
Como podemos ler o contexto em que estamos metidas? Ou melhor, o que cada uma de nós tem a ver com o resultado das eleições até o momento? Se uns soltam foguetes, há muita gente abalada com o avanço da extrema direita. Mesmo que boa parte das pessoas não tenha noção do que isso significa, todo mundo está enredado nessa teia cosmopolita e todos estão sendo afetados. Esse sistema, no qual estamos inseridos, vem produzindo impactos de toda ordem.
Não sou cientista política, tão pouco analista com quilometragem rodada. Mas, confesso, que quando temos o hábito de ler pensadores, teóricos, expandimos horizontes. Algo que cultivei no mestrado, conhecendo outras vozes que ajudam a traduzir esse mundo complexo da sociedade do risco, conforme Ulrich Beck batizou.
Vi muita gente abalada, chamando os eleitores de burros, de gado, de ingratos. Afinal, tantos que foram beneficiados com os programas de governo, como o próprio SUS, não se dão conta dos avanços sociais dos últimos anos. Confesso que, no meio de tantas incertezas, o que mais me preocupa é o contexto socioambiental.
Se antes o Congresso já contava com representantes contra a natureza, no ano que vem, a situação é ainda pior. Nem o Rodrigo Agostinho (PSB/SP), que foi presidente da Frente Parlamentar Ambientalista e presidente do Ibama por três anos, foi reeleito. Segundo o levantamento do Observatório do Clima, sete em cada dez parlamentares eleitos para o Congresso Nacional atuam contra a proteção ambiental. A bancada do meu estado é quase toda defensora do que há de mais devastador das conquistas conservacionistas. Mesmo o Rio Grande do Sul sendo um grande afetado pelos eventos climáticos extremos.
Com o aumento da frequência de situações climáticas preocupantes, é óbvio que a angústia e a ansiedade estão batendo na porta. Por isso, acredito que precisamos saber onde estamos inseridas. O negócio é bem mais complexo do que simplesmente achar que as pessoas não sabem votar.
Estamos muito próximos do ponto de não retorno, quando o próprio sistema terrestre avisa que a mudança de um ecossistema, de um ambiente, está em profunda transformação, que não tem mais volta. E estamos exatamente no momento decisivo: ou paramos de destruir, ou o futuro será mais quente e com mais desastres, pandemias, entre outras transformações, alertam os cientistas.
Com Trump e o avanço da extrema direita que não se importa com o lucro a qualquer custo, são mais gases de efeito estufa na atmosfera, mais guerras proliferando, situações inacreditáveis com interesses escusos nos bastidores (corrupção, manipulação etc.). Aliás, há um pavor rodando na Europa pela possibilidade de se ter uma terceira guerra mundial agravada pela Rússia. Ou seja, esses donos do poder, que têm poucos anos de vida pela frente, estão fomentando estragos que deixarão marcas por gerações.
Tudo isso faz parte do chamado Capitaloceno, por autores como Andreas Malm, que desenvolveu uma crítica à ideia de Antropoceno, argumentando que atribuir as transformações climáticas à humanidade de maneira genérica, com o sufixo “anthropos”, pode ocultar as diferenças históricas entre grupos sociais, sistemas econômicos e relações de poder. Para Malm, não foi a humanidade que produziu a atual crise climática, mas sobretudo o avanço do capitalismo, utilizando cada vez mais combustíveis fósseis como base da industrialização (plásticos, resinas, gasolina, tecidos etc.).
Inconsciente colonizado
Ouvi esses dias o quanto o nosso inconsciente está colonizado. Essa colocação é uma crítica ao capitalismo contemporâneo, especialmente em Realismo Capitalista (2009), de Mark Fisher. A ideia de Fisher é evidenciar o quanto o sistema em que estamos inseridos ocupa não apenas as instituições e a economia, mas também nossa imaginação, nossos desejos, expectativas e percepção do que é possível.
