
Segue abaixo o roteiro sobre o fantástico Salim Nigri, de quem sou o biógrafo, no seu centenário (dia 25 de março). Se você quiser ler o conteúdo com mais detalhes e contextos, leia o meu livro “A Fonte: a incrível história de Salim Nigri” (AGE Editora). No texto a seguir, claro, há o tom do torcedor apaixonado (meu caso). Mas, independentemente de você ser gremista, desfrute de uma linda história que tive a honra de contar. A seguir, o conteúdo que enviei para o Grêmio usar de subsídio nas comemorações programadas pelo clube e que faço questão de compartilhar completo com todos os meus leitores:
SALIM NIGRI, A FONTE
Breve introdução
Quando o Grêmio adotou o slogan “Clube de Todos”, seu perfil multiétnico e plural se somou à aura de perseverança e superação. Esse é o Grêmio, e essa é a sua torcida, representada por figuras míticas como o negro Bombardão nos anos 1930 e o judeu sefaradi Salim Nigri a partir dos anos 1940. Filho de pais que se originam da Espanha e do Líbano, ambos judeus e com duras histórias de vida, Salim perdeu a visão ainda jovem, em razão de uma rara doença de fundo genético. Salim era a cara de todos os gremistas e está na origem das palavras germinais “Com o Grêmio onde estiver o Grêmio”, alardeada em faixa que percorria os estádios e que inspirou o gênio negro da música Lupicínio Rodrigues a fazer o belíssimo hino do clube, sete anos depois. Veja bem, um judeu (Salim) estendeu a frase “Com o Grêmio onde estiver o Grêmio” no Fortim da Baixada em 1946 e um negro (Lupi) a usou como um dos principais trechos do hino em 1953, sete anos depois. Trata-se de uma dobradinha, uma parceria, que diz muito do clube que teve também o pioneiro negro Adão Lima, a estrela dourada na bandeira que homenageia eternamente o ídolo negro Everaldo, a icônica, pioneira torcida LGBT Coligay e o marcote Flecha Negra.
No centenário de Salim, o pai de todas as torcidas organizadas gremistas, faremos, neste 25 de março de 2026, um passeio sobre a sua biografia, com informações do livro “A Fonte: A incrível história de Salim Nigri”, do jornalista Léo Gerchmann.
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Roteiro:
O nome “Salim” significa paz e energia empreendedora. Como costumava brincar o escritor Moacyr Scliar, “nomes condicionam destinos”. Ao conhecer a trajetória de Salim, você perceberá que é o caso.
Salim Barros Nigri descende de duas famílias sefaradim (judeus que, na diápora, depois de serem expulsos pelo império romano da antiga Judeia no ano 135 DC, acorreram a países do norte da África e do sul da Europa, assim como são chamados de ashkenazim os que acorreram à Europa central e oriental).
Seus avós maternos, pais de Alegria Barros, saíram do Marrocos, passaram pela Espanha e aportaram no Pará antes de chegar ao Rio de Janeiro e depois a Porto Alegre, onde se estabeleceram. Tiveram cinco filhos, dois homens e três mulheres, sendo uma delas Alegria, a mãe de Salim.
O pai, Alberto Nigri, veio ele próprio até Santos. Chegou em um navio que supunha se dirigir aos Estados Unidos, uma vez que o destino era “a América”. Estabeleceu-se no Rio de Janeiro, para onde buscou do Líbano a mãe viúva e os nove irmãos, vítima de perseguições e segrerações.
No início dos anos 1920, Alberto enfim, viajou até Porto Alegre por motivos profissionais. Estando na cidade e sendo judeu, foi, como de costume, acolhido pela coletividade judaica. Em meio às reuniões nas casas das famílias e na sinagoga sefaradi, conheceu Alegria Barros. Casaram-se em 1925, e, em 25 de março de 1926, tiveram seu filho único: Salim.
