
A formulação de Winnicott sobre a capacidade de estar só é, à primeira vista, paradoxal: trata-se de uma experiência que só pode ser constituída na presença de um outro. Estar só, nesse sentido, não é isolamento, mas a possibilidade de sustentar uma continuidade do ser sem a necessidade de estímulos externos constantes. É uma solidão habitada, sustentada pela internalização da confiabilidade do ambiente.
Já em Klein, o sentimento de solidão assume outra tonalidade. Ele remete a uma experiência mais primitiva, ligada à posição depressiva, na qual o sujeito se confronta com a separação, a perda e a impossibilidade de retorno a um estado de unidade com o objeto. A solidão, aqui, não é ausência de outros, mas a percepção dolorosa de que o outro nunca será plenamente coincidente com o eu – há sempre uma distância irredutível.
O ponto de encontro entre esses dois autores não está na equivalência dos conceitos, mas na tensão entre eles.
A capacidade de estar só, em Winnicott, depende da possibilidade de atravessar – e não evitar – aquilo que, em Klein, aparece como o sentimento de solidão. Ou seja: só pode estar só quem não precisa fugir da experiência de separação, de falta e de incompletude. Trata-se de uma conquista psíquica que implica tolerar a ausência sem recorrer imediatamente a defesas.
Se pensarmos a lógica das redes sociais, vemos a produção de uma condição quase inversa: uma presença contínua, uma disponibilidade permanente de imagens, vozes e respostas. Não há intervalo, não há hiato, não há tempo morto. A experiência de ausência – condição para a simbolização e para a constituição da interioridade – é sistematicamente evitada.
Nesse sentido, a exibição constante pode ser compreendida não apenas como fenômeno cultural ou econômico, mas como uma organização defensiva.
Não se trata apenas de mostrar-se, mas de não deixar de ser visto.
A distinção é sutil, mas decisiva.
Mostrar-se pode implicar desejo, comunicação e expressão. Já a impossibilidade de não se mostrar aponta para uma dependência da presença do outro como garantia de existência psíquica. O sujeito não apenas compartilha – ele se sustenta na visibilidade. É como se ele nunca tivesse tido a possibilidade de ficar só ou de se constituir como um sujeito possível disso – a exibição constante de si denota uma ausência de si mesmo.
A capacidade de estar só é um atributo refinado do sujeito, que sugere segurança interna. Não se confunde com a solidão, pois pode ser exercida também na presença de outras pessoas.
Parece-me que essa habilidade vem sendo progressivamente dirimida pela onipresença das presenças que as redes sociais produzem. Hoje, não é incomum uma enxurrada de posts, marcada por uma exibição vazia e por uma comunicação que, estruturalmente, pouco comunica.
Em outro momento, discorri sobre como o aprisionamento da atenção gera o mais-valor digital, que acaba por operar em favor do aumento da dominação capitalista e de suas formas alienantes. Também argumentei que a exibição funciona como um mecanismo de intensificação da divisão de classes, ao ampliar a sensação de fracasso, produzida pela comparação e pelo princípio de desempenho – este último constituindo, conforme Marcuse, o princípio de realidade da sociedade capitalista.
Embora vivamos um momento de retomada das discussões marxistas, observa-se, paradoxalmente, uma diminuição da crítica. Em grande parte, essas narrativas tendem à ingenuidade. O capitalismo possui uma capacidade de cooptação de movimentos emancipatórios: ele absorve inclusive as críticas que lhe são dirigidas e as transforma em mercadoria.
Um livro crítico que se torna best-seller e gera lucro; uma obra de arte contestadora exibida em shopping centers; movimentos hippies e de contracultura convertidos em produto; um estilo de vida transformado em estética consumível. Ainda que carreguem um potencial crítico, esses elementos acabam operando em favor do próprio sistema, na medida em que geram lucro e circulam em espaços regidos pela lógica capitalista.
Mas como essas ideias se articulam com o início deste texto e o fragmento narrativo da série supracitada? O que constitui essa lógica de exibição em conjunto com a dificuldade de estar só?
