Escrevi sobre Marrakech no final do mês passado e hoje sigo com a viagem ao Marrocos. Vamos começar com a subida das montanhas do Atlas, uma paisagem linda, como anunciam, realmente impactante, através de uma estrada inacreditável, num “S” contínuo, curva após curva. Optamos por viajar em um ônibus de linha local e não de turismo. Um ônibus que fez o atendente do guichê de vendas achar graça quando perguntamos, estupefatos, por que não tinha banheiro. Ora, de Marrakech a Ouazarzate é uma viagem de mais de cinco horas e nos pareceu absurdo o ônibus não ter banheiro. Mas o rapaz do guichê nos olhou de lado, com um sorrisinho na boca, e simplesmente afirmou que não há banheiro em nenhum veículo que faça aquele trajeto, de qualquer companhia, mas que haveria uma parada de 15 minutos no meio da viagem.
Foi o que bastou para eu entrar no ônibus já ansiosa pela tal parada. Minha bexiga tem uma autonomia irritantemente limitada e só o fato de não dispor de banheiro já foi o suficiente para desencadear uma vontade persistente de fazer xixi. Fui observando pontos possíveis na estrada para a parada. Depois de quase três horas, fiquei toda animada com a perspectiva de ir ao banheiro. Então, repentinamente, em um trecho absolutamente improvável da estrada, espremido entre duas fileiras de estabelecimentos comerciais, que oscilam entre bares e espeluncas e minúsculos armazéns com secos & molhados, o ônibus estacionou, ocupando metade do acostamento e metade da via. Descemos com o povo todo, que foi direto às compras de salgadinhos, refrigerantes e kebabs (o que conhecemos por “churrasco grego”) e eu fui ao fundo do primeiro bar à vista, em direção ao banheiro. Encontrei duas portas abertas para uma sucursal do purgatório: uma imundície secular do chão ao teto e um buraco no chão, ladeado por dois pés desenhados em um amarelo manchado para os incautos se posicionarem e mirarem corretamente o buraco onde mijar. O aroma abdico de comentar… Virei as costas e fui ter com meu filho: “Vai lá ver, porque só vendo” – ele foi e voltou, mudo, olhos estalados.
Atravessei a estrada e entrei em outro bar, que, além das portas abertas para os tais buracos, tinha uma porta alternativa com um vaso sanitário encardido, sem tampa, e um tonel de água, com um baldinho flutuando. Versão light do purgatório, obviamente imundo e sem rastro de papel higiênico. Voltei ao salão e meu filho já tinha colocado uma moeda de um euro na caixinha das contribuições, que exibia alguns parcos centavos, e o “garçom” estava embevecido com nossa presença. Imediatamente me perguntou se eu queria papel. Confirmei, com ele já puxando uma chave do bolso, com a qual abriu uma gavetinha da mesa das contribuições, de onde tirou um saquinho aberto de lenços de papel e me entregou-o, inteirinho, com um sorriso. Nunca me senti tão agradecida por um gesto. Fiz meu xixi e dei a “descarga” com o baldinho.
Voltamos ao ônibus e ficamos observando a interação do motorista com os locais – homens jovens no geral, de chinelos e meias, calças jeans surradíssimas, blusões puídos e cabelos com penteados inusitados, esculpidos pelo vento e o pó onipresente – numa animada conversa, ao sabor das lascas da carne que os velhos preparam nos balcões à beira da via, abraços fraternos e tapinhas nas costas de despedida. Voltamos ao “S” para mais de duas horas de trajeto, mas agora eu estava aliviada – e comovida com aquela cena – e podia fruir só apreciando a paisagem.
