Não se avexe, leitoras e leitores, não vou aqui trolar picuinhas que já se foram nos mares das inutilezas. Desse dinâmico mirante onde minha existência se movimenta, vou me ocupar de um tema que frequentemente me assalta a mente. Em minha idade, muita coisa fica fuçando a cachola. Todavia, agora que recebi a dádiva de três netinhos: uma menininha linda de cinco anos e dois moleques encantadores e belos, estou, vira e mexe, a assuntar o que é de fato criar vínculos. Essa acontecência foi um ponto de inflexão em minha vida. As coisas que me provocam tal reflexão são muitas: o olhar antropológico e humanista que tanto me atravessa, as concepções de famílias e suas diversas formatações, os inúmeros desafios de ser gente e educarmo-nos com as pessoas que nos cercam, por exemplo.
Do ponto de vista ontológico, ser humano é “ser que diz o ser”, e nenhum outro animal consegue dizer o nome do ser. Só que, ao nominar “ser”, o homem e a mulher encontram-se diante de uma tarefa, de ser um si-mesmo, ou seja, de colocar-se num pacto mediativo do mundo: precisam ouvir o mundo nesse pacto que é seu próprio movimento de interiorização/exteriorização. Embora sejamos animais biopsicossociais, não nos esgotamos nesta definição. Nosso ser não se realiza senão na construção de nosso entorno. A animalidade não exaure a totalidade do nosso ser, que é, também, cultural e histórico. No entanto, precisamos construir nossa casa. Em outras palavras, reconhecer a relação com as coisas, a natureza, com os outros homens e mulheres, com igualdade ontológica: o outro como outro de si; o “Si mesmo” como outro do outro. Trata-se de reconhecer o humano como abertura ao ser. Em outro plano — o da antropologia filosófica — essa abertura se concretiza como condição relacional, histórica e cultural.
O ser humano nasce ontologicamente inconcluso e, do ponto de vista psíquico, radicalmente dependente das relações que o acolhem. É, fundamentalmente, um animal de relações. Freire vai buscar na própria natureza do ser humano, inconcluso e mutável, a motivação para pensar os processos de formação da consciência. Esta se define pela sua intencionalidade; é sempre consciência de alguma coisa. É sempre ativa, tem um objeto diante de si, funda o ato do conhecimento, que não deve reduzir-se a uma doxa da realidade, mas precisa aprofundar-se para chegar ao logos, à razão do objeto a ser conhecido, o que só é possível quando os homens se unem para responder aos desafios que o mundo lhes propõe. Porém, a consciência não é somente intencionada em direção ao mundo. Ela possui a propriedade de voltar-se sobre si mesma e ser consciente de sua consciência. A sua ação ultrapassa o nível do simples reflexo da realidade, da resposta a estímulos externos, para ser reflexiva, alargando-se na reflexão crítica sobre os seus próprios atos e na capacidade de superação de suas contradições. O homem tem a propriedade de transcender a sua atividade: dá sentido ao mundo, elabora objetivos, propõe finalidades. Mister esclarecer que Freire não trata de uma teoria psicológica da consciência, mas de uma compreensão ético-ontológica da formação humana mediada pela relação com o mundo e com os outros.
A educação visa compreender o sentido global da existência humana. E, nesta existencialidade, o ser humano projeta-se e realiza-se na busca do ser possível. Desse modo, não há educação se os seres humanos não percebem o significado compreensivo que possuem com a relação inesgotável com o mundo e nem são convidados a buscarem respostas para suas questões fundamentais. E essa relação do ser humano com o mundo não pode ser definida de maneira dicotômica, porque o modo de existir é natural, faz parte da condição ontológica dos humanos, completada por outros traços, o que os torna inconclusos. Nessa relação, indivíduo/indivíduo, indivíduo/mundo, que se estabelece dialeticamente, observa-se que um está remetido ao outro e vice-versa, numa espécie de ímã relacional. Embora os polos dessa relação sejam distintos, mas não fracionados, movem-se pela complementaridade.
