Agora que acabou o campeonato brasileiro, quero ter uma conversa com os meus companheiros de paixão, e não me refiro só aos gremistas. Vejam a foto que ilustra esta coluna. Traz o time do Grêmio em 1976 e expressa ensinamentos pelas ausências, pelos vazios. Não estão ali Iúra e Tarciso, e ambos eram jogadores do Grêmio. Por que eles não estão ali? Porque o torcedor comum é afoito, implacável e por vezes cruel. Esse time gremista era muito bom, mas futebol é um jogo de competição. Logo, não basta ser bom; precisa ser melhor que o outro. E, naquele momento, o rival local tinha o melhor time da sua história, um dos melhores times de todos os tempos, certamente o grande time dos anos 1970 no Brasil.
Jogadores como Ancheta, Iúra e Tarciso, hoje ídolos incontestáveis na mais alta prateleira do pedestal gremista, sucumbiram a essa comparação. Os três chegaram a cogitar ir embora pra ajudar, porque a sua geração estava marcada pela derrota. Conversei muito com eles quando escrevi o livro “Coligay”. Ancheta, por amor ao clube, verbalizou a possibilidade de sair. A comparação com Figueroa era direta, e ambos eram fora de série, cada um no seu estilo. Até desconfio que, no futebol de hoje, Ancheta levaria alguma vantagem, porque era extremamente técnico, tinha incrível noção de espaço e visitava a área adversária com frequência e efetividade.
Mas vamos falar sobre Iúra e Tarciso, dois jogadores também excepcionais, muito à frente do seu tempo. O “Passarinho” Iúra voava pelo campo inteiro com um fôlego, uma técnica e um senso de finalização impressionantes. Era tão gremista, que o Inter uma vez tentou contratá-lo, e ele, na hora de assinar o contrato, pediu desculpas e disse que não conseguiria defender o rival da sua paixão, aposentando-se imediatamente. O “Flecha Negra” Tarciso é tão ídolo, que virou mascote do clube. Até 1976, insistiu em ser centroavante, quando na verdade era uma jogador moderno, de flanco e também sabendo jogar centralizado.
Todos esses jogadores eram o novo, eram o futebol moderno. E o Grêmio dessa foto é o do 4-3-3 conservador, com dois ponteirinhos (Zequinha e Ortiz) bons de bola, dribladores infernais, mas que jogavam correndo pelos lados, infiltravam–se raramente na área adversária e faziam poucos gols, numa época em que o Inter já tinha Valdomiro e Lula, dois pontas modernos, goleadores, com mais repertório. Zequinha até hoje é um grande gremista. Ortiz voltou pra Argentina e foi campeão do mundo em 1978, no time de Menotti. Mas, apesar de ótimos e hábeis, eram jogadores datados, que facilitavam muito a marcação do adversário.
Sobre Zequinha, tenho uma história que o Tarciso me contou e que muito diz do caráter desse sujeito incrível que era o Flecha Negra, eternizado como mascote. Tarciso era amicíssimo do Zequinha. Sabia que não devia jogar de centroavante, que precisava sair da área pra render todo o seu potencial de velocidade, rapidez e mobilidade. Mas segurou no osso, por lealdade. Não queria tirar o amigo do time (o ataque, um ano antes, era Zequinha, Tarciso e Nenê). Até que, em dezembro de 1976, chegou o Telê Santana, e o que Telê fez? Pôs o Oberdan (um Kannemann da época) ao lado do capitão Ancheta, valorizou o futebol do Iúra, empurrou o Tarciso pra ponta sem jamais abrir mão do Zequinha como alternativa.
Todos felizes, incluindo nós, torcedores. O grande maestro Telê montou um dos maiores times gremistas de todos os tempos. Nas pontas, Tarciso e o fantástico Éder. No meio, Vitor Hugo segurando a onda, Tadeu armando e Iúra livre pra circular com leveza por cada canto do gramado. Nas laterais, Eurico e Ladinho. E lá na frente, o hábil, matreiro, oportunista, traquinas e inesquecível André Catimba, um sujeito que já chegou aqui veterano, mas Telê mostrou que um patinho não tão bonito, com trajetória modesta, era um formoso cisne. Esse time fantástico dobrou uma esquina no Grêmio e abriu as portas pras maiores conquistas do clube.
