fechando tudo. Na abertura de 1979, eu fiz 15 anos, cheio de tesão.
Urruuuuuuu!!!!!!! Que festa de arromba!
Resultado: por méritos da minha formação humana muito apegada a uma visão progressista e humanista e do lindíssimo temperamento deles, tenho hoje dois amados filhos, ele de 23 e ela de 18 anos, que, mesmo sendo clara a minha autoridade de pai, são amigos e muitas vezes confidentes. Dois seres humanos que nem em sonho eu idealizaria, de verdade, com suas qualidades e suas dificuldades. Temos uma sintonia muito afinada. Com a companheira de mais de três décadas, tenho uma família linda.
Estar em casa é um aconchego.
É o melhor lugar do mundo, e isso vale ouro.
E aí junto os dois assuntos acima: hoje, a partir do que conquistei em coberturas desejadas e indesejadas, desgastes corporativos, encontros maravilhosos, alguns desencontros e muitas glórias e alegrias em meio a irritações, trabalho do meu jeito, fazendo como quero, às vezes escrevendo de madrugada diante de um tinto, e ninguém tem nada a ver com isso.
Asseguro que sou muito melhor jornalista hoje do que nunca antes, por ter mais experiência e conteúdo internalizado e por lidar com informações e resgates capazes até de varrer o falso verniz de imaginários frágeis quando estão diante da luz do dia. O que pode ser mais jornalismo que isso?
Escrevi, nos últimos 11 anos, exatamente 11 livros sobre assuntos que me mobilizam. Tenho a profissão que amo e a exerço apurando e escrevendo do jeito que gosto, com vontade e intensidade. Radicalizo o lúcido “eu-tu” de Martin Buber.
Entre “Coligay: Tricolor e de Todas as Cores” (2014) e “Uma Estrela no Pampa” (2025), houve o prazer de um trabalho bom e relevante e a oportunidade de aprender muito.
Mas, pro cara conseguir isso, precisa ter aquelas três anteriores décadas de plantio.
Também nessa idade vem outra preciosidade: o cara se formou, não apenas no sentido objetivo de um canudo solene, mas na subjetividade dos filmes, livros e canções.
O cara é o que é. Se gosta do que se tornou, alvíssaras!
Sem modéstia, digo que é o meu caso.
A bagagem que tenho é um tesouro lido, ouvido e vivido.
Cabe algo mais? Sempre! Mas a base está ali. É individual e intransferível.
Ah, falando nisso, outro dia alguém numa rede social citou um “livro essencial” pra dominar certo assunto que, por acaso, a maior aprendizagem se dá na vida: o preconceito.
Nenhum livro substitui os meus avós contando como supostos amigos passaram a virar a cara pra eles, judeus, na Europa dos anos 1930. Ler é bom e ilustra, tapa as pontas destapadas, dá contextos e teorias. Mas, nesse caso, nada supera a vivência e a bagagem que trago pra estes tempos em que ela se repete entre nós desgraçadamente.
…
Pego esses dois ganchos acima pra falar dos tempos que vivemos.
São tempos de muitas qualidades, mas de um egoísmo descomunal, em que golpes e propagandas entram, sim ou sim, até pelos poros do sujeito. Tempos de negação da ciência e mortes pela rejeição a conquistas sanitárias por um lado e de antissemitismo, violência e estupidez dogmática pelo outro, em que o suposto amigo voltou a virar a cara.
É assustador. Mas quem é feliz com o que conquistou até mata no peito.
…
Fui pensando desordenadamente e escrevendo sobre o contexto dos meus 6.1.
E citei um clichê muito apropriado ao conteúdo que veio depois.
Encerro o texto abordando a vida digital que nos tocou. E rio aqui das ironias.
Percebam: hoje um quase pleonasmo passou a fazer sentido, e um outro clichê, notabilizado pelos versos do Caetano Veloso, tomou tons dramáticos.
Tudo por causa da internet.
O pleonasmo é “amigo íntimo”. Se antes a gente dizia aos risos que, se é amigo, é necessariamente íntimo, o Facebook nos desautorizou ao criar um estranho amigo virtual.
O outro clichê é um que nos exige paciência: a frase “de perto, ninguém é normal”. Tchê, como eu preferiria não ver tão expostas algumas pessoas, especialmente em redes sociais e nos grupos de WhatsApp. Tem de tudo. E tem também os bons, aqueles amigos de infância ou nem tanto, resgatados pelas facilidades do mundo digital.
Mas, ufa, viva a estrutura que a boa formação humana e profissional nos deu.
Só assim pra segurar no osso as carrancas indesejadas e uma onda de antissemitismo que desperta traumas transgeracionais dolorosos nas ações e nas omissões.
E neste meu novo ano quero conviver muito com a minha família, escrever, ler, ouvir música boa, ver os amigos (incluindo os que de perto não são normais), levar adiante os meus livros com seus conteúdos e viver a emoção de assistir à série inspirada no da Coligay, que está em fase de produção pra bombar ano que vem no Canal Brasil.
…
Lechaim e shabat shalom! Até os 120!
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Foto da Capa: Freepik