Alegria morreu em 1º de janeiro de 1927, quando Salim tinha apenas nove meses. Alberto morreria em 1953, mas, mesmo sempre sendo pai presente, deixou o menino aos cuidados dos avós maternos. O pai fazia de tudo para tocar seu bazar na Rua Uruguai, conseguir o sustento do menino, e estar ao seu lado sempre que fosse possível. O nome do bazar levava o nome da rua, o Bazar Uruguai. Salim cresceu com a lembrança de um pai companheiro, que lhe passou valores sólidos.
Salim viveu e foi criado pelos avós maternos, duas tias e um tio. Era tratado “a pão de ló”, como ele próprio costumava contar aos risos, com a voz calma e profunda, que prendia a atenção dos interlocutores. Assim como Alberto, os avós maternos de Salim trabalhavam no comércio. Especializaram-se em tecidos, como muitos judeus, que se dedicavam ao atacado e ao varejo, em convivência harmoniosa com os árabes sírios e libaneses naquele ambiente movimentado, de amizades e intenso colorido. E por ali transitava Salim, desenvolto, entre as lojas, nesse ambiente de respeito às diferenças, onde o alagamento em dias de chuva era frequente.
O menino Salim viveu na Voluntários da e depois no Hotel Carraro, enorme prédio na esquina entre as Ruas Otávio Rocha e Doutor Flores, em frente à Praça Otávio Rocha, no centro de Porto Alegre. Alberto vivia perto do filho, na Rua da Praia. A proximidade física favorecia o convívio com o filho, e isso era muito importante para Salim, que tinha a essencial figura paterna presente. Primeiro, morou em cima do Cinema Imperial. Depois, mudou-se para o Hotel Majestic, onde hoje funciona a Casa de Cultura Mario Quintana.
Mais tarde, Alberto voltou para o Rio de Janeiro. Quando tentou levar o pequeno Salim para viver com ele na capital fluminense, o sogro e a sogra haviam perdido uma filha, e a relação com o garoto era de profundo afeto. Alberto foi sensível com tão delicada situação e se contentou em visitar o filho periodicamente.
Salim teve a infância cercada de atenção e carinhos. A família seguia em casa as liturgias que perenizam o judaísmo. Falava-se algo de ladino (o idioma sefaradi, assim como o iídiche é o idioma askenazi, com a lógica dos países de acolhida e escrita e palavras hebraicas). Aos 13 anos, em 1939, Salim fez seu bar-mitzvá no Centro Hebraico, sinagoga da qual seu pai Alberto é um dos fundadores.
O garoto Salim começou os estudos no colégio Nossa Senhora dos Anjos, indo depois para o Rosário. Encarou pela primeira vez a face horrenda do antissemitismo. Um professor dizia na sala de aula que os judeus tinham rabo. Aquilo o deixava confuso. Salim saía da aula intrigado. Entrava no banheiro e procurava o tal rabo, evidentemente sem nunca tê-lo encontrado.
Foram anos de sofrimento. Era o doloroso contato com o preconceito e a ignorância. E ele sofria com aquilo. Voltava para casa, ouvia as palavras em ladino e hebraico, via os avós acorrerem fielmente à sinagoga, cumpria ritos. E, ao mesmo tempo em que se aprofundado o pertencimento à sua cultura e à sua fé ancestrais, vivia o desconforto da sensação de ser tratado como diferente dos colegas na sala de aula.
Aquele desconforto chegou ao ápice quando Salim faltou a uma aula, e os seus colegas começaram uma bagunça diante do professor. “Senhor Salim, retire-se”, falou o educador. “Mas o Salim não veio hoje”, informou um dos alunos.
Ali a família percebeu que o garoto precisava de novos ares, e essa mudança se deu com a transferência para o Colégio Júlio de Castilhos.
Salim era pré-adolescente e viu naquela mudança uma oportunidade para dar as primeiras braçadas na fase adulta e nas ondas da liberdade. O menino percorria de forma desenvolta a região central de Porto Alegre. Conhecia cada naco de laje ou paralelepípedo, cada luminária charmosamente amarelada.