Pois é. Na foto de 1976, um ano antes, não estão Iúra e Tarciso. Ambos sucumbiram ao azedume, à impaciência e às críticas de torcedores. E não pense que isso é incomum. O meu amigo Roger Machado me contou que, sim, diante da perseguição e das vaias reiteradas, tem jogadores que sentem emocionalmente essa carga e deixam de desenvolver o seu talento. O cara se afunda. Precisa ter muita casca pra ser impermeável a tanta agressividade de pessoas que estão fora dos bastidores e do campo e, por vezes, subvertem a lógica opinando sem estar suficientemente informadas (isso ocorre frequentemente no futebol).
Que bom que chegou o Telê e, como se diz hoje, saiu da casinha.
Nenhuma crítica aos seus antecessores, os ídolos incontestáveis Osvaldo Rolla (o Foguinho) e Paulo Lumumba. Ambos, pra quem conhece minimamente a história tricolor, dispensam comentários. Mas eram treinadores locais, que carregavam os vícios da aldeia e, inevitavelmente, cediam aos críticos, porque a sequência de insucessos deixa o treinador sem munição pra reagir e impor o que é correto. Veio Telê, completamente descontaminado, e fez o que precisava ser feito pelo time. Hoje sabemos disso com clareza. Mas no contexto daquela metade dos anos 1970, era difícil raciocinar com distanciamento. O ambiente era nojentamente rançoso.
Falo de Grêmio porque sou gremista e pesquiso o clube. Mas não é diferente no Inter. Semanas atrás, jantando com os queridíssimos amigos colorados Nelson Asnis e Ilton Gitz, entramos nesse assunto. Ambos são muito inteligentes e sabem falar sobre futebol descontaminados da nossa rivalidade insana. E os dois asseguraram que no Inter é igual. O Nelson, inclusive, citou com razão o Valdomiro. A sorte do Valdomiro foi que aquele time do Inter era muito qualificado e vencedor. Quem entrasse tinha tempo de adaptação. Porque o início do Valdomiro foi sob intensas vaias e muita incompreensão. Até que ele se tornou um ícone colorado.
…
Falo sobre impaciência, azedume e uma tendência do torcedor de opinar sem ter informações (até porque há informações que não podem ser públicas), o que me parece algo completamente descabido. Cada vez mais isso ocorre, inclusive na imprensa. Quando fui repórter esportivo, entrevistávamos o jogador no pátio do estádio e víamos os treinos coletivos. Vivíamos os bastidores. Observávamos reações, expressões, empenho, preguiça, comprometimento ou não. Era muito mais fácil e apropriado opinar. E hoje a rapidez da internet exige várias opiniões por dia, dos jornalistas, dos influencers e dos influenciáveis. O cara se compromete com uma tese por vezes vazia e continua empunhando a sua bandeira, frequentemente pela vaidade de depois afirmar “viu? Eu avisei”. Chato! E ruim.
(parênteses aqui: tive a experiência de perguntar aos coordenadores da base do meu clube, quando fui palestrar pra gurizada, por que determinado jovem talentoso não era aproveitado em posição sabidamente carente do time profissional. Ouvi os maiores horrores sobre a triste e dramática vida pessoal do rapaz e do quanto o clube estava se esforçando pra resgatá-lo emocionalmente e permitir o desenvolvimento do seu potencial. São temas que um dirigente jamais deve tornar público e, ao mesmo tempo, precisa aguentar no osso a incompreensão pelo não uso do garoto. Por isso, faz tempo que concluí: a atividade mais difícil do mundo é a de dirigente do futebol, o cara que precisa ser criterioso e frio em meio a um ambiente passional e quente e ter prudência quando todos pedem imediatez).