No diapasão das perspectivas aventadas, me chega à cabeça a ideia de “vínculo”. A meu franco ver, nada do que foi dito torna-se possível se não nos constituirmos como sujeitos de vínculos. Creio mesmo que o processo para a consecução de tal empreendimento já é, de per si, o elemento basilar para tudo o que constitui a vida humana. Ao longo da literatura psicanalítica, encontra-se o termo vínculo, de várias formas e com diferentes significados. No dicionário Aurélio (1999), consta que o termo se origina do latim e significa: tudo que ata, liga ou aperta; relação, subordinação e, no sentido figurado, ligação moral. A definição sugere a ideia de relação estável.
No contexto da modernidade ocidental, especialmente sob forte influência do patriarcado, da moral cristã e da organização capitalista do trabalho, consolidou-se o modelo da família nuclear tradicional, baseada no binarismo de gênero e na heterossexualidade como norma. Concebida como a detentora dessa criação de vínculos, entre outras razões, por estar associada à fantasia de ser estável no tempo e no espaço. Vínculo aqui entendido como o relacionamento necessário e estável entre duas pessoas. Tal concepção consolidou-se sobretudo a partir do século XIX, articulada à lógica da propriedade privada, da divisão sexual do trabalho e da moralidade cristã. Ele não constitui uma forma natural ou universal de organização familiar, mas uma construção histórica situada. A estabilidade atribuída a esse modelo funcionou mais como um ideal normativo do que como uma realidade empírica, ocultando relações de assimetria de gênero, sobrecarga feminina e abandono paterno.
Se, no plano ontológico e pedagógico, a consciência se define como abertura intencional ao mundo, no campo da psicanálise assume a forma concreta dos vínculos primários que estruturam o eu. De sorte que a criação de vínculos afetivos é fundamental e estruturante para a constituição psíquica do sujeito e seu desenvolvimento emocional saudável. Vincular-se é estabelecer uma relação intersubjetiva através de investimentos afetivo-emocionais, o que ampara o desamparo inato do ser humano. Assim, A constituição do eu ocorre através das interações, projeções e introjeções com o cuidador principal. A condição de desamparo originário pode ser compreendida ontologicamente como abertura radical ao outro; já no campo da psicanálise, ela aparece como fundamento da constituição psíquica por meio do vínculo com o cuidador.
Winnicott enfatizou que a “mãe suficientemente boa” oferece sustentação (holding) e manejo (handling) físicos e emocionais. Esses vínculos primários criam um ambiente seguro que permite ao bebê passar da dependência absoluta à independência. Dessarte, o vínculo inicial permite o desenvolvimento da capacidade de estar só, a criatividade e o uso de objetos transicionais, essenciais para a saúde mental. Para Berenstein, o vínculo é uma atividade criativa de permuta de afetos, que molda a subjetividade de forma contínua. Em suma, para a psicanálise, os vínculos não são apenas interações sociais, mas a estrutura sobre a qual se constrói o próprio sujeito.
A criação de vínculos efetivos entre pessoas é uma necessidade básica para a formação emocional e a constituição das identidades. Entretanto, precisamos considerar o pluralismo social e cultural e as conquistas realizadas ao longo da história por grupos sociais organizados. Além disso, no modelo tradicional de família, não são poucas aquelas nas quais o macho a abandonou ou não tomou para si a obrigação conjunta de criar os filhos com sua companheira. A promessa moderna do amor romântico como fundamento estável da família mostrou-se tensionada pelas transformações econômicas, pela inserção massiva das mulheres no mercado de trabalho, pela ampliação de direitos civis e pela reconfiguração das identidades de gênero. A Constituição Federal de 1988 ampliou o conceito jurídico de família ao reconhecer a união estável e, posteriormente, decisões do Supremo Tribunal Federal consolidaram o reconhecimento das uniões homoafetivas, evidenciando que a noção de família é dinâmica e juridicamente construída.
Compreender o amor hoje implica enxergá-lo como uma construção diária, ética e consciente, que organiza a individualidade com a parceria. Implica repensar os afetos e compromissos capazes de ajudar a amparar educativamente as infâncias e adolescências. Requer deixar de lado a intolerância e enxergar a legitimidade de toda forma de amor, de todo jeito de ser e de conviver, além da capacidade que pessoas amorosas, comprometidas e responsáveis têm para construir vínculos verdadeiros e saudáveis, capazes de formar homens e mulheres para a liberdade e uma vida boa e feliz.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
Todos os textos da Zona Livre estão AQUI.
Foto da Capa: Freepik