Salim bebeu da fonte judaica. Brincava em frente à sinagoga, em uma Rua Fernando Machado pacata e arborizada. Na medida em que cresceu, passou a se sentar com os mais velhos nos bancos de madeira. Acompanhava as rezas dos adultos em hebraico, sempre seguindo a regra essencial de estarem voltados para Jerusalém, como se fizera nos quase 4 mil anos de uma cultura que se mantém viva graças a pessoas como os Barros e os Nigri.
Salim passou a transitar pela Voluntários da Pátria e facilmente chegava ao Fortim da Baixada, frequentando o clube que viria a ser o centro das suas atenções por toda a vida. Aos 14 anos, decidiu que precisava participar efetivamente do clube.
A porta de entrada seria, em 1940, a adesão ao quadro de sócios juvenis – também chamados de “sócios colegiais”, cuja idade máxima era 16 anos. Salim tinha 14, mas o buço que sustentava precocemente fez os dirigentes suporem que ele era mais velho. Pediram que confirmasse a idade. Ora, nada que uma boa documentação juramentada não resolvesse. E assim foi: com uma contribuição de simbólicos dois cruzeiros, Salim entrou no Grêmio um ano depois do seu bar-mitzvá (a maioridade religiosa judaica), em uma época de conquistas e descobertas.
Porém, Salim queria mais. Era muito irrequieto. A paixão pelo clube era crescente, parecia haver algum sentido superior naquela adesão a uma agremiação, um destino, um caminho virtuoso a ser traçado. Aos 17 anos, já com idade superior à permitida para ser sócio juvenil, ele teve a ideia que o introduziu ainda mais na vida cotidiana do clube: passou a trabalhar voluntariamente na biblioteca, na sede que ficava sobre as lojas da Rua da Praia.
O sonho do menino Salim era ser jogador do Grêmio. Mas, ora, a vida compensa uma ausência de destreza pela presença de outra destreza, e, no caso de Salim, havia uma afeição ancestral pelos livros. E outra curiosidade, um tanto quanto cruel e irônica, é que ele perdeu a visão ainda muito jovem, mas nunca, por toda a vida, apesar desse óbvio empecilho, deixou de se dedicar às narrativas.
Em 1945, aos 19 anos. Salim pôs em prática o sonho de criar a primeira torcida organizada do Grêmio. A “organizada” gremista era comandada pelo DTG (Departamento do Torcedor Gremista).
Salim tinha uma sadia relação de amizade, de troças e parcerias, com o colorado Vicente Rao. Aliás, deixando de lado a figura de linguagem, foi a corneta o instrumento, que tornou a vida militar leve para Salim. Como sabia tocar corneta, ele se candidatou a participar da banda do exército e foi aceito. Passou o ano de serviço militar tocando corneta, e a introduziu no clube.
Essa mesma corneta foi usada na Rua Augusto Pestana, onde moraria depois com a família, para festejar em alto em bom som todas as vitórias gremistas, para desespero da vizinhança. Quando os Nigri se mudaram para a Ramiro Barcelos, ele abandonou o hábito, em respeito aos internos do Hospital de Clínicas.
A propósito: quem entrasse no quarto com os móveis azuis e abrisse o roupeiro de Salim, com roupas que variavam do azul piscina ao azul marinho, um roupeiro basicamente celeste, não tinha dúvida: ali vivia uma pessoa completamente apaixonada pelo Grêmio.
Foi naquela época, depois de ter cumprido o serviço militar, que Salim conheceu Luci, a menina que não gostava do próprio nome e que se tornara conhecida socialmente como Vera. Aliás, por isso a filha acabou se chamando Vera Lucia.
