Nem nos meus sonhos imaginaria cantar um dia de uma janela do Ocidente. O coral Viva la Vida, do qual faço parte, vai ocupar as aberturas do lendário bar da Capital nesta segunda, dia 1º de dezembro, às 20h. A apresentação será de um repertório de músicas feitas por gaúchos e que fazem parte da memória afetiva de quem mora em Porto Alegre. Dessa vez, cantaremos em uníssono para que o público possa entoar as músicas conosco. A função abre uma densa programação da Semana do Bom Fim, que hoje está no calendário oficial de Porto Alegre.
Para quem frequentou e viveu as várias fases do Oci, que completa 45 anos neste 2025, será um evento altamente simbólico. O espaço passou muitos perrengues devido ao barulho, à junção e à movimentação e mobilizou a vizinhança tempos idos. Hoje as janelas estão hiperfechadas (lembro bem quando eram as originais, com os vidros quadriculados, no estilo colonial). Um isolamento acústico poderoso foi instalado para evitar ruídos para fora. Ou seja, as janelas abertas na segunda significam o quanto a energia, o som, os ecos daquele lugar (sagrado para muitos) extravasarão os limites daquela esquina que já foi um point da juventude no século passado.
A iniciativa da agitadora cultural, ex-vereadora Polaca Rocha, tem uma série de atividades gratuitas. Ela explica que a proposta tem o objetivo de fomentar o debate sobre os rumos do bairro, visando à sua valorização. O Bom Fim é privilegiado devido a vários atributos, entre eles, por ser um local de resistência cultural, estar colado às instalações da UFRGS, dispor de um dos parques mais icônicos da cidade e concentrar uma grande população de porto-alegrenses. Teria muito mais coisas, é claro, mas destaco essas.
A saber, o projeto que cria a semana do bairro foi da autoria da própria Polaca, que agora se empenha para que a data engaje cada vez mais gente. Esta é a segunda edição do evento. O Bom Fim e o próprio Ocidente fazem parte da sua trajetória, especialmente no tempo em que a esquina da João Telles com a Osvaldo Aranha pulsava novidades e agitos de várias tribos.
Tudo está sendo pensado e proposto com muita dedicação, no peito e na raça. Sem patrocínios polpudos, sem apoios oficiais do poder público. Polaca, que mora há 40 anos no bairro, revela que o Ocidente tem um significado especial na sua vida. Aliás, não só dela, como de muita gente que dançou e ainda sacoleja o corpitcho nas pistas da casa ou que almoça o prato feito vegetariano.
Nunca morei no Bom Fim, sou do Menino Deus, que ando desde o tempo que morava em Cachoeira. A família da minha mãe no tempo de solteira também habitava nessa zona. Um dos endereços da família foi a rua Beck, uma das travessas da Getúlio Vargas. Sinto falta do que rolava nos tempos em que trabalhei para o jornal Oi! Menino Deus, na década de 90. Parece que, naquele final de século, os bairros eram mais valorizados, havia mais gente andando na rua e se fomentava mais o pertencimento ao pedaço da cidade em que se morava. Às vezes almoço no Ocidente, caminho seguido pelo Bom Fim, e tenho ótimas lembranças do que já vivi por ali.
Ter iniciativas que amplifiquem as características do bairro é algo fantástico por várias razões. Esse é um dos motivos para enaltecer e participar da programação. Realmente, espero que o público valorize e prestigie as atividades. Na terça, haverá sessões de cinema na Sala Redenção com filmes sobre o bairro e uma visita guiada ao Museu do Observatório Astronômico da UFRGS para conferir o céu durante a noite. Na quarta, dia 3, será realizada uma homenagem ao Mercado do Bom Fim (a saber, o que está lá não é o original, que foi destruído e construído outro semelhante). Já na quinta, haverá um debate no Clube de Cultura, às 19h, sobre “Que Bom Fim queremos”, em que serão abordados temas como o plano diretor da capital, a situação da arborização urbana, a situação da Redenção e também a campanha sobre o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência Contra a Mulher, celebrado no dia 6 de dezembro. Na sexta, dia 5, terá um festival de Storytelling sobre o Bom Fim, em que as melhores contações de histórias que aconteceram no bairro escolhidas pelo público serão premiadas. O agito será no Café Cantante (Fernandes Vieira, 615), às 19h. No sábado, terá o Femini Fest no bar Olho Mágico (Cauduro, 35), com roda de conversa sobre Mulheres e cidades: pensar espaços públicos a partir do olhar das mulheres, às 20h.
A programação encerra no domingo, dia 7, com evento às 10h na Capela Nosso Senhor do Bom Fim. Pesquisadores vão abordar a relevância da comunidade negra para o bairro. A saber, a própria capela foi construída por negros. E o nome Redenção vem dos escravos alforriados. O Padre Lírio vai tocar gaita e artistas participantes do projeto Urban Sketchers Porto Alegre (@uskpoa) vão se desenhar a capela que dá nome ao bairro.
A seguir, a programação completa, com os nomes dos envolvidos: clique aqui.
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Foto da Capa: Polaca Rocha / Assoc. Chico Lisboa / Divulgação