Edenilson do Humaitá
Agora vou polemizar. Sou apreciador do Edenílson, jogador que faz o vaivém com muita técnica, um motorzinho que recebe a bola e de primeira serve o companheiro, dando velocidade ao time. Perceba que é volante, mas ainda assim pisa na área adversária, faz gols e é líder em assistências (veja os melhores lances dos jogos mais recentes, contra Fluminense e Sport, são um exemplo do que foi ele na temporada). É coadjuvante, entre o Arthur e o Willian no meio-campo? Sim. Mas um coadjuvante importante pra mecânica tática. Alguns torcedores implicam claramente (às vezes explicitamente) porque jogou no Inter, mas, ora. é assumido gremista (ele e a família) e até baixou salários pra ficar na Arena em 2026 (jogou no Inter quando houve uma proposta já no meio da carreira iniciada no Caxias e com passagem, antes do Inter, por times como Corinthians e Udinese. Profissional, ora!). Ah, e os demais jogadores o adoram. É líder positivo, dá leveza ao vestiário. Mais: é filho do Humaitá, um dos bairros da Comunidade Tri. Edenilson merece o nosso carinho.
E comecemos 2026 com paciência, sabedoria, leveza e bom senso.
Asseguro que isso ajudará a termos um ano melhor.
Antes de finalizar esse assunto e entrar brevemente em outro, sublinho que usei o Edenilson como exemplo, mas eu poderia começar do início, literalmente. Entendamos que o ótimo Gabriel Grando é um goleiro formado na base, com enormes carinho e identificação pelo clube, potencial de líder e muita qualidade (a ressalva é a saída deficiente com os pés). Já que o Volpi sucumbiu às críticas frequentemente exageradas (teve atuações espetaculares, chegou a calar a boca de muitos que o destratavam injustamente e estava prestes a ser um herói unânime, mas aí se lesionou, e o emocional acusou o golpe, eu soube que isso ocorreu, que estava abatido. Voltou inseguro, o que é uma pena), Grando é goleiro pra ficar 10 anos no time, permitindo que nos ocupemos da necessidade de reforçar meio-campo e ataque. Tenham paciência. Se não tiverem, ele seguirá os passos de Cássio, Prass, Leo Jardim e tantos outros, porque goleiro é a única posição onde não é possível deslocar o jogador pra aproveitá-lo em outro setor. É titular ou reserva, joga ou não joga, preto ou branco, 8 ou 80. E aqui entra outra característica da mídia esportiva e das torcidas: como forjam “queridos” e “malditos”! Alguns jogadores precisam de pouco pra serem endeusados (vejam o goleiro colorado Rochet, que veio amparado pela efusividade incompreensível da mídia e, mesmo sendo um rematado batedor de roupas de braços curtos no Nacional, substituiu o excelente John, melhor jogador colorado da ocasião, salvador reiterado do time), e outros, por muito que façam em campo, sempre são demonizados.
Mas fico aqui, porque a conversa pode ir longe e se tornar ainda mais polêmica.
Contexto
O Grêmio, entre 1975 e 1977, passou por uma mudança de fotografia que traduz a busca de soluções e uma mudança desruptiva operada pelo mítico Telê Santana. Veja:
1975: Picasso, Vilson, Ancheta, Beto Fuscão e Bolívar; Cacau, Iúra e Neca; Zequinha, Tarciso e Nenê.
1976: Cejas; Eurico, Ancheta, Beto Fuscão e Bolívar; Vitor Hugo (que veio no meio do ano, e por isso a foto da coluna tem o Jerônimo), Neca e Alexandre Tubarão; Zequinha, Alcino e Ortiz.
1977 (o time da minha vida): Corbo; Eurico, Ancheta, Oberdan e Ladinho; Vitor Hugo, Tadeu e Iúra; Tarciso, André e Éder.