Depois do quartel, Salim conseguiu emprego no setor administrativo do Centro de Saúde Modelo, na Avenida Jerônimo de Ornelas. Trabalhava de segundas a sextas-feiras. Até que, certa vez, resolveu adiantar algum trabalho num sábado ocioso e solitário. Pegou o bonde como sempre fazia e foi ao arquivo. Enquanto Salim fazia lá seus arquivamentos, apareceu o responsável pelo setor, que ficou surpreso com a dedicação do jovem. Então começaram a conversar e descobriram a idêntica paixão gremista. Desse diálogo, desencadeou-se nova etapa na crescente presença de Salim como torcedor-símbolo gremista. O chefe chefiava. E tinha carro. Ajudou Salim a usar algumas horas para trabalhar pelo amado clube.
Na época, Salim repetia para todos: “Eu durmo o Grêmio, eu como o Grêmio, eu vivo o Grêmio. Eu amo o Grêmio!”
Salim adorava ir ao cinema com os amigos. O final das Grandes Guerras coincidiu com a explosão do cinema. Sua juventude coincidiu com o crescimento das salas de bairro em Porto Alegre – seu próprio pai chegou a morar em cima do Cinema Imperial, que ficava ao lado do Cinema Guarani, na Rua dos Andradas, a Rua da Praia, o ponto de encontro por excelência em uma cidade que se ampliava.
Mas algo começou a ocorrer, e estava totalmente fora do seu roteiro. Os amigos falavam sobre algumas cenas, e Salim simplesmente não as havia visto. Olhava-os intrigado. Como podia ser aquilo? Era como se certas imagens não existissem somente para ele. A situação ocorreu uma, duas, três, quatro vezes… tornou-se assustadoramente sistemática. A perda da visão foi progressiva. Tentou-se de tudo para aplacá-la. Ele tinha retinose (ou retinite) pigmentar, que causa a degeneração da retina, região do fundo do olho responsável pela captura de imagens a partir do campo visual. Geralmente, os sintomas da retinose pigmentar começam a aparecer entre os 10 e os 30 anos. É uma doença genética progressiva.
Salim teve de ser dolorosamente sincero com a namorada, Vera. Era o momento da verdade, da honestidade, da hombridade, do caráter! Encheu-se de coragem, temendo a possibilidade de uma grande tristeza, daquelas de tirar o chão. Chamou-a para uma conversa séria. A moça ficou apreensiva com tamanha solenidade, com o rosto contraído e os olhos vermelhos do namorado, acusando insônia e choro. Ele, um jovem esguio, de estatura média, cabelos lisos penteados para o lado, pele levemente trigueira, bigode fino e preto, nariz adunco, olhos negros e profundos, expôs a situação e disse que colocava a namorada à vontade para seguir o caminho que lhe aprouvesse. Que poderia até mesmo declinar do casamento. Chegou a insistir. Mas Vera, na verdade Luci, era uma jovem esbelta, morena, de castanhos cabelos cacheados, grandes olhos no mesmo tom, boca de lábios bem delineados e feições delicadas, em um gesto de amor, o olhar fixo nos olhos do homem que amava e que perdia a visão, disse querer estar sempre ao lado dele, que enfrentaria todas as adversidades. Com ele e onde estivesse!
Curiosidade: o gene pode ser repassado ao filho caso tanto o pai quanto a mãe o tivessem. Alberto veio do Líbano e tinha 32 anos quando se casaram. Alegria, uma garota de 17 anos, já estava em Porto Alegre. Ambos judeus sefaradim. Vera Lucia, a filha de Salim, comenta o fato de os casamentos dentro de uma comunidade pequena, judaica e sefaradi, favoreceram a rara doença do seu pai.
Os dois se casaram em 1949. O choque com a cegueira progressiva fincou os pilares de uma relação sólida. A renda familiar viria principalmente da aposentadoria precoce de Salim e da herança deixada pelos avós e pelo pai, falecido em 1953 depois de ter se casado novamente, no Rio, com Regina Cohen.
Outras curiosidades: Salim ficou sabendo que o nome de Vera na verdade era Luci somente quando os dois se casaram. Num relacionamento amoroso, repleto de carinho mútuo, duas gestações não vingaram. Dele, nasceu a filha Vera Lucia.
