Em fevereiro deste ano, fui, com meu filho Cássio, ao Marrocos. Nossa ideia era ficar alguns dias em Marrakech e depois subir as incríveis montanhas do Atlas, visitar Ait-Ben-Haddou, a cidade vermelha, fortificada, declarada Patrimônio Mundial da UNESCO em 1987, depois o oásis de Fint e seguir pelo deserto do Saara até Merzouga, onde as dunas majestosas de areia se revelam. Passei semanas tentando achar uma forma intimista de entrar no deserto, mas a oferta massiva é de excursões em grupo para “uma noite no Saara” em tendas com música, festa, dança em volta da fogueira e comidas típicas, passeio de camelo para fotos e uma contemplação relâmpago do nascer do sol antes de ir embora na manhã seguinte. Não consegui me imaginar neste cenário e desistimos, já sabendo que terei de programar um itinerário todo alternativo para conseguir uma imersão no deserto do jeito que eu preciso, como parte do estudo que estou desenvolvendo sobre o Sagrado. Então, fomos de ônibus pelas montanhas até Ouazarzate, que é a porta do Saara, onde logo adiante está o belíssimo oásis de Fint e conhecida também como a Hollywood da África, com vários estúdios de cinema, onde muitas gravações de filmes e séries famosos são feitas, como Gladiador e Game of Thrones. Foram experiências dignas de nota, que escreverei mais adiante.
Vamos começar por impressões gerais de Marrakech. A ideia recorrente sobre o Marrocos é a de um país exótico, colorido, efervescente e Marrakech em especial, em função da Medina com seu coloridíssimo mercado e da praça Jemaa el-Fna, onde as cobras dançam na calçada central ao sabor das flautas e do burburinho – se você não tem fobia de cobra, vai cair na tentação de pegar uma na mão, eu fiz isso e ainda posamos, sorridentes, para fotos com uma naja. Mas depois fiquei desconcertada, porque é um absurdo aqueles bichos expostos daquela forma… enfim…
Muito mais do que exótico, o Marrocos é um lugar dramático e de contrastes. Em Marrakech, na cidade velha, toda murada, não entram carros, apenas motonetas e bicicletas, que zunem pelas ruas espremidas entre as lojas e é um milagre que ninguém seja atropelado a cada minuto. Também entram burros de carga, que fazem entregas de mercadorias. É a Medina com sua explosão de energia e beleza, mas também uma overdose para os sentidos com o seu comércio furioso. Já a cidade nova é absolutamente distinta, com avenidas largas e bem iluminadas, trânsito organizado, hotéis estilo ocidental e shoppings “mais do mesmo”, ou seja, o insosso de sempre.
Obviamente, há que se hospedar na Medina, em algum dos inúmeros riads, hotéis moldados em casas antigas com um pátio interno para onde estão voltados todos os ambientes, um terraço no topo com alguma vista do exterior e nenhuma janela para a rua. É assim também nas residências particulares, na maioria dos restaurantes, nas mesquitas, tudo é direcionado para dentro no Marrocos e isso faz muito sentido, mesmo que atualmente o povo oscile entre a tradição e a influência ocidental. A começar pelas vestimentas longas e largas – dos homens com capuz, as mulheres cobrem os cabelos com lenços macios e coloridos. Algumas poucas também cobrem a boca e o nariz, que hoje dividem a cena com calças jeans, camisetas e casacos acolchoados para o frio.
Mas daí estamos caminhando na rua e retumba no ar a melodiosa chamada (azan) para a oração (salá) – são cinco ao dia e acontecem há mais de mil anos. É uma coisa absolutamente poderosa, que bate no fundo do peito como um tambor, faz doer o coração, nos acordando para a irrealidade do tempo. Esse lindo cântico em árabe nos remete a uma Marrakech que enfeitiçou artistas quando ali chegaram há cinco décadas, como Yves Saint Laurent e André Heller, que fincaram raízes e empreenderam com a casa Yves Saint Laurent, dentro do Jardim de Marjorelle e o Jardim Anima, hoje pontos turísticos. Posso imaginar o impacto da cena dos milhares de locais ajoelhados, rezando, em direção à Meca, na praça Jemaa el-Fna e dentro e fora da Mesquita Koutoubia, com seu minarete de 69 metros de altura, todos em vestes longas e predominantemente brancas na época. Não teria como não se apaixonar. A cena não é nem de perto mais a mesma, hoje é raro ver alguém se ajoelhar nas ruas, mas a energia persiste ao som do azan, é de arrepiar.
