
Quando emergiu a ideia de CIDADANIA na Europa do século XVIII, a questão das identidades coletivas heterogêneas ficou fora do olhar dos pensadores políticos. O humanismo iluminista valorizava o que os homens tinham “em comum”, e se imaginava que a aplicação de princípios genéricos (universais) resolveria as desigualdades particulares. Lembro que o conceito de CIDADANIA é unicamente Ocidental!
Assim, o Humanismo moderno, elegendo o europeu branco como ponto mais alto do progresso humano (Condorcet, por exemplo, pensa assim no seu “Quadro dos progressos do espírito humano”), via os outros povos não apenas como “inferiores” do ponto de vista civilizacional, político, racional, social e cultural, mas que era tarefa do Ocidente a “missão civilizatória”, que podia compreender ações diversas: a catequese cristã, o genocídio justificado (a nossa Guerra Justa), a escravidão e a… educação! O grande escritor mexicano Octavio Paz dizia que a Modernidade não começou com Descartes, com Newton ou com Voltaire: ela começou com Cortéz e o massacre dos Astecas! E a filósofa Susan Neiman dizia que a Modernidade está situada entre dois grandes males: um mal natural (o terremoto de Lisboa, quando se duvidou da imensa bondade de Deus, castigando seus mais carolas devotos, os portugueses) e um