Já aos nove anos, Vera Lucia começou a auxiliar o pai, com a caneta tinteiro que usava no Colégio Israelita Brasileiro, a confeccionar recibos. Com a ajuda do seu tio Samuel (irmão de Alegria), Salim conseguiu outras fontes de trabalho e renda.
A família sempre estava ao lado, com Vera Lucia e os netos Bruna e Rodrigo. Quando o programa era com os amigos, algum deles o buscava _ em especial, o “irmão de alma” Wolmer Padilla e o filho deste, Ricardo.
O apartamento na Rua Augusto Pestana e depois o da Ramiro Barcelos eram bem localizados, ficavam, ambos, próximo à Avenida Osvaldo Aranha, da efervescência judaica com suas lojas, consultórios, escritórios, bares, armazéns, açougues de carne cortada pelo rito judaico, clubes, entidades culturais e sinagogas a poucos metros do Parque Farroupilha (a antiga Redenção). Salim transitava em ruas como a Fernandes Vieira e a Felipe Camarão como quem enxerga perfeitamente.
Salim se tornou um aficionado pelo rádio. O som, para ele, tinha cores. E o interessante é que o esporte entrou no rádio justamente entre os anos 1920 e 1930, a partir das primeiras transmissões esportivas. O rádio foi essencial para que o futebol se massificasse, e Salim surfou nessa onda.
No Grêmio, o único grande amor de Salim além da família, a cegueira também não foi empecilho. Quando o garotinho tinha 17 anos e já ajudava na parte administrativa do clube, os amigos no prédio da Rua da Praia eram bem mais velhos e sempre foram sol[icitos quando ele precisava de ajuda.
Salim cativava as pessoas com seu jeito sereno de falar, a voz, a gargalhada solta e a singeleza do homem que cultivava hábitos como o bife com fritas, as músicas românticas francesas e as composições de Nelson Gonçalves e Lupicínio Rodrigues, claro. Tudo muito simples, mas com o requinte da autenticidade.
Salim se tornou o símbolo de perseverança que tanto condizia com o espírito do clube e que seria traduzido na fibra moral de Eurico Lara, nos sonhos dos moinhos de vento, no mosqueteiro guerreiro, na faixa que ele próprio estendeu.
Salim queria ter sido comerciante. A aposentadoria precoce, devido à falta de visão, interrompeu esse sonho. Tinha afeição pela atividade de seu pai e de seus avós. A dedicação ao Grêmio e à família compensou essa lacuna. E também aquilo que o jornalista Lauro Quadros, grande amigo, define aos risos como “jornalismo honorário”. Salim chegou a ter quatro linhas telefônicas em casa, sendo uma delas reservada apenas para a família. Ouvia cinco rádios ao mesmo tempo.
Atento observador do cotidiano e dono de uma memória impressionante, Salim tinha vasto repertório de histórias -em especial, histórias sobre o Grêmio. O Gre-Nal Farroupilha era uma delas. Mesmo que tivesse apenas nove anos quando o episódio histórico havia ocorrido, Salim sabia tudo dele.
Salim guardava uma fita cassete que mandou gravar nos anos 1980, com a narração daquele jogo e com a emoção dos seus gols impressionantes. Nessa mesma fita, ele tinha o hino anterior do clube, que antecedeu o eterno “até a pé nós iremos” composto por Lupicínio. Salim também sabia isso de cor.
Em meados dos anos 1940, quando Salim chegava ao fim da adolescência, já trabalhava, se dedicava ao Grêmio e sentia a visão se esvair, foi uma época marcante na sua vida, como gremista que crescia em relevância dentro do clube e como homem que descobria o mundo.
O protagonismo de Salim em meio à torcida gremista se intensificou em 13 de agosto de 1944, um domingo. Foi o dia de uma das grandes epopeias imortais. A do “Gre-Nal dos 4 a 3”. Era um Gre-Nal no Dia dos Pais. O Gre-Nal número 83… O jogo era na Baixada, e, além das arquibancadas, havia outro setor criado pela inventividade de Salim. Ele distribuiu cadeiras de palha em volta do campo, para que algumas pessoas se acomodassem e vissem o jogo no nível do gramado – o que não necessariamente é o melhor local, mas que permite uma proximidade maior, mais emoção e, claro, casa cheia.