Isso significa que determinadas ideias e valores do sistema social passam a operar dentro de nós sem que percebamos sua origem. Cito alguns exemplos: o motorista de aplicativo que se acha empreendedor; o dono do bar, que trabalha de segunda a segunda e que entende como um acinte o fim da escala 6X1; o microempresário que está na luta para pagar os cinco, seis funcionários no final do mês; o sujeito que vende bugigangas da China que faz circular dinheiro vivo; a faxineira que gasta mais de duas horas para ir e duas horas para voltar do trabalho. Enfim, aquelas pessoas que trabalham, fazem bico para engrossar a renda e estão se lixando para o aquecimento global ou para a situação da Amazônia. Afinal, eles se preocupam é em como pagar os boletos todo santo mês.
A maioria não está por dentro de questões de aposentadoria, direitos ou benefícios. O que ganha não dá para pagar o INSS. Mas sobrevive graças ao atendimento do SUS. Chama o SAMU na hora da emergência. Para sujeitos de inconsciente colonizado, na visão de Fisher, a luta diária, a competição é algo natural; encaram o sucesso como se fosse sua própria responsabilidade; não conseguem imaginar que há alternativa fora do modelo econômico existente; os problemas sociais são questões individuais a serem resolvidas; e acreditam que esse modus operandi é o vale e pensar algo diferente é algo impossível ou utópico.
Uma das formulações mais conhecidas associadas a Fisher é a máxima: “É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.” Para o autor, o capitalismo contemporâneo adquiriu uma força cultural tão grande que passou a determinar os limites do imaginável. Conseguimos pensar em catástrofes climáticas, guerras, colapsos sociais ou mesmo a extinção humana, mas temos dificuldade em vislumbrar uma sociedade organizada de maneira diferente.
Portanto, o resultado das eleições é reflexo de visões que extrapolam o nosso modo de encarar a vida. Abarca também questões culturais, psicológicas e políticas. Significa uma condição na qual o capitalismo formatado no individualismo aparece como a única realidade possível. E a colonização ocorre quando essa lógica deixa de ser percebida como uma ideologia externa e passa a funcionar dentro da própria subjetividade.
O cruel é que nós podemos não perceber que o sofrimento também está relacionado a condições estruturais, como a precarização do trabalho, desigualdade, falta de oportunidades, a deterioração dos serviços públicos. Eu mesma, confesso, já me peguei pensando assim. Fisher utiliza a questão da saúde mental para mostrar essa relação. Ele questiona a tendência de interpretar determinados sofrimentos exclusivamente como problemas individuais ou biológicos. Por exemplo: “Estou exausto porque há algo errado comigo.” Para Fisher, é preciso se perguntar: “Que tipo de sociedade produz sistematicamente pessoas exaustas?”
Portanto, queridas leitoras e leitores, os meios de comunicação, as redes sociais, o mercado, enfim, tudo que faz funcionar os mecanismos capitalistas, consideram que não há outra saída para se viver se não for para alimentar esse sistema. E aí, entra o quanto a comunicação digital, a disputa de narrativas e a colonização do imaginário estão interligadas.
Em síntese, com a dificuldade de interpretação e a instalação de bolhas de convivência, em que as pessoas são alimentadas com informações de fontes doutrinárias, a colonização é cada vez mais enraizada. Ainda mais quando determinadas narrativas são repetidas continuamente. Isso faz parte de um projeto maior (mas isso é papo para outro texto).
Por isso, queridos e queridas, apelo para que reflitam sobre a mensagem que recebi de um cartão do Intervozes: é preciso organizar a raiva e defender a alegria. Vamos fazer o que está ao nosso alcance, mas sabendo que estamos num emaranhado de teias e redes em que a solidariedade e a humildade podem ser decisivas para tocar o coração e romper os preceitos do inconsciente.
Todos os textos de Sílvia Marcuzzo estão AQUI.
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