Quem me acompanha aqui na Sler sabe que sempre escrevo sobre livros. Gosto de compartilhar obras e histórias que, de algum modo, me tocam. Para isso, não me interessa se o autor é famoso, se o livro já vendeu milhares de exemplares ou se foi lançado por uma grande editora. Escrevo sobre o que me surpreende, seja uma obra enviada por um escritor amigo ou até mesmo um bestseller, desde que seu conteúdo me provoque, me emocione ou me faça repensar a realidade.
Nas minhas andanças literárias, leio de tudo: romances, textos jornalísticos, poemas, contos. E os temas desses livros são variados, apesar de eu preferir aqueles mais polêmicos, que dão pano para manga em uma boa discussão. Gosto dos que mexem com o leitor, que tiram da zona de conforto e levantam questões difíceis, muitas vezes silenciadas. Literatura, para mim, não é só refúgio, é também provocação. Esse é o caso da publicação que vou mencionar hoje. Um livro que não se limita a contar uma história, mas que, ao longo das páginas, propõe um debate urgente e necessário. Uma narrativa que vai além do entretenimento e convida à reflexão, principalmente sobre como as mulheres são retratadas, ou apagadas, nas versões oficiais de suas próprias histórias.
Dias atrás, recebi o poema narrativo “Caso porque te amo, mato porque me amo”, nono livro publicado da escritora e jornalista Ana Márcia Diógenes. Não preciso nem dizer que o livro me impressionou. Desde o título, a autora provoca um desconforto necessário, misturado à curiosidade. Em tempos em que casos de feminicídio ocupam as manchetes dos jornais e se espalham pelas redes sociais, o nome da obra soa familiar. Digo que tomaram as páginas, mas sabemos que o feminicídio está longe de ser um fenômeno recente. O que mudou foi a visibilidade. Essa violência, antes camuflada por discursos que romantizavam o controle e a posse, hoje vem sendo nomeada, denunciada e enfrentada.
Aqui no Rio Grande do Sul, temos um caso emblemático que ilustra bem isso: a história da Noiva da Lagoa de Barros, ou Noiva de Branco, como ficou conhecida. Por trás da lenda que assombra o imaginário popular, está a história de Maria Luisa Haüssler, assassinada em 1940 por seu ex-namorado, Heinz Werner João Schmelling, que não aceitou o final do relacionamento. O corpo de Maria foi encontrado na lagoa, e desde então surgiram relatos de sua suposta aparição, vestida de branco, vagando pelas margens. Com o passar dos anos, o crime brutal foi transformado em lenda, diluindo a violência real que o originou e apagando, em certa medida, a memória da vítima.
Voltando ao livro de Ana Márcia, Caso porque te amo, mato porque me amo, não retrata um caso de feminicídio, mas o drama de uma mulher que, diante da violência, precisou escolher entre morrer ou matar. Inspirado na história real de Maria Nazaré Félix de Lima, conhecida como a Viúva Negra do Sertão, o poema narrativo reconstrói os caminhos que levaram essa mulher a tirar a vida de ao menos quatro homens com quem se relacionou.
Natural de Ielmo Marinho, no Rio Grande do Norte, Maria Nazaré teve uma trajetória marcada por abusos físicos, psicológicos e emocionais. Desde muito jovem, foi submetida à violência dentro de relações que, em vez de proteção, ofereciam medo e dor. O livro não faz apologia à violência, mas propõe uma reflexão sobre os contextos que levaram Maria Nazaré a cometer os crimes e sobre a maneira como foi retratada pela mídia, que a transformou em uma figura quase folclórica, apagando as marcas de uma vida atravessada por abusos e sofrimento.
Em Caso porque te amo, mato porque me amo, Ana Márcia Diógenes rompe com o silêncio que costuma recobrir histórias de mulheres violentadas, dando voz a uma figura que, na vida real, foi reduzida ao rótulo de ‘viúva negra’. Ela propõe um movimento inverso ao que vimos acontecer com a história de Maria Luisa Haüssler, a jovem assassinada por seu ex-namorado em 1940, no Rio Grande do Sul. No caso da chamada Noiva da Lagoa de Barros, o feminicídio brutal foi, ao longo dos anos, transformado em lenda: a imagem de uma mulher de branco vagando às margens da lagoa substituiu a vítima concreta, com nome, história e vida interrompida pela violência. Surge então a pergunta: como teria sido a história se Maria Luisa tivesse conseguido reagir ao seu algoz?
Enquanto a lenda esvazia a memória da vítima, o livro de Ana Márcia resgata, pela ficção, a humanidade de uma mulher marcada pela dor. São dois caminhos opostos: um alimenta o imaginário coletivo, o outro desafia o leitor a enxergar o que muitas vezes preferimos não ver. E é justamente aí que a literatura encontra a sua potência de revelar o que há de mais cru, mais urgente, mais humano.
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Foto da Capa: Maria Nazaré Félix de Lima / Reprodução do Youtube

