Vejo sinais de um mundo doente que ainda está por nos entregar o seu pior. São sinais brasileiros e mundiais. Não há dúvida de que o mundo está enfermo.
E não há dúvida de que uma tempestade se arma logo ali adiante.
(uma ressalva antes de continuar o texto: a foto que ilustra esta coluna é do jovem e talentoso músico argentino Mateo Sujatovich, o Conociendo Rusia, que é justamente o antídoto a esse prognóstico sombrio do título, pelas belas artes. Eu quis usar essa imagem porque me tornei ardoroso fã e porque tem muitos significados ele estar empunhando a sua guitarra de acordes criativos vindos da genética, cantando com a voz de veludo que Deus lhe deu e usando a camiseta do Atlanta de Villa Crespo com todos os seus simbolismos identitários. Mas você saberá quem é o querido Mateo num intertítulo logo ali embaixo, tenha paciência. Ah, usei a linda imagem dele, captada de um vídeo do próprio, também porque não quero aborrecer o nosso fim de semana, pelo contrário)
No Brasil, considero a condenação de Jair Bolsonaro merecidíssima pelas monstruosidades que estão dentro e fora dos autos, mas creio que qualquer pessoa consciente e lúcida sorriu com alguma intranquilidade, produto do desconforto e da desconfiança diante do suposto desfecho. Por que Tarcísio de Freitas continuou na pantomima de pedir anistia, quando eleitoralmente ele ganha muito com a saída de cena do chefe? Não é só pra agradar as bases. Me parece nítido que ele sabe o que intuo. A prisão de Bolsonaro será muito menos duradoura que o previsto, seja porque haverá anistia em algum momento, seja por outro motivo, eleitoral ou não. O STF foi um defensor da democracia, mas até onde resiste?
Nos Estados Unidos, o discurso da extrema-direita é acompanhado pela presença militar no Mar do Caribe sem pudores, pela expulsão de imigrantes e, literalmente por outro lado, pelo monstruoso assassinato do influencer de extrema-direita, sujeito do qual discordo veementemente em praticamente tudo o que dizia, mas em relação a quem não consegui ficar indiferente diante da morte chocante na frente da filhinha.
É um mundo muito cruel e de pouco valor à vida, sem diálogo e com baixíssima empatia. Sou um social-democrata que transita em diferentes bolhas e sente o olhar frio, às vezes raivoso, de pessoas que lacram o diferente. A intolerância é notória. Tanto na direita quanto na esquerda, o dogmatismo e o sectarismo são de um fervor que beira à violência e à eliminação do outro (foi o caso nos EUA).
Antes, o dogmatismo era um defeito típico da esquerda sectária, com seus posicionamentos e teimosias, da rejeição à Constituição que hoje festeja ao apoio a terroristas e aiatolás, passando pela defesa transloucada da derrubata do Muro da Mauá (a recente cheia histórica nos mostrou a falta de lucidez dessa turma). Desde que saiu do armário, em particular no Brasil, a direita também se tornou dogmática (antigamente, a “direita” no Brasil era o PSDB do FHC e do Covas, caras que sempre foram de centro-esquerda. Ouvi uma ver a interessante teoria de que a direita ultraliberal não tinha vez num país tão desigual, ficando o enfrentamento político entre esquerda e centro. Mas, por algum motivo, isso mudou).
Na Argentina, o presidente Javier Milei sofreu revés eleitoral acachapante em constrangedora derrota do La Libertad Avanza (seu partido) pro parlamento da província de Buenos Aires (38% da população do país), que ele jurou pintar de roxo (a cor do seu partido), depois admitiu que as pesquisas indicavam empate técnico (ali eu já estranhei…) e, na hora da verdade, viu-se que o povo quer comer, quer saúde, quer educação e não está afim de fazer um sacrifício que jamais deveria ser seu. Não bastasse isso, Milei teve dias de seguidas derrubadas de vetos que tentou estabelecer a leis de cunho social.
E aí entra o comportamento posterior. Logo após a divulgação dos resultados das eleições bonairenses, o presidente “libertário” chegou a reconhecer que precisaria mudar o rumo, mas bastaram alguns telefonemas, sabe-se lá com quem, pra retomar a empáfia e sair por aí arrotando que vai manter a mesma “motosserra” e a mesma austeridade que tira do Estado o dever de estender a mão aos necessitados. Por que continua sustentando isso, com o apoio do FMI, mesmo sabendo do custo eleitoral mais que evidente? Talvez porque saiba que não precisa se preocupar com essas “pelotudeces” de eleições.
Ai, ai, a democracia me parece definhar.
Nem vou citar a Venezuela do inqualificável ditador cínico Nicolás Maduro, que a cada pronunciamento parece debochar de todo mundo, em especial dos algo como 25% dos venezuelanos que tiveram que fugir (uns 8 milhões, e alguns deles encontramos a cada esquina em Porto Alegre, ou seja, é um fato certificável e cruel). Mas vou citar os sedizentes esquerdistas, “humanistas” (sic) e “progressistas” (sic) que empunham a bandeira do Hamas e defendem aiatolás obscurantistas. A contradição é tão grave e intensa, que me canso de explicar. Só digo que não consegui ficar eufórico com a condenação do Bolsonaro porque me recuso a sorrir ao lado desses monstros e, diga-se, eu acho que eles também deveriam estar sendo julgados e severamente punidos.
