Estão acontecendo vários episódios no Instagram em que homens de aparência questionável destroem de forma zombeteira (brincadeira, como diria uma amiga, mas piada maldosa, para mim, tem outro nome) a aparência de diversas mulheres públicas.
Em uma foto da atriz Jennifer Love Hewitt, em que ela está lindamente mais cheia de curvas, marmanjos sem um pingo de bom senso e neurônios na cabeça, fizeram trocadilhos como “Jennifer love cupcakes” e outros bem menos “brincalhões”.
Nelly Furtado caiu nesta mesma malha fina misógina ao aparecer, linda de morrer como é, cantando com a voz linda de viver como tem, e alguns quilos a mais.
Os mesmos galãs com peitos pedindo um sutiã caíram de pau e fizeram trocadilhos com uma música em que ela fala que é como um pássaro.
Nem quero repetir as “brincadeiras”, pois já chega de tanta fala doida, tanto plástico e socos bem dados.
Pamela Anderson foi comparada com o palhaço do filme de terror “It” sem maquiagem por apenas querer se ver livre de tantas bases, corretivos e batons testados em animais.
E aí comecei a fazer algo que faço demais, pensar.
Por que esses homens têm a audácia de julgar?
Mesmo se eles vissem no espelho algo socialmente louvável, o que os faz pensar que o julgamento que eles têm sobre outros umbigos é algo válido?
E me lembrei de todas as vezes que ouvi de bocas exigentes que eu não era suficiente.
Uma boca maldosa, machista e cruel só sente poder para vomitar suas falas malcheirosas quando acredita piamente em ouvidos que irão absorver.
Por que as mulheres sempre têm que andar atrás, se desculpando por existirem da forma que elas julgam ser a melhor?
Por culpa delas.
Porque o dia em que nós não precisarmos repostar a agressão, mas simplesmente deixá-la passar feito nuvem pesada, com o ódio de um temporal, feito trovão que machuca os ouvidos por apenas um segundo, nós vamos sarar.
E vamos nos permitir envelhecer, ter estrias, comer, gozar da vida sem culpa e sem medos.
E vamos nos lixar para esses bebês com carências maternas que mordem o seio quando se sentem perdidos, com fome e carentes.
Encontrei uma fotografia de uma versão minha, onze anos mais jovem, magrinha, cabelos de menino, correndo no calçadão de Copacabana e lembrei de como eu estava me sentindo naquele tempo de tanto tempo atrás.
E lembrei que eu me sentia insegura com o cabelo recém-cortado e pesada, apesar de estar magra.
Com a foto na mão, sequei as lágrimas para poder ver melhor aquela mulher magrinha, sendo feliz com suas endorfinas e usando um corte de cabelo moderno e bonito.
Senti pena daquela mulher que nunca se sentia plena.
Daquela mulher que não se encaixava em todas as caixas que nem eram dela.
E desejei, com meu coração apertado, que ela não tivesse perdido tanto tempo com bobagens.
Mônica Becker Dahlem é publicitária, jornalista, escritora. Barbara, Frida, Caderno Literário Ajuris, Casos de Sucesso SEBRAE.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

