Na verdade, foi um inesperado – e doloroso! – presente que você me deu naquele Dia dos Pais, há dois anos. Ali, eu pude perceber, finalmente, e acho que sem nenhum atraso, o valor que algumas teses, digamos, “rousseaunianas” têm para cada um de nós: aquilo que podemos aprender com a Natureza. Eu também faço parte dela, mas minha cultura me afastou e me desaprendeu!
Estranhamente, você não precisava “falar” nossa língua articulada e conceitual para exprimir tudo o que queria (e o que não queria, sobretudo os remédios e o banho, lembra?): bastava o olhar, esse seu olhar preto como um abismo, grande como um farol, brilhante como uma luz que encandeia: via-se sua alma diretamente, sem esquinas, sem desvios. Percebi, ao longo dos anos que passamos juntos, que você era um, digamos, “catalisador”: concentrava e distribuía todo o amor que circulava na nossa casa, casa que você adorava: um amor inefável, sem dizeres audíveis, sem poesia, sem preciosidades, sem pieguice. Amor que eu diria, para repetir os “soixantehuitards”, “fusional”: você chegava a ficar doente quando qualquer um de nós ficava; deprimido quando nos percebia assim, e vinha deitar-se junto, em contrição religiosa, a oferecer seu silencioso, mas perceptível afago.
Você tem de aceitar, no entanto, que era manhoso, ciumento, comilão, temperamental. Eu também tinha ciúmes de você, quando você se derretia nos braços de alguma visita!
O problema, Tom, não é o que você levou consigo ao partir naquele fatídico dia, é o que você me deixou. Depois que li Lévinas, aprendi que o “rosto do outro, que nos interpela, é a origem de toda moral!” Sei que você não vai compreender isso, mas quer dizer que aquele teu negro e profundo olhar me pedia que eu não te machucasse, não te humilhasse, não te abandonasse; também pedia que eu te protegesse, amasse, cuidasse, não deixasse morrer… São muitos verbos, transitivos e intransitivos, que teu olhar me solicitava. Tendo praticado a maioria deles, eu me sinto melhor, como sujeito moral, hoje, do que era antes de te conhecer. A única interpelação que não pude praticar foi… o não te deixar morrer!
Você sabe que não sou religioso, mas tenho, cá para mim, minha noção de transcendência e, com você, comecei a acreditar piamente que temos, de fato, duas vidas: uma dentro de nosso corpo original e a segunda na memória daqueles que amamos e que nos amaram. Você ficará, Tom, no interior de meu mais profundo afeto, da minha mais amorosa lembrança, enquanto lembrança e afeto ainda me habitarem.
TOM, um poodle, era meu amado filhinho de quatro patas. Ele morreu exatamente no Dia dos Pais de 2023, levando uma parte de todos nós, parte que dificilmente recuperaremos. Um pedaço, aliás, que você mesmo plantou em cada um e que nos fez sentir melhores como seres humanos, mas que agora você pede de volta. Espero que você também não se esqueça de nós e receba em seu coraçãozinho a continuação do grande amor que sempre te dedicamos. Nós guardaremos o seu.
Gil, sua mamãe, ainda vai espalhar suas cinzas em Porto de Galinhas, que você adorava, e eu, de minha parte, expresso a imensa alegria de saber que você encontrou, em vida, o que poucos homens encontram: um lugar no Mundo, junto de sua família humana adotiva.
Para Tom.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