Chegamos à noite em Marrakech e o transfer do aeroporto nos largou na entrada da Medina, onde um senhor nos esperava para ajudar a carregar as malas pelas ruelas até o riad Dar Daoud. Fomos nos embrenhando num cenário estranho, de iluminação escassa e agitação do comércio ainda aberto e, dobrando esquinas, passamos por edificações semidestruídas, como se tivessem sido bombardeadas, até chegar a uma porta com algo em torno de meio metro de altura, a entrada do nosso riad, sem uma lâmpada sequer. Precisamos entrar curvados, descendo três lances de escada para dentro do pátio-salão com mesinhas e bancos velhos, tapetes manchados e cheiro de mofo, onde Bader, o gerente, nos esperava com a recepção tradicional de chá de hortelã e biscoitinhos doces. Mas o impacto do ambiente, já desde a rua, estava estampado no meu rosto e Bader percebeu que eu queria, antes de mais nada, ver o quarto. Subimos uma escada estreita até o terceiro piso, com uma varanda interna, e o cheiro já não era ruim. O quarto bem apresentável, com a curiosa janela para o salão abaixo, e o banheiro bonito e espaçoso aliviaram minha primeira má impressão. Voltamos ao térreo para beber o chá, pelo qual eu me tornaria adepta, com seu serviço ritualístico com o bule com bico fino alongado e copinhos de vidro com proteção de crochê colorido para não queimarmos os dedos. Bader se revelou extremamente hábil para nos dar a correta impressão do riad e da Medina, garantindo ser seguro andar pelas ruelas opressoras, afinal, o turismo é o meio de sobrevivência predominante dos locais. Meu filho logo baixou o app de orientação espacial que ele indicou, nos ensinando a usá-lo para não nos perdermos naquele labirinto. Subimos as malas para o quarto e, em seguida, saímos para jantar no restaurante mais próximo pelo qual passáramos, na companhia onipresente de gatos das mais diversas pelagens – são centenas que transitam pela Medina, surpreendentemente sem deixar rastro ou cheiro de seus dejetos.
Pela manhã, o café foi uma bela revelação, tudo simples, mas delicado e saboroso. Uma tigela pequena decorada em arabescos azuis, com maçã picadinha e uma folha de hortelã ou a metade de um morango no centro, um pão escuro, maravilhoso, de miolo macio e casca crocante, panquecas, mais potinhos com coalhada, manteiga, pasta de amendoim, geleia e mel, iogurte natural, suco de laranja, café ou chá. Uma cesta de laranjas fica sempre disponível e todos os dias. Comi a fruta deliciosa, suculenta, que encontramos também com abundância nas árvores pelas vias públicas.
Logo nos jogamos ao mercado (souk), uma extensa área de lojas, coberta por tetos de madeira esculpidos, lindos, e mil becos sombrios que se desdobram a outros pontos. Turistas são imediata e irremediavelmente engolfados num jogo desgastante de venda a qualquer preço, você tem que comprar e a regra é barganhar o tempo todo, ao limite. Se você diz que não quer uma mercadoria, os comerciantes dizem para você estipular o valor que quer pagar, de uma forma tão insistente, obsessiva, que acaba surtindo efeito contrário, pois vamos pegando pânico das compras. OK, além da sobrevivência do povo por esse turismo comerciante, é também uma questão que carrega um viés cultural, secular, os povos do deserto são negociantes natos desde Maomé, mas obviamente tá distorcido…
Na praça Jemaa el-Fna predomina o comércio de comida, com restaurantes vestidos para turistas, bares duvidosos e bancas de frutas e nuts lindíssimas, com tudo arrumado em triângulos coloridos, especiarias de todo tipo e, apesar dos comerciantes serem igualmente insistentes, o assédio é mais leve, mais alegre e não se pode escapar de provar sucos, tâmaras de diversas procedências, pistache, avelã, etc., deliciosos! Apesar de tamanha riqueza de ingredientes, a gastronomia em Marrakech não é criativa, a oferta é sempre a mesma: tajine (legumes ou diversos tipos de carne cozidos demais numa tigela de barro com tampa), curry, frangos bem temperados na grelha e espetinhos de carne. É mais uma dor, afinal a culinária marroquina poderia ser exuberante como a da Espanha, logo ali, ou França e Portugal, mas parece que a Europa colonialista chegou, explorou tudo o que encontrou, levou e não deixou herança gastronômica. Há várias escolas de culinária em Marrakech, mas não parece refletir na formação de chefs. Comer bem é um privilégio familiar, mais uma evidência de como tudo se volta para dentro no Marrocos, o que talvez seja uma forma de proteção. Para beber um vinho com a refeição, só nos restaurantes de turistas, em ambientes fechados – você jamais verá alguém bebendo uma taça de vinho ou uma cerveja em mesinhas de rua. É proibido e isso talvez seja também um fator que inibe o desenvolvimento da gastronomia, ao menos em nossa concepção ocidental.
Aí você chega ao reino dos sentidos nas lojas de essências, perfumes, óleos, “remédios”, especiarias mil, etc. Vale a mesma regra: tem que provar tudo e comprar. E os comerciantes vão colocando no seu nariz coisas que você nunca vai entender como funcionam, pois fazem um preparo tão veloz que é impossível de assimilar. A única coisa certa é ir sendo surpreendido, por exemplo, com uma lasca de “cristal” que se dilui em um determinado tipo de água e, então, abre uma highway desde suas narinas até o pulmão em um segundo. Você fica de olhos estatelados. E olha para todos aqueles vidros, frascos minúsculos e gigantes, potes de cerâmica e palha, ingredientes secos e frescos, etc. E fica pensando que ali está a maior e mais diversificada farmácia do planeta! E ao lado tem outra, e mais outra… não duvido nada que levantem defuntos por ali. Eu voltarei ao Marrocos, pois uma só viagem não dá conta, na verdade, acho que mesmo uma vida não dá conta daquilo lá. Na próxima, já saberei me movimentar melhor para chegar ao âmago deste lugar, pelo qual você se apaixona de qualquer jeito.
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Foto da Capa: Arquivo Pessoal da Autora.

