“Eis que descubro um retrato meu, aos 10 anos. Escondo, súbito, o retrato. Sei lá o que estará pensando de mim aquele guri.”
Mário Quintana
“Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.”
Manuel Bandeira
Viajei e uma viagem não tem maior importância em si mesma, especialmente se comparada àquela que se faz por dentro. Afinal, não há paisagem que supere a imaginação e, mesmo numa viagem para um lugar bonito ou culturalmente enriquecido, a companhia é sempre o ponto principal, e eu estava acompanhado da filha. Importa que dormi mais e melhor, afastado do estresse do dia a dia, chegando à noite cansado daquelas andanças que se costuma fazer em viagem. Sonhava, portanto, e aí que está: o sonho é mesmo a maior de todas as viagens.
Em um deles, retornei à casa em que vivi dos sete aos dezessete anos, período que adquire ainda maior importância quando passamos dos sessenta. Era na rua João Abbott, número 109. Ela estava ali, transformada no Call Center que virou de verdade e, ao contrário do que não fiz (por medo) na realidade, eu agora pedia licença para entrar. Havia uma festa meio estridente, quando percebi que estava acompanhado de alguns amigos que entraram nela, aceitando uns drinks e uns canapés. Eu, não. Eu me ocupava em administrar o choro que me tomava naquele reencontro com o tempo, sobretudo porque naquele espaço eu podia estar novamente com o meu pai e com a minha irmã. Há sonhos que guardam alguma lucidez do que se passa fora deles e, no fundo, eu desconfiava de que os perderia novamente, quando acordasse, por isso tratava de aproveitar o máximo que podia, abraçando os dois ao mesmo tempo. Dispensa dizer que estavam jovens, corados e acharam estranha a minha angústia durante aquele abraço.
Mas sonho é louco mesmo e agora os amigos que me acompanhavam já eram outros e não queriam mais saber da festa, indo junto comigo até a biblioteca, no andar térreo, situada entre a sala e a copa, e que costumávamos chamar de escritório. Foi com muita surpresa que encontrei na segunda prateleira da estante enorme os livros de Concreto Armado do pai e algumas revistas de História Antiga, da mãe, incluindo uma menos antiga, com a pintura do Tiradentes estraçalhado, o que sempre me provocou um misto de pavor e fascínio. A mulher que nos acompanhava me disse que eu poderia levá-los (“são seus”), mas não tive muita certeza de que o conseguiria. No fundo, eu desconfiava de que é árduo o trajeto do sonho até a realidade, a ponto de, seguido, precisar ser feito com as mãos vazias. De qualquer forma, senti uma ingênua alegria de poder devolvê-los ao pai, quando saísse dali (ele havia desaparecido depois do abraço), como se eu ainda pudesse encontrá-lo, fora de um sonho.
Apesar do meu quarto ficar no andar de cima e aonde não fui pelo medo de um reencontro difícil comigo mesmo, havia no escritório alguns brinquedos que reconheci como um pião, uma parte de um lego, uma bola de couro-cromo marrom, um carro da polícia, um jogo de dedinho, vários jogadores de futebol de botão, incluindo o Loivo e o Alcindo, além de outros que eu nunca tive, como autorama e trem elétrico. Sonhos são mesmo pródigos em conceder o que nos falta, ou faltou.
Coloquei numa sacola tudo o que podia (era emocionante reencontrar Alcindo), depois refiz sozinho o trajeto daquele andar debaixo para ver se a geografia conferia. Conferia mais ou menos, porque, passadas as duas salas, adiante do começo da escada para o andar de cima, o porão estava à esquerda, e não à direita e, quando abri a porta do pequeno lavabo, vi uma banheira que nunca existiu, até mesmo porque ali não caberia. Em todo caso, entrei no porão, e ele parecia intacto, com produtos de limpeza e alguns trastes que a mãe nunca teve coragem de botar fora, como a enceradeira estragada que ninguém conseguiu consertar.
De repente, comecei a sentir certa falta de verossimilhança, especialmente na cozinha, onde havia um forno de micro-ondas, o que seria impossível nos anos setenta, sem contar que comecei a ouvir ao mesmo tempo os latidos dos cachorros Bob e Nick, estes que, fora de um sonho, jamais poderiam viver ao mesmo tempo. Aquilo tudo começou a me preocupar, de verdade. Também senti estranheza nos amigos que me acompanhavam (alguns eu nem conhecia), e tive um medo enorme de abrir a porta da cozinha que dava para o pátio e não reencontrar a ameixeira que eu escalava como se andasse pelo chão. Vinham barulhos assustadores de lá e isso me deixou mais assustado ainda, embora eu também ouvisse meus quatro avós falando ídiche, sentados em bancos de madeira, entre os dois mamoeiros. Tentei localizar o pai, mas já não conseguia.
Eu nem havia começado a subir as escadas que davam para os três quartos e o único banheiro onde era possível tomar banho, quando o sonho começou a se desmilinguir. A gente às vezes sente quando um sonho termina e foi exatamente o que aconteceu, logo em seguida. De repente, eu me vi no meio do mundo, de volta a um hotel ainda estranho, a filha dormindo na cama ao lado, no começo de um amanhecer quase róseo, sem saber o que fazer com aquele dia real que entrava pela pequena janela à minha frente, trazendo de volta todos os meus mortos.
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Foto da Capa: Gerada por IA.

