
Paul Auster, o prosador, referia-se ao surgimento de algumas reminiscências, a certa altura da vida. Jean-Paul Sartre, o filósofo, não falava propriamente de reminiscências, mas do que chamou de malogro, como a sensação do que se deixou de fazer e, tal qual a reminiscência de Auster, só poderia vir com o tempo.
O poeta Manuel Bandeira entrou no assunto, em um de seus versos mais conhecidos, “a vida que poderia ter sido e não foi”. Ele partia de uma vivência pessoal, apontada para a doença de que sofreu desde jovem, privando-o de certas aventuras que, segundo a sua fantasia – ou realidade – deixou de ter.
O fato é que todos vaticinaram algo que experimento, desde que me tornei 50 mais e vem se aprofundando, depois dos 60. Experimento de fato – ou de sonho – mais reminiscências, costumo pensar no malogro e na vida que poderia ter sido e não foi. Não chega a haver um ressentimento ou arrependimento maior, longe disso. Tem dias que me sinto assustadoramente realizado, o que me gera uma vivência de morte, felizmente passageira e fulminada pelo pensamento (e o sentimento) de que há muito a fazer, em meio ao pouco que pude.
Mas é algo que encontra uma frase que está em uma novela de meu grande amigo Antônio Carlos Resende, de quem tenho uma saudade enorme. Resende era daquelas raras pessoas com quem eu me sentia plenamente bem só de estar na presença dele, antes que viesse a conversa inspiradora, cheia de coisas para contar e ouvir, enquanto bebíamos cerveja ou uísque. Resende adorava cerveja e uísque. Eu, não, mas bebia quando estava com ele, não porque desejasse (muitas vezes eu tomava suco de uva), mas para estar um pouco mais em sintonia com a soltura dele.
A frase consta em uma novela do Resende e é “eu não dei ainda a grande porrada”, uma espécie de metáfora que, fora da boca da personagem, significava para mim “eu ainda não vivi tão profundamente como gostaria, premido por um certo medo desenvolvido por alguma falta de coragem que me teria feito burocratizar o que faço, o que sinto, o que vivo.”
Nos dias de maiores reminiscências, quando a sensação de malogro está imensa e Bandeira buzina em meus ouvidos a vida que poderia ter sido e não foi, eu chego a preparar uma mala sem muita coisa dentro e esboçar uma passagem sem volta para Katmandu. Ninguém aqui em casa fica sabendo, a não ser o cachorro que, na frente do elevador, me lança um olhar ambíguo, entre a tristeza e o “eu duvido”.
Então, agarro firme a mala quase vazia, desço os doze andares, e o final acaba sendo sempre o mesmo. Sem passar do portão principal, dou meia-volta, retorno pianinho para casa e, fazendo um carinho no cachorro feliz com o meu retorno, retomo a imaginação. Ela é a única que conhece a minha grande porrada.
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