
Tenho pensado muito sobre a frase “O seu silêncio não vai te proteger”, da escritora e feminista Audre Lorde, e me perguntado por que algumas pessoas acreditam que não se manifestar politicamente é uma posição aceitável e ética. E quando falo em se manifestar, não falo em ter a obrigatoriedade de revelar os seus votos. O voto, no Brasil, é secreto, e tampouco é ter de aderir a uma campanha eleitoral, mas falo, em alguma dimensão, ter, sim, de se posicionar sobre temas cruciais para a qualidade de vida e dignidade de qualquer habitante deste país, não deixando para trás os que vivem em circunstâncias sociais diferentes e necessitam mais de políticas públicas.
Cerca de 160 milhões de brasileiros, por exemplo, dependem exclusivamente do SUS para qualquer assistência médica, o que equivale a aproximadamente 76% da população. Gente que, de modo geral, não tem como arcar com o custo mensal de um plano de saúde ou com um atendimento médico particular mesmo em uma situação de emergência. Mais ou menos 2,8 bilhões de atendimentos são feitos por ano no SUS. Já imaginou o que teria acontecido com essas pessoas se ele não existisse? Quantas teriam sobrevivido com sequelas e quantas teriam morrido?
“Ah, mas eu tenho plano de saúde”, as pessoas de natureza mais egocêntrica e egoísta podem pensar. “Ah, mas eu não tenho nada a ver com a falta de recursos alheios e me posicionar na política pode prejudicar a minha vida profissional”, um conhecido disse, olhando-me nos olhos. Tem. É aqui que a coisa pega. Ele, eu, nós todos fazemos parte de um todo social do mesmo modo que fazemos de uma espécie orgânica, a mais inteligente a pisar no planeta até agora, e, sendo inteligentes, intriga-me como alguém pode acreditar que sua vida é mais importante e valiosa e colocar os seus interesses individuais acima dos coletivos. E intriga-me, mais do que tudo, como alguém pode não sentir e lamentar pelas privações, dores e dramas de outro ser humano? Que tipo de adultos são esses? Você confia em gente assim?
Eu não. Desconfio de quem usa o silêncio com o propósito de se salvaguardar de algum tipo de responsabilidade e de consequências. Desconfio de quem, diante do infortúnio alheio, de injustiças, de preconceitos, de opressões etc. não faz nada, lavando as mãos feito Lady Macbeth depois de todo o sangue derramado. Desconfio da sinceridade, da lealdade e até da afetividade de quem sobe no muro, esconde-se, se finge de morto. De alguma forma, essas pessoas não existem mesmo.