Logo o cenário, até então todo em terracota, ganhou pinceladas de verde e um fio de água fluindo entre as pedras no fundo da montanha. Ficamos intrigados quando começaram a aparecer os cumes brancos, desconfiados de que pudessem ser de neve, mas, sim, precisamos admitir que era neve, pois resultava no fio de água que viramos. Tudo se evidenciou quando começaram a aparecer as bolas sujas de neve amontoadas à beira da estrada. O cenário ficou ainda mais interessante, pelo contraste. No topo da montanha, o terracota voltou a predominar, assim como a aridez geral, a pobreza escancarada. No meio do nada, então, aparecem algumas casinhas de barro e telhado de palha com uma única placa de energia solar…
Chegamos a Ouazarzate já no final da tarde e contratamos um motorista local para nos levar no dia seguinte a Ait-Ben-Haddou, a cidade vermelha, fortificada, na antiga rota de caravanas entre o Saara e Marrakech. Nossa expectativa era grande, porque as informações sobre o lugar, em inúmeros sites e redes que pesquisei, dão a entender que é um sítio preservado, inabitado, mágico, foi declarado Patrimônio Mundial da UNESCO em 1987. Foi uma bofetada testemunharmos que aquilo agora é mais um shopping a céu aberto, cada portinha das casas labirínticas, construídas ao longo dos séculos, desde o XI, invadida por comerciantes do mesmo naipe da Medina, em Marrakech. Aí você pensa, ok, é a forma de sobrevivência desse povo que come poeira dia e noite e vive à beira da miséria, a África devastada pelos colonizadores, etc., etc., etc.
Mas, na sequência dessa viagem, eu fui a Óbidos, em Portugal, nessa Europa rica e colonialista, e lá é igualzinho, outro shopping a céu aberto. O lugar é habitado desde o final do Paleolítico, com uma história incrível ao longo dos milênios e cadê tudo isso? A rigor, o europeu não precisa ceder suas cidades históricas à lógica implacável do capitalismo burro. Os europeus reclamam agora desse turista/consumidor inconsequente, mas os comerciantes, que, afinal, são moradores, também agem da mesma forma. São coisas que se retroalimentam, fazem parte da mesma lógica.
Mas vamos voltar ao Marrocos. Saindo de Ait-Ben-Haddou tem um vilarejo, com mais quinquilharias para turistas, mas também um comércio raiz e ali conhecemos um artista que parecia um mágico. Pintou uma cena em um papel que só revelava a imagem depois de ele aquecer com um isqueiro por baixo, inacreditável e lindo! É a foto de capa dessa coluna, as palavras são os nossos nomes. Aí já era final de tarde e, quando o motorista chegou para nos levar de volta à Ouazarzate, perguntou se podia dar carona para uma professora, explicando que o transporte público é ineficiente, escasso e demorado, especialmente naquele horário. Concordamos, claro, e logo a carona virou várias caronas, com gente que desceu e subiu da caminhonete conforme ia vagando lugar – acho que o motorista resolveu arriscar não nos consultar mais: “Tudo certo com essa mãe e filho, por que não acederiam?” De fato, fomos apenas observando as pessoas, quietas ou sussurrantes, que, de repente, caíam numa risada, contida, acho que não queriam parecer mal educadas.
No outro dia, o mesmo motorista nos levou ao Oásis de Fint, dessa vez sem caronas, até porque, pelo jeito, ninguém se interessa muito em ir para aquelas bandas. São cerca de 15km de uma estrada deserta, com algum verde, e o único estabelecimento comercial é um hotel, ao se chegar no oásis, meio escondido entre as palmeiras. Não é aquele cenário de oásis dos filmes, no meio das enormes dunas de areia, redondo, com palmeiras altas e um lago no centro. Mas Fint é interessante, com muitas palmeiras e vegetação variada ao longo do rio (estava bem baixo), que corre por uma longa extensão, com picos rochosos ao fundo. Praticamente ninguém ali, apenas duas mulheres carregando feixes de palha e sacolas pelo trajeto, que segue até algumas aldeias berberes mais adiante. E sentado numa pedra, um homem trançando um pequeno camelo com palha, um artesanato delicado, módico e lindo, que, como a pintura mágica, eu também tive gosto de comprar – está pendurado na minha sala de estar. Ficamos ali, caminhando ao longo do rio, ouvindo o silêncio do deserto. Meu coração, novamente apertado, ainda mais apaixonado, pensando naquelas pessoas todas que vimos, nas tribos que por ali andaram, pela rota do deserto, nessa coisa nômade que nos move por necessidade e desejo.
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Foto da Capa: Arquivo Pessoal da Autora.