E por aí vamos. Em Israel, o Netanyahu continua a guerra pouco se importando com os apelos diários de judeus israelenses e da diáspora (eu incluído aqui) para que ele se detenha, porque há muito tempo cruzou o fio do admissível, mesmo que saibamos da necessidade de defender a integridade essencial de Israel e ainda que tenhamos clara a obrigatoriedade vital de reagir ao inadmissível e monstruoso 7 de Outubro, mostrando que ele não pode se repetir. Em mais uma frase horrorosa, o presidente Lula pediu algo muito sem noção: que os judeus brasileiros têm que pressionar o Netanyahu. As críticas a mais essa peça antissemita de um tabuleiro hostil já foram diversas e fortes, merecidamente. Tomara que Lula seja só um cara mal assessorado.
E a democracia definha a cada gesto que desdenha do apelo popular e do voto.
E esses gestos têm sido assustadoramente frequentes.
A importante decisão do STF sobre o Bolsonaro me agrada, mas não me alivia.
Pra mim está claro que algo muito grosso vem aí. Que não nos chegue…
Conociendo Rusia (Mateo Sujatovich)
Pra aliviar a alma com arte, aqui vai uma dica: Conociendo Rusia.
Esse nome estranho é o alter ego de Mateo Sujatovich, músico desde que nasceu, como ele próprio diz. Mateo é filho de Leo Sujatovich, legendário tecladista de Luis Spinetta e neto da professora de piano de Charly García, a “Pichona”. Eu o tenho ouvido muito, faz meses, e teria até dificuldade de recomendar uma ou outra música (“Quiero que me llames”, “Te le voy a decir”, “Esto es amor”, “Magia blanca”, “Puede ser”, “Loco en el desierto”, “Cinco horas menos”, “El Redondel” etc, tudo uma delícia de se ouvir), porque ele transita do soul ao rock, passando pela disco, em parcerias lindas com gente como Fito Paez.
O curioso codinome “Conociendo Rusia” vem do sobrenome Sujatovich, judaico.
No início do século passado, quando muitos dos socialistas e anarquistas argentinos eram judeus e inclusive houve um pogrom em 1919 no Once (a “Semana Trágica”), os judeus eram chamados de “russos”, numa nem um pouco disfarçada maneira de vinculá-los à revolução socialista de 1917.
Aliás, Mateo, de apenas 34 anos, compôs uma linda música em homenagem às vítimas do atentado à AMIA (Associação Mutual Israelita Argentina), “No se borra”.
Comecei este texto falando da minha visão sombria sobre o futuro que nem me parece que esteja muito distante (tomara que eu esteja errado) e termino sugerindo a leveza de uma música linda, que envolve, acarinha e aconchega. E é disso que precisamos.
Não tenho a menor dúvida de que só a arte nos salva. E por isso, pra salvar o fim de semana diante de coluna tão sombria sobre o futuro da humanidade, decidi ilustrar este texto com uma foto do Mateo tocando a sua inseparável guitarra e vestindo a camiseta do nosso Atlanta, de Villa Crespo.
Clarice
Escrevi um texto sobre o Edifício Aymoré, de Capão da Canoa, tempos atrás e contei que o meu primeiro beijo foi numa morena com gosto de hortelã, voltando do baile da SACC. E foi! Aí a Clarice Chwartzmann, minha amiguinha desde as fraldas na nossa maravilhosa turma do prédio (convivíamos três meses ininterruptos no verão, brincávamos, fazíamos traquinagens, descobríamos os segredos da vida e crescíamos juntos) me mandou uma mensagem dizendo aos risos que estava com ciúme diante da revelação. Eu respondi “como assim?! Que cara de pau! Eu era louco por ti!”. E rimos. E era! Paixão de criança mesmo, tipo 10 anos, no máximo. A mais pura e genuína, e a primeira. Eu sonhava com a Clarice. Achava ela linda e amava aquele jeito de moleca que tinha, com as feições suaves, o riso aberto, o cabelo castanho e a pele curtida do sol. Curiosamente tínhamos as monaretas idênticas até na cor e éramos bons nas corridas de bici em volta do prédio, que ocupa resistentemente um quarteirão à beira-mar. A Clarice, a Lilian, a Flávia, a Lu e os tios Mariazinha e Nahum (que desgraçadamente também se foram muito cedo) moravam no térreo, com janela voltada pro Bassani. Que bom que eu disse isso pra ela. O Leozinho criança agradece por essa declaração casual, extemporânea e ainda possível de ter sido feita em vida. E aqui eu a repito, dizendo que esse tipo de amor se cristaliza como uma foto PB na beira da praia e é eterno. Vai com Deus, querida Clarice!
…
Um beijo e shabat shalom!
Todos os textos de Léo Gerchmann aqui.
Foto: reprodução