Percebam como o Telê soube, com muita prudência, racionalizar e valorizar o que havia de bom, com reforços pontuais, a maioria deles sem maiores solenidades, e, sabiamente, operou a formatação de um time que ensinou a este colunista, na transição dos 12 pros 13 anos, o doce sabor da vitória. Por mais que tenha tido mero alcance regional, esse é o meu eterno time.
Outro assunto
Não posso abordar futebol sem citar a classificação agônica do Inter pra permanecer na Série A do Brasileiro em 2026. Sei que ambos os lados temos motivos pra secar o adversário e não vou aqui contestar uma prática mais que centenária, apesar de que o primeiro Grenal foi de uma fidalguia hoje inimaginável. São muitas arrogâncias, depreciações e desrespeitos acumulados desde então numa rivalidade tóxica demais pro meu gosto e temperamento. Sei como isso me incomoda especialmente, porque escrevi livros que mexem com imaginários tão frágeis quanto sensíveis, e isso tem um custo! Tem caras que usam assuntos sérios pra justificar sua paixão, o que me parece uma demonstração de insegurança. Precisam disso?! Mas, enfim, tiremos essa parte.
Como sabemos, o fanatismo cega. Então sejamos racionais e enxerguemos longe: sempre que um dos nossos clubes é rebaixado, os efeitos são ruins também pro adversário da aldeia, essa é a verdade. A única qualidade que vejo nessa nossa rivalidade doentia é que um, em tese, puxa o outro pra cima. Pense no desserviço que será se a rivalidade passar a fazer um puxar o outro pra baixo. É o fim da várzea! Sei que a paixão desdenha desses raciocínios, mas o não rebaixamento colorado, queiramos ou não os gremistas, é importante contra a mediocrização do nosso futebol. Não podemos trocar o trunfo do número de Libertadores conquistadas pelo número de rebaixamentos. Se entrarmos nesse submundo, normalizaremos a decadência. Sejamos, sobretudo, sadios!
Se os argentinos soubessem como os acompanho com atenção apaixonada desde que morei e fui muito feliz em Buenos Aires no fim do século passado, me concederiam algum tipo de título honorífico. Tipo embaixador cultural. Jeje! Es una broma, hermano. Mas o fato é que tudo eu ligo à Argentina, que coisa séria. E vejo o futebol gaúcho como a versão brasileira de Avellaneda, com o Racing azul (e fundado em 1903, mira vos) e o Independiente vermelho. Somos os grandes fora do centro (Capital Federal na Argentina e Sudeste no Brasil). Se normalizarmos esse troço de Série B, deixaremos de ter a grandeza que tanto nos custou num país que valoriza Rio e São Paulo sem valorizar o seu entorno em diversos aspectos. Ao menos no futebol, evitemos a decadência.
E quem sabe um dia cheguemos lá, nisso de sermos sadios. Por amor à sinceridade e ojeriza à hipocrisia, confesso que também não estou isento dessa necessidade evolutiva. Sou suscetível à provocação alheia arrogante, depreciativa e falaciosa, e eventualmente retroalimento o ciclo, sempre de forma reativa -mas, mesmo que reativas, frases soltas indiscriminadamente atingem quem deve e quem não deveria ser atingido. Tenho, muito eventualmente (é raro, ressalvo a meu favor), os meus próprios pecados nessa selva. Assim como sofro muito, o outro também sofre. Como me sinto agredido, ele idem. E sou radicalmente básico em alguns valores: o sentimento é real (como sei disso…), e definitivamente não curto tripudiar a dor alheia, não gosto que amigo sinta dor. Empatia é a chave, sempre.
Enfim, todos temos, em alguma medida, um médico e um monstro dentro de nós.
Sempre vou preferir e alimentar muito mais o médico.
Mas aí já estamos entrando em assunto que poderia ser outra coluna. E é amplo, até porque a rivalidade insana é alimentada a pão de fel, ela dá lucro. Um bom assunto, aliás.
…
Shabat shalom!
Todos os textos de Léo Gerchmann AQUI
Foto: Reprodução (poster da revista Placar)