Salim tinha 18 anos. Além de trabalhar na logística dos jogos e na organização da torcida, era uma espécie de animador do estádio, assim como havia sido Bombardão e como era Dorval, mais conhecido como “Carrega”.
Mas Salim ia mais longe: houve o episódio do Trem Azul, em uma ida dos aficionados gremistas de Porto Alegre a Novo Hamburgo, em um ensolarado domingo, 10 de junho de 1945, para amistoso entre Grêmio e Floriano (antigo nome do Novo Hamburgo). O jogo serviria para o Grêmio “paraninfar a inauguração festiva das novas instalações e dos melhoramentos no gramado do E. C Floriano, na Rua Bento Gonçalves”, como disseram os jornais de NH. Mas o contexto todo acabou sendo uma demonstração de pertencimento e perseverança e uma das inspirações para a essência da frase “Com o Grêmio onde estiver o Grêmio”.
Para poupar custos com o deslocamento da delegação, um dirigente sugeriu que se tentasse vender ingressos para torcedores que quisessem acompanhar a equipe. Salim foi encarregado de mobilizar a torcida para o jogo. Naquele tempo, não era habitual torcedores seguirem o time. Mesmo assim, esperava-se que ao menos 60 deles se apresentassem, lotando um vagão que fosse. Só que a lista de apaixonados pelo Grêmio aumentou espantosamente sexta e sábado, e foi preciso ligar várias vezes à Viação Férrea solicitando mais carros ao comboio. Ao fim e ao cabo, o expresso de Salim espichou-se por 18 ruidosos vagões. O Grêmio venceu o Floriano por 2 a 1, mas o jogo ficou marcado pela incrível mobilização dos tricolores, um ato de paixão que bem exemplifica o gremismo. O episódio teve tanta repercussão que no ano seguinte foi cunhada a frase que, impressa numa faixa, resume e captura o sentimento que mais genuinamente impulsiona a massa tricolor.
Salim viveu momentos tensos naquele dia, pois a lotação dos vagões poderia se tornar perigosa. Eles estariam abarrotados! A noite de sábado para domingo foi de uma solidão corrosiva, de inquietação. O jovem Salim caminhava pelas ruas de paralelepípedos do Centro, sob a luz amarelecida das luminárias, e refletia sobre a temeridade do que estava a horas de realizar. O sono foi entrecortado naquela noite. Mas tamanha ousadia resultou num grande sucesso, e ali, naquele instante, ele percebeu a enormidade que tinha a vocação popular de um clube de massas.
No mesmo 1952 em que nasceu sua amada filha Vera Lucia, Salim participou de forma decisiva da contratação do atacante Tesourinha. Teria sido dele o conselho ao presidente Saturnino Vanzelotti para fechar a ousada contratação, conforme depoimento que ele próprio deu ao historiador Daison Sant’Anna.
Era uma decisão ousada, por dois motivos: 1) o Grêmio jamais teve veto formal a jogadores negros (teve pardos desde ao menos 1913, e o gremista Adão Lima foi o primeiro jogador preto da dupla Gre-Nal, já em 1935), mas, desde a segunda metade dos anos 1930, o Internacional, por motivos econômicos num momento de crise, se abriu mais, e esse novo costume colorado resultou na montagem do Rolo Compressor, do qual Tesourinha era o maior craque. O time era miscigenado, porque as circunstâncias econômicas e técnicas assim impuseram. O Grêmio, por não ter vivido esse avanço, que no rival se deu em razão da necessidade, formalmente, naquele hiato histórico, era mais fechado. Logo, a resistência a essa “norma” (no sentido dos costumes) era maior. E Vanzelotti queria fazer também do Grêmio um clube mais aberto. Era o momento da ação afirmativa para deixar estabelecido, de forma explícita, o caráter inclusivo do clube. 2) Tesourinha havia jogado no Internacional e se tornado ídolo. A contratação de um jogador desses redobra ainda mais a resistência. Mas Tesourinha chegou, se adaptou e também virou ídolo tricolor. Um final tão feliz, que as filhas de Tesourinha, gremistas, levaram troféus do pai para serem guardados no museu do Grêmio.
