Fui ver o documentário Man on the Run, sobre Paul McCartney depois dos Beatles, sem muitas expectativas. Na verdade, assisti no automático ao filme lançado na Prime Video, porque sou beatlemaníaco desde a adolescência, e soaria como traição a mim mesmo deixar de vê-lo. Mas não tinha lá muitas expectativas, porque a fase pós-Beatles me entristece e, também, porque, ora, eu detesto quando chamam um beatle de ex-beatle, porque eles são for ever muito além do slogan. Entende o que digo? Um beatle é sempre beatle, e isso supera tempo e espaço.
Mas a tradição íntima se impôs e vi o filme lançado no último dia 27, com direção de Morgan Neville. E me encantei: foi um dos melhores e mais enriquecedores filmes sobre um beatle. Algo muito diferente do usual e, por isso, surpreendente.
O filme trata do homem Paul com seus dilemas. Mostra como foi sua vida depois de deixar a maior, melhor, definitiva e insuperável banda, algo que ocorre uma vez na História e que traduz aquele lance de o homem ter imagem, semelhança e toque divino. Porque essa ideia se refere, na minha interpretação muitíssimo judaica (o Deus incorpóreo dá margem a essas concepções abstratas), e não só minha, à condição de criar, e a arte é a produção divina por excelência, sendo a música a que conversa mais diretamente com a alma, e a música dos Beatles o seu ápice.
Se viajei muito, peço que não se impressione e continue a leitura.
A música do filme dispensa comentários. Sir James Paul McCarney é auto-explicativo, basta por si, é selo de qualidade. Mas rolam outros lances muito afudê. Exemplos: o Paul lamenta que John tenha terminado a banda o deixando na posição de vilão da história, mas fala do irmão de alma com um carinho absurdo. E a própria voz do John surge dizendo que, sim, teve uma briga com o “melhor amigo”, seguindo-se a pergunta: “Se não posso brigar com meu melhor amigo, com quem posso brigar?” Uau! Beatles humanos como nunca, e isso é lindo.
A relação do Paul com a esposa Linda, a vida de ambos num chalezinho escocês em meio à natureza e a criação da banda Wings entram também de forma muito bonita e crua no filme. O tempo inteiro uma questão permeia o roteiro: como poderia ser uma banda entre iguais, e não uma banda de apoio ao beatle? Inescapável darmos a real: é impossível Paul ser o simples integrante de uma banda. E os demais integrantes, por melhores que fossem, tinham que aceitar isso.
Fiquei especialmente tocado pelo depoimento de Sean Lennon, filho de John. Tchê, a sinceridade linda que aparece ali é desconcertante. Sean diz que seu pai, aquele ser amoroso que deixou tudo de lado pra só cuidar dele, era duro de conversar, e Paul era mais maleável, aberto. Mais: que a dupla formada por Lennon & McCartney é algo ímpar, irrepetível. Sabemos disso, mas ouvir do próprio Sean tem significado especialíssimo. É evidente que o guri cresceu ouvindo o pai falar do parceiro criativo histórico, icônico. E aí vem o arrebatamento completo quando Paul diz que uma das melhores coisas ocorridas na sua vida foi ter se reaproximado do John antes do dia 8 de dezembro de 1980, quando o amigo foi assassinado.
Cara, me emocionei pra caramba nesse trecho.
Aliás, ele põe em dúvida. Foi bom, mesmo? Ou ainda mais triste, porque não teria sido suficiente pra desfrutar de tanto afeto mútuo?
Pra arrematar, Sean volta analisando a figura do seu tio Paul. Diz que Paul amadureceu com a morte de John. Pirei com essa declaração, vinda do filho de um dos dois! Foi como a perda de um irmão e, consequentemente, a necessidade de trilhar o próprio caminho sabendo que agora é sem volta e sem atalhos. Paul tinha 38 anos e foi se dedicar ao trabalho pra tratar o luto. Entendeu que os xingamentos trocados eram contaminados por figuras externas, como o empresário Allen Klein, fator de conflito entre os dois, mas muito pequeno quando falamos de amor puro e real.
Peço que você entenda, porque esse lance de beatlemania é muito mais profundo do que se possa imaginar. Lembro-me quando essa magia tomou conta de mim, lá pelos 15, 16 anos. Eu já curtia Beatles como qualquer outro ser humano da minha idade (nasci no ano do A hard days night, traduzido tolamente no Brasil como “Os reis do iê iê iê”), mas um dia, na casa do querido amigo Carlinhos, na Ramiro, tive a epifânia sonora de ouvir Abbey Road. Me chapei sem erva ou trago! Curto todos os discos dos Beatles e outros muitos mais, não só de rock, mas aquele me fez entender o fenômeno, era uma ambrosia preparada no ponto ideal, porque, sem temer o exagero, digo que é a obra de arte mais linda e perfeita já feita por um ser humano. É divina!
Pois esse lance de beatlemania é como um folhetim permanente, em que sempre há cenas inéditas dos próximos capítulos, algumas surpreendentes e geralmente enternecedoras. Um romance sincero, continuado, sem fim. Falamos da mais linda trilha sonora e de quatro jovens talentosos ao extremo com personalidades complementares num pacto tácido de pertencimento e irmandade. Talvez por isso, no mesmo fim de semana, eu tenha me encantado ao ver o filme argentino Parque Lezama, do Juan José Campanella, com os espetaculares Luis Brandoni e Eduardo Blanco, que também trata de trajetórias de vida e temperamentos complementares (mas, literalmente, essa é outra e também lindíssima história).
Quem me conhece sabe que sou dado a fixações obsessivas. Tem o custo emocional de ser assim, mas, por outro lado, tem as vantagens. O cara produz com paixão, em quantidade e qualidade. Exercita o “Eu e Tu” do Martin Buber a pleno. Sou um beatlemaníaco apaixonado pela Argentina, país que foi um divisor de águas pessoal e profissional naquela temporada de 1997/98 vivendo e sendo feliz por lá como correspondente de jornal (Folha de S. Paulo). Portanto, foram dois filmes que mexeram comigo. O Parque Lezama fica entre La Boca e o Microcento, em pleno San Telmo. Caminhei muito ali, cotidianamente. O filme me tocou fundo.
Obsessões… um cara assim acaba, também, escrevendo oito livros sobre o seu time de futebol, e não é por acaso. Um cara assim valoriza o pertencimento, a paixão e a identidade. Diante da incompreensão sufocante, busca ar escrevendo livros sobre o seu grupo étnico e abordando o preconceito histórico que se traveste ao sabor dos contextos. Um cara assim, se tem a vocação, se vê obrigado a explicar, informar e esclarecer. Um cara assim é maníaco. Ao usar a escrita como ferramenta e arte, sente-se à vontade na tarefa de narrar. Ama ter contato com mais elementos enriquecedores nessa busca pela verdade e pelo humano nunca demasiado.
Terminei o filme com vontade de ir ao meu sexto show do Paul e sétimo de Beatles, porque contabilizo também o do Ringo. Nada se repete nisso. Sempre há novas emoções, a cada acorde, a cada informação, surpreendente ou não. A vida é um grande romance, um clássico, cuja trilha sonora encontrou a melhor autoria naqueles garotos que elevaram o rock’n roll à arte mais sublime e sofisticada.
Shabat shalom!
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Foto: Reprodução do Youtube

