Volto ao tema porque a discriminação tomou proporções absurdas. Está escancarada nas redes sociais de um jeito ainda mais ofensivo e hipócrita, que reverbera cruelmente na vida das pessoas com nanismo. É fazer rir sem escrúpulos, humilhando, expondo e escancarando o deboche. Como já escrevi em outros momentos, é fundamental contrapor-se ao que nos constrange, provoca medo e fragiliza a nossa condição e o nosso convívio social.
Usar uma mulher com nanismo em um show e oferecer dinheiro para quem topasse beijá-la no palco ultrapassa todos os limites de respeito e bom senso. Essa “brincadeira” do cantor Nattan, de São Lourenço da Mata/Grande Recife, que a segurou e jogou para cima feito um pacote para alguém pegar e assim divertir o público, é o abuso do abuso. Sei que ela concordou e foi remunerada, assim como a pessoa que a pegou. Mas, sob o ponto de vista da ética, o tal cantor fazer o que fez é lamentável. Foi desolador ver as imagens, enquanto o riso da plateia rolava fácil, com o incentivo dele. Não somos fetiche. Não somos objeto de prazer. Não estamos em leilão. Não estamos à venda. E não somos brinquedo. Mas quem se importa quando o objetivo é seguidores e “likes”?
Esta é mais uma prova do desconhecimento da nossa condição, que já vem contaminada pelo preconceito desde que nascemos. Cansamos e não queremos que atitudes assim sejam replicadas porque só reforçam a discriminação. Esses usos indevidos já respingaram e ainda respingam muito no meu cotidiano. Já escrevi e sigo escrevendo sobre isso como uma forma de resistência, de desabafo e tentativa de conscientização. Lancei um livro chamado “E Fomos Ser Gauche na Vida” (Pubblicato Editora, 2020/2022), biografia onde divido com os leitores muitas histórias de vidas à margem, como a minha e da minha irmã Marlene, ambas com nanismo.
É fato que o uso preconceituoso de algumas palavras é muito comum. Também é fato que poucas pessoas percebem o que este uso pode desencadear. E quem sofre? Pessoas com deficiência, negros, indígenas, grupos LGBTQi+, entre tantos outros. Seres que incomodam porque apontam para uma diversidade de condições e comportamentos humanos ainda não assimilados por uma sociedade medíocre. Por isso, é preciso contestar. São usos que partem de pontos de vista limitados, que reforçam a rejeição. Pessoas com nanismo, por exemplo, são marginalizadas desde os tempos medievais, passando pelos regimes fascistas, especialmente o nazismo, quando a recomendação era que fossem eliminadas.
Por mais que tenhamos leis e ambientes adequados para a nossa condição, como rampas, calçadas, balcões mais baixos, banheiros adaptados, elevadores acessíveis – o que é um direito básico! – nossas vidas vão continuar frágeis se o preconceito que se desnuda sem freios nas palavras e nas atitudes não for combatido. Segregam quem não corresponde aos padrões através de comentários grotescos e piadas vulgares nas redes sociais, em programas de televisão e por aí afora. A discriminação pode estar nas entrelinhas de um texto, em vozes sem escrúpulos que repercutem o que ouvem irresponsavelmente, em olhares curiosos, em imitações e risos debochados ou em quem te pega no colo sem a tua autorização, como já aconteceu comigo em um evento. Portanto, mais uma vez, o que me cabe é respirar fundo, exigir respeito e seguir minha caminhada, sem medo da minha diferença e das dificuldades que vêm com ela. Como diz uma canção de Nelson Cavaquinho, G. Brito e A. Caminha: “Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”. As tais “piadinhas ingênuas e sem maldade”, tão comuns, que fazem a galera rir, machucam e provocam muitas dores. Mas não vão interromper o meu andar.
Vamos passar. Não vamos desistir. Até porque, como diz outra canção – “Dom de Iludir”, de Caetano Veloso – “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Sabemos. E da mesma canção vem o pedido – “Não me olhe como se a polícia andasse atrás de mim”. É nosso direito viver sem medo e com dignidade, encarando as dores e delícias que surgem no caminho.
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Aproveito este momento delicado de desabafo para homenagear mulheres maravilhosas que nos representam. Hoje são muitas. Vou citar três aqui.
– Kênia Rio, presidente da ANNABRA/Associação Nanismo Brasil, obrigada pela luta incessante em defesa dos nossos direitos, pela firmeza e pelos eventos incríveis que reúnem pessoas com nanismo do país inteiro.
– Rebeca Costa, advogada e influenciadora digital, obrigada pela voz autêntica e firme nas redes sociais.
– Vélvit Severo, ativista incansável, autora da cartilha “Escola para todos: Nanismo”, que abriu caminhos incríveis para o acolhimento de crianças com nanismo nas escolas, com quem aprendo muito desde que nos conhecemos.
Atualização de um texto escrito em 11 de junho de 2022.
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Foto da Capa: Acervo da Autora.