Foi nos anos 1960 que Salim conheceu um dos seus grandes amigos: o jornalista Lauro Quadros, um dos maiores nomes da história do jornalismo gaúcho. A relação entre Salim e Lauro era familiar, envolvia as mulheres e os filhos, estendia-se aos veraneios em Capão da Canoa e aos jantares lembrados com carinho. Era tamanha a memória de Salim, que os jornalistas esportivos recorriam a ele quando, ao vivo, tinham alguma dúvida. Ele era uma espécie de Google na época pré-internet.
Salim gostava de recitar verso composto pelo jornalista Acélio Daudt, em especial quando o Grêmio retomou a hegemonia regional no icônico campeonato gaúcho de 1977, quando o treinador Telê Santana formou um dos times mais queridos pelos gremistas: “O Grêmio é igual ao capim teimoso / Se a geada mata no inverno / Na primavera volta mais viçoso”. Aqueles anos de hegemonia colorada eram vistos por ele como um hiato, um inverno que passaria na primavera de 1977 e floresceria lindamente na década de 1980, com o pólen que atravessou continentes e fertilizou o mundo com o azul, o preto, o branco e todas as cores em 1983.
Os anos 1980 foram tão importantes na vida de Salim, que, vida afora, ele sabia imitar igualzinho a narração icônica que Armindo Antônio Ranzolin faz na Rádio Gaúcha, direto de Tóquio, quando o Grêmio foi campeão mundial. Era 1983, e aquilo jamais saiu da sua vida. Parecia algo inigualável.
Quis o destino que uma linda coincidência ocorresse quase três anos depois. Em 15 de setembro de 1986, no dia em que o clube completava 83 anos, nascia Bruna Nigri, a sua inseparável netinha, que o pereniza e até hoje diz que ele foi avô, pai e amigo. E dois anos depois veio Rodrigo. Uma advogada e um médico.
Até o fim da vida, Salim aprontou das suas, com aquela traquinagem própria do que há de mais belo no futebol. Pouco antes da Copa do Mundo de 1998, a professora Janete Sessim, da Aliança Francesa, recebeu uma curiosa ligação. Salim, com sua voz grave, depois de se certificar do gremismo da moça, a incumbiu de uma tarefa estratégica: traduzir o hino do Grêmio para o francês a fim de que fosse gravado em fita cassete e apresentado, na Copa, como uma autêntica composição gaulesa em homenagem ao Tricolor. O jornalista Paulo Sant’Ana, voz gremista na imprensa, mostrou na Rádio Gaúcha a incrível versão francesa do hino composto pelo Lupi, assegurando que encontrou em uma loja de discos parisiense.
Salim entrou no Grêmio pela biblioteca. A frase que inspirou o hino é de uma faixa pintada por Salim. A filha de Salim é formada em Letras… Salim deixou o legado de afeto, sabedoria e muita paixão pela vida para a filha, para os dois netos e para o lindo bisnetinho que não chegou a conhecer. A neta Bruna, formada em Direito, diz que cogitou ter feito Medicina com o único propósito de achar a cura para a cegueira do avô, “uma pessoa com ganas de viver”, diz ela, “que parecia eterno”. Mas não era. Salim morreu em 1 de março de 2010. Completaria 84 anos 24 dias depois.
Neste 25 de março, completaria um centenário. Merece sempre ser lembrado.
O presidente Hélio Dourado costumava dizer sobre Salim. “Foi o gremista mais gremista que conheci.” A neta Bruna não teme ser até mais exagerada: “Meu avô foi a melhor pessoa do mundo!” Enfim, nada pode ser maior.
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