Ela é, em grande medida, a própria essência das redes sociais: a ampliação exponencial do acesso à vida dos outros e da exposição da própria vida. Trata-se de uma onipresença de si mesmo e da necessidade de aprovação e validação que esse ego fragilizado carrega, produzida por cada post compartilhado – muitas vezes sem intencionalidade, apenas como reprodução de uma lógica enlatada e acrítica.
As redes sociais, evidentemente, abrigam conteúdos relevantes. No entanto, em sua maioria, o que se observa é a repetição, ou seja, conteúdos sem a marca da personalidade daqueles que os criam. Eles não expõem originalidade, mas sim semelhança. O termo “instagramável” confina e faz com que as pessoas produzam conteúdo de uma forma uniforme: não se deseja pensar diferente, nem fazer diferente. Produz-se, assim, uma ampla gama de conteúdos semelhantes, marcados por uma pseudoindividuação – conceito de Adorno que designa o caráter ilusório do novo nos produtos da indústria cultural. Sendo assim, não se trata apenas da padronização dos produtos culturais, mas da própria padronização das formas de subjetivação. A singularidade é simulada, enquanto a estrutura que organiza o sujeito permanece homogênea: necessidade de exposição, de reconhecimento imediato e de circulação constante.
A vida psíquica passa a operar sob a lógica da produtividade: é preciso produzir presença, produzir imagem, produzir engajamento. Até mesmo o sofrimento é capturado e transformado em conteúdo.
O que se perde, nesse processo, não é apenas a crítica, mas algo mais fundamental: a possibilidade de um espaço interno não imediatamente colonizado pela demanda externa.
Retomando Winnicott, poderíamos dizer que a capacidade de estar só exige um certo grau de “não fazer”, de suspensão, de improdutividade. Trata-se de um tempo que não responde diretamente à lógica do desempenho. Já a dinâmica das redes sociais tende a abolir esse espaço, substituindo-o por uma atividade incessante.
Se, em Klein, a solidão remete à experiência inevitável da separação, na contemporaneidade parece haver um esforço contínuo de negar essa condição. Contudo, essa negação não elimina a solidão – ela apenas a desloca. O sujeito permanece só, mas sem poder reconhecer, elaborar ou simbolizar essa solidão.
Daí a intensidade paradoxal da experiência contemporânea: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão incapazes de sustentar a experiência de estar só, de ficarmos sozinhos de mãos dadas, ou da construção dessa lembrança que remete à internalização de bons objetos, mas sim, de uma negação dessa capacidade pela intensidade da exibição de si próprio.
A sociedade contemporânea, marcada pela onipresença das redes sociais, parece operar em sentido contrário. A exibição constante não apenas intensifica a lógica capitalista de produção e captura da atenção, mas também organiza uma defesa contra a experiência de solidão. Ao promover uma presença contínua, elimina-se o intervalo necessário à constituição de um espaço interno.
Não se trata, portanto, de uma superação da solidão, mas de sua recusa. E é justamente essa recusa que compromete a capacidade de estar só. O sujeito, constantemente convocado a se mostrar, perde a possibilidade de sustentar-se na ausência do olhar do outro, tornando-se dependente de uma visibilidade que promete vínculo, mas que, estruturalmente, impede sua realização.
Assim, a onipresença das presenças não dissolve a solidão, mas a torna inabitável. E, ao fazê-lo, fragiliza uma das conquistas mais refinadas do desenvolvimento emocional: a possibilidade de estar só, de mãos dadas consigo mesmo, e, sobretudo, na presença do outro.
Ralf Diego Silva de Souza é psicólogo, psicoterapeuta e docente no ensino superior. Participou do Programa de Mestrado em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e possui especialização em Psicologia Hospitalar. Sua produção intelectual e interesses de pesquisa concentram-se no campo da Psicanálise, com ênfase nas contribuições de Melanie Klein e Wilfred Bion, do Marxismo, da Teoria Crítica e da tradição da Escola de Frankfurt.
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