Sabe quando bate um orgulho reconfortante de ser fã das pessoas certas? É o contrário do arrependimento que constrange. Desde muito guri digo que os meus ídolos na música são os Beatles (sempre muito à frente de qualquer obra meramente humana), o Deep Purple, o Rush, o Pink Floyd (obrigado por me permitir continuar sentindo isso, David Gilmour) e, claro, o Kiss. Em alguns Carnavais, eu, o Rodolfo, o André e o Marcello pulamos no baile da SACC (Sociedade dos Amigos de Capão da Canoa) esmeradamente pintados com as máscaras dos nossos heróis. E éramos cabeludinhos, o que ajudava no figurino. Também tinha um lance que rolava e deixava os nossos olhos avermelhados, mas é outra conversa.
Enfim, amávamos e ainda amamos o Kiss.
Uma vez, estávamos comendo um xis antes de ir gastar calorias a noite inteira pulando no salão e nos apareceu um sujeito com o cabelo curtinho, óculos de aro grosso, calça de tergal (juro!) e pasta de 007. Por Deus que é verdade! E eis que o cara se para na nossa frente, quase que se ajoelha diante de nós e abre a pasta. Dentro dela, recortes, livros, revistas, as mais variadas relíquias sobre o Kiss. “Tchê, esse baura da lata é bom pra caralho, hein?”, comentei com o Rodolfo. Nos beliscamos. Mas era real, não era alucinação. Depois encontrei esse mesmo cara outras vezes (adoraria saber dele hoje), aí já cabeludo, tocando guitarra numa banda heavy metal e troteando pelos bares da Osvaldo, como seria de se esperar dele, aquela figura falante e afetiva chamada Marco.
Outra vez, eu, já com o cabelo bem cortadinho e de cara limpa, andava de carro pela Protásio Alves na direção Centro-bairro, olhei pra calçada da direita e lá estava uma morena linda com quem fiquei uma noite no Carnaval, eu de Kiss e ela de odalisca. Gritei “oooooiiiiii!!!!!!”, e ela me olhou apertando os olhos azuis, como quem não reconhece. “Sou aquele cara do Kiss que te beijou tri bem e tu te apaixonou como eu também, mas nunca mais te vi e estou te vendo agora, sempre te procurei, quero falar contigo, tu é linda, que saudade…” e passou um carro na minha frente, fazendo ela sumir na confusão pra não mais aparecer. Só me lembro que me olhou sorrindo, mostrando sintonia com a minha declaração destrambelhada. E, agora sim, nunca mais a vi. Todos temos questões mal resolvidas, né?
Curiosidade: não sei qual era a tinta que passávamos, mas durava a noite toda. Lá pelas 6h, estávamos juntos, ainda mascarados, tirando a larica com um sobaca no Yellow. Alguns felizes, contando da mina linda que descolaram, e outros mais frustrados, curtindo as inevitáveis fossas (e quem nunca?).
Mas quero falar do Gene Simmons, que também seria ele próprio, ao menos ele e o Paul Stanley, um habitué da SACC, do Yellow, da Osvaldo e do Bom Fim.
Bastaria morar em Porto Alegre.
E agora vou fazer uma declaração quase igual à que fiz pra mina do baile. “Gene Simmons, eu te amo.” Sim, eu já sabia que tu e o Paul Stanley são judeus, filhos de sobreviventes do Holocausto. Sei que tu é israelense nascido em Haifa e, quando tira a máscara e para de cuspir sangue, se chama Chaim Witz. Sabia que vocês são o tipo de gente, na vida privada, que certamente eu adoraria encontrar por aí.
Gene Simmons, obrigado pelo “rock and roll all nite” e pelas palavras sábias sobre o povo judeu, o sionismo, Israel e o direito de o lar judaico existir e se defender.
Obrigado por ter manifestado algo que havia tempo eu pensava abordar aqui na coluna. Algo simples, mas que o discurso mainstream esconde, porque é chique aderir ao discurso que está na crista da onda. E o que tu disse, Gene amado? Disse que tem orgulho de ser isralense e que os judeus não devem ter vergonha de serem quem são. Disse que quem silencia sobre o antissemitismo (na atual vestimenta de “antissionismo”) não está sendo neutro num debate político (partidário), o que seria compreensível. Não, quem silencia está se omitindo em relação a um discurso de profundo racismo antissemita, algo cruel e devastador. Quando você está ao lado de alguém que grita o slogan genocida “Palestina do rio ao mar” e continua caminhando junto como se nada, é similar àquele lance de uma mesa com 12 em que 11 são nazistas; se o não nazista continua sentado ali com eles, é porque na verdade, no mínimo, tem uma cumplicidade -e isso é gravíssimo.
“Defender Israel não é uma questão política, mas de dignidade e verdade histórica”, disse o Gene Simmons, meu ídolo, meu querido, meu amado companheiro virtual de doideiras, o gênio Gene (sim, “Gene é um Gênio”, hahaha, se você tem mais de 40 anos entendeu o trodadilho), que, pasme, mas, apesar de vomitar ketchup no palco, numa pantomima diabólica, jamais tomou uma gota de álcool. Pantomima, enfim. Gene é um gênio!
