Fiódor Dostoiévski, no romance O Idiota, escreveu que a beleza salvará o mundo. De que forma?, costumo pensar, verbo que implica tempo. Pensar é mais que responder. Antecede as boas respostas. Não combina com afobação. Afobação leva a erros. Errar é humano, a gente sabe. E tentar não errar, uma espécie de boa vontade e de predisposição para a justiça. Em O Idiota, a frase é dita diante do quadro O Cristo Morto, de Hans Holbein, e ela não trata, embora quase todo mundo transcreva como se fosse, de uma afirmação. Uma personagem levanta hipóteses sobre a beleza, considerando que ela possa ser a força que habita a verdade, a compaixão e o sacrifício.
Podemos, é óbvio, entender o belo de diversas formas. Umberto Eco, no História da Beleza, apresenta diversas concepções. Ele escreveu também o História da Feiúra, em que tantas outras correlacionadas são abordadas. Mas não é isso que interessa agora. A ideia de salvamento da humanidade me parece mais relevante, em especial a que ouvi em um filme do cineasta Andrei Tarkovski. Estou apaixonada por ele. Meu cérebro se acelera, o coração quase convulsiona desde que li o que ele escreveu no Esculpir o Tempo. Livros podem ser flechas como a do Cupido.
Na obra Esculpir o Tempo, Tarkovski reflete sobre cinema, literatura, seres humanos e ideias. Muitas. Tenho falado sobre isso. Emocionais e intelectuais. Há uma parte em que ele fala sobre a existência de uma ‘atmosfera emocional’ e sobre uma ‘realidade interior’ permeando a nossa passagem pela Terra. Pode haver outros planetas habitados, outras formas de vida inteligentes no universo. A frase, que ouvi no filme do Tarkovski, faz parte do roteiro do Solaris e é dita frente a um cenário desolador em uma estação espacial. O protagonista, derrotado por perdas de diversas ordens e consciente da mediocridade do ser humano, diz, então, que a vergonha é que salvará o mundo. Uma frase, como se percebe, ligada à do Dostoiévski e que pode estar no livro que deu origem ao filme, Solaris, do Stanisław Lem. Não sei por que não o li. Não o tenho. Fica a dica para se alguém quiser me dar um superpresente.
Ai, que falta de vergonha, minha mãe me diria, se pudesse ler o que escrevi. Pois é, a vergonha é um sentimento muito complexo que se desdobra em inúmeras situações, umas banais e benignas, tolas por vezes. Outras, pelo contrário, potentes e destrutivas, são capazes de gerar perdas, danos, sofrimentos e silêncio, silêncio na direção de não provocar o reconhecimento de atos e falas indignos, portanto, de também não promover nenhum tipo de remorso e reparação e, aqui, eu poderia listar uma infinitude de exemplos porque não há um único setor da existência em que ela não possa dar as caras. Recorro a essa expressão popular, porque ela me remete a outra, à falta de vergonha na cara.
Da falta de vergonha na cara não posso deixar de falar. Talvez, esse tipo seja o mais democratizado planeta afora. No Brasil, nem se fala. Mas já que estou tomando mais uma xícara de chá para amenizar uma dor de garganta, dentro de um clima caseirinho, falarei sobre a falta de vergonha na cara que corre solta nas redes sociais entre aqueles que copiam e colam o que os outros escrevem, sem fazer a mínima referência à autoria, ou que dão uma leve maquiada nas ideias alheias para parecerem suas. Gente que admira e menospreza as demais e as subestima, é claro. Subestimar é de uma arrogância e de uma estupidez incomensuráveis. Na maior parte das situações, sabemos o que o outro está tramando. Ficamos quietos por sabedoria. Ai que falta de vergonha, minha mãe diria outra vez. Ou não. Talvez, ela só me dissesse para começar a falar logo sobre a vergonha enquanto sentimento revolucionário.
Frédéric Gros, filósofo francês, publicou um livro com esse nome: A Vergonha é um Sentimento Revolucionário. A também francesa Annie Ernaux, Nobel de Literatura em 2022, escreveu o A Vergonha, em que fala sobre como se sentia constrangida e humilhada pela precariedade educacional dos pais. E a cito porque nos falta educação para a vergonha em todos os sentidos. Ela, ao contrário do que imaginamos e apesar de sua má reputação, pode ser uma experiência mobilizadora e transformadora desde que os envolvidos se disponham a enfrentá-la tanto em causa própria como quando a sentimos pelo outro, a famosa vergonha alheia. Sei que não é fácil. O medo da vergonha não é pequeno. Ela, além de nos expor, nos traz culpa, tristeza e raiva e pode aumentar a nossa violência e baixar a nossa autoestima. Dependendo da pessoa, cá entre nós, um pouco de autodesprezo é vital.
Salman Rushdie, o escritor britânico de origem mulçumana indiana, vítima de um ataque a faca relacionado às ameaças de morte de setores radicais muçulmanos, por ter escrito o famoso Os Versos Satânicos, diz que as duas principais raízes da violência humana são a vergonha e a falta de vergonha, as duas muito diferentes entre si. Declaração que não deve ser vista de modo sentimental e, sim, como um marcador de falhas, defeitos, inseguranças e erros que podemos corrigir.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

