
Seu Antônio era agricultor e tinha uma pequena propriedade na encosta da serra. Dessa propriedade tirava o sustento da família. Da roça tirava o milho, o feijão, a batata-doce, o jerimum e a melancia. Às vezes plantava até arroz. Tinha também gado, bodes e galinhas. Algumas vacas eram leiteiras. Do leite que tirava, parte Dona Marialba fazia queijo e parte era para o consumo da família. O queijo, ele vendia aos sábados na feira e, com o dinheiro, comprava o que faltava em casa.
Seu Antônio, vez por outra, era acometido por crises de lumbago, principalmente quando forçava demais na roça, com a enxada, mas logo ficava bom. Foi numa quadra chuvosa, quando estava roçando e tirando o mato da roça, que, de tanto se abaixar, teve um travamento nas costas. Aquilo, para ele, era o fim do mundo. Parava de trabalhar, deixava tudo por fazer, chegava a ficar deprimido. Largou a enxada no chão e voltou para casa, curvado, caminhando com dificuldade, bem devagar.
Ao chegar na porta da cozinha, Dona Marialba, ao ver o marido curvado, foi dizendo:
— O que houve, Antônio? Outra crise?
— Foi a peste do mato tomando conta da roça! Eu, de tanto me abaixar, magoei a coluna!
— Vá se deitar que já levo um comprimido.
Seu Antônio deitou-se, gemia mais pelas consequências de ter que ficar parado do que pela dor. A tal da dor “psicológica”. Passou um dia, depois dois; já ia no quarto dia e, apesar dos cuidados de Dona Marialba, Seu Antônio continuava com dificuldade para levantar-se e não conseguia andar direito. Não só não voltara mais à roça como também não tirava o leite das vacas, coisa que fazia todas as manhãs. Só se angustiava.
No quinto dia, decidiu levantar-se de qualquer jeito e foi para o curral ordenhar as vacas. Entrou no curral, andando curvado, com um banquinho numa mão e a vasilha do leite na outra, ajudado por Dona Marialba. Foi na direção de Mimosa. Vaquinha mansa e boa de leite, mas Mimosa não quis conversa. Não deixou que ele se aproximasse. Tentou uma, duas, três vezes e nada.
— Danou-se! O que é que deu nessa vaca!
Seu Antônio quis se afobar, mas Dona Marialba puxou ele para dentro de casa.
Entrando em casa, Seu Antônio sentou-se na cadeira, tirou o chapéu e suspirou Ficou matutando. Nos dias que se seguiram, a dor lombar cedeu, Seu Antônio voltou a andar direito e a vida retornou ao normal.
Passados quinze dias, Seu Antônio recebeu a visita do compadre Manezinho.
Começaram a conversar e Seu Antônio contou da crise de lumbago e do sofrimento que passara, inclusive do estranhamento da Mimosa.
— Sabe, compadre, os animais também têm percepção de gente. Mimosa não me deixou tirar o leite enquanto não voltasse a ficar em pé direito. Eu estava andando todo curvado e não conseguia levantar bem o rosto. Daí aprendi que os bichos conhecem a gente é pelas feições.
José Gerardo Araújo Paiva nasceu em Fortaleza em 1960, filho de mãe paraibana e pai cearense. Médico, formou-se na Faculdade de Medicina do Ceará, concluiu o curso em 1984.
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