E é isso que digo e que me magoa. Tenho amigos que, mesmo entendendo o meu sofrimento diante do antissemitismo, silenciam. Dizem que é “assunto complexo”. Alegam que preferem não se meter em “polêmica” (sic). Preferem a neutralidade dos covardes (perdão pela palavra forte, mas ela jorrou como o katchup do Gene). Não, pessoal. Eu também muitas vezes não entendo suficientemente o sofrimento de outra minoria, mas sou solidário porque sei que é importante. Não estamos falando de “opinião”, “ideologia”, “posição política” etc. Estamos falando do mais rasteiro preconceito, aquele que sobrevive a milênios de um ódio que se reveste ao sabor das circunstâncias, sejam religiosas até o século 18, raciais entre o 19 e o 20 ou políticas entre o 20 e o 21. Racismo antissemita se chama, seja qual roupagem oportunista de ocasião tiver.
E isso machuca muito.
Tem amigos aos quais nunca falei como o silêncio incomoda. Na verdade, destroça por dentro, dá uma sensação enorme de incompreensão e desamparo. Solidão! Nem vou falar pra eles, porque daqui a pouco estarei me relacionando com 20% das pessoas não judias. Me afastaria de muitos. E digo isso aqui, genericamente, porque não quero brigar, não quero me autoconfinar num gueto, só viver entre os meus e os poucos que mostram uma real empatia. Óbvio que muito piores são os que falam asneiras. Desses eu me afastei, e de alguns o afastamento é irreversível. Mas, você que está quietinho aí porque acha que o assunto é espinhoso, saiba que preciso do seu apoio, do seu afeto, da sua compreensão, do seu colo. Não nos deixem sós!
Nessas horas, penso nos meus avós, que talvez tenham conhecido os pais do Gene Simmons e do Paul Stanley (e do amadíssimo e também ídolo e também baixista genial Gary Lee Weinrib, conhecido como Geddy Lee e líder do Rush), porque vieram do mesmo lugar. Penso nas vezes em que falavam sobre o silêncio, a indiferença, o pouco caso, o rosto virado do vizinho. Penso na enormidade dos “Justos entre as Nações”, os “goim” (não judeus) que nos estenderam a mão. Em como essas pessoas realmente foram enormes. E em como outros foram pusilânimes, tal qual talvez você seja, mas jamais vou dizer isso na sua cara, porque não quero restringir o meu círculo de amizades a uma pequena aldeia.
Pense num negro ou num homossexual que sofre com o preconceito cotidiano, cultural, estrutural. Com a incompreensão, com a invisibilidade, com a palavra mal colocada ou, como me refiro aqui, com a palavra não colocada. É sufocante, dilacerante. Seria conversa pra outro texto essa abordagem. Até já escrevi bastante sobre isso. Mas o fato é que dói pra caramba, rola aquele trauma transgeracional.
Os companheiros do Gene Simmons
Não foi só o Gene Simmons que teve a valentia de se expor, de brigar pelos seus e se orgulhar da identidade étnica ao defender o lar que é o pequeno grande reduto a nos defender das perseguições e das incompreensões na nossa terra ancestral, a terra pra onde rezamos há 2 mil anos, desde que fomos expulsos de lá e erramos pelo mundo ao sabor do ódio e da ignorância. Não, não é só o Gene que é gênio.
Sharon Osbourne, viúva do saudoso Ozzy, está com ele e conosco. E isso mostra que o metal deles vale ouro. Eles, o Boy George e alguns outros assinaram recentemente um documento que diz assim: “Ficamos chocados e desapontados ao ver alguns membros da comunidade do entretenimento pedindo que Israel fosse banida do concurso (Eurovisão) por responder ao maior massacre de judeus desde o Holocausto” (…). “Sob a cobertura de milhares de foguetes disparados indiscriminadamente contra populações civis, o Hamas assassinou e raptou homens, mulheres e crianças inocentes.” Em certo trecho, existe uma parte escrita pelo próprio Gene: “A música une pessoas de todas as origens. É a única linguagem que todos podem entender. É uma coisa linda e uma ótima maneira de unir as pessoas. Aqueles que defendem a exclusão de um cantor israelense da Eurovisão não movem o ponteiro em direção à paz, mas só dividem ainda mais o mundo.
Como é reconfortante saber que não estamos sós.
“Após um terrível ataque violento contra civis israelitas, os apelos ao boicote e à exclusão de artistas israelenses de eventos internacionais simplesmente porque são israelenses são abomináveis e vergonhosos”, acrescentou Mayim Bialik, atriz de The Big Bang Theory, completando: “Visar dessa forma os músicos israelenses mancha o espírito unificador que é a Eurovisão.” Aos já citados e a figuras enormes como Helen Mirren, Debra Messing, Scooter Braun, Diane Warren e Selma Blair, que também assinaram a nota, muito obrigado por serem lindos e valentes.
Shabat shalom!
Todos os textos de Léo Gerchmann AQUI.
Foto: Camila Cara, Monsters Of Rock / Divulgação

