
Passei a maior parte de minha infância, minha juventude e parte de minha vida adulta sob uma ditadura militar e sei o que isso significa em termos institucionais e até familiares! No entanto, ela tinha um objetivo “modernizante”: uma modernização autoritária, “prussiana” e elitista que, para colocar o Brasil entre as dez nações mais desenvolvidas (“milagre econômico”), tinha que destruir as instituições democráticas. Mas parece que teremos que examinar de outra maneira o que está nos acontecendo neste momento, especialmente com o perfil de nossos representantes nas câmaras altas: elegeram-se, com expressiva votação, terraplanistas, neopentecostais, ecocidas, fanáticos dos costumes conservadores, negadores da ciência, do direito, destruidores da universidade, antivacinas, perseguidores de grupos identitários, defensores do conceito bélico de “pátria”, do conceito antimoderno de “família”… Estamos assistindo à vitória da homofobia, do sexismo, do “escola sem partido”, da aversão aos pobres e às políticas de ação afirmativa. Ou seja: o Brasil é um país avesso às conquistas da modernidade! Trata-se, no interior de uma ordem democrática (a principal conquista política da modernidade), de destruir a própria modernidade e recuar para o que nós esperávamos já ter superado historicamente.
Mas imaginar que a antimodernidade é uma posição da direita reacionária é um erro: quero lembrar que os neo-nietzscheanos de esquerda, antiautoritários saídos dos “eventos de 68” (Paris), também são responsáveis pela desmoralização da modernidade: pensar que sua crítica da razão, da ciência, do universalismo, das filosofias da história, do sujeito de consciência, da metafísica… não passaria sem custos se mostrou uma perigosíssima ilusão! Em “La revanche de Dieu”, Gilles Keppel já tinha nos advertido: a vitória da cidade secular pagaria seu preço à ordem tradicional — ela ressurgiria. Esse preço chama-se “Demofobia”!
A emergência, no interior da ordem democrática, de grupos de representação étnica, sexual, comportamental, cultural, afetiva… desestabilizou a tradição política que imaginou um “cidadão” como consciência racional, educado para a palavra crítica, distinguindo interesse privado de público e oferecendo a legitimidade do poder; o relativismo e o particularismo terminam por colocar em cheque a própria noção de universalidade de direitos (vejam que o presidente Boric propôs ordens jurídicas diferentes para o “estado multicultural” chileno!). e a ideia de que “somos todos iguais” nunca foi aceita na sociedade patriarcal e protoescravista brasileira.
No “berço esplêndido” da Nação, dormia um monstro: ele foi despertado! Como não podemos matá-lo (ele é como a Hydra de Lerna), precisamos readormecê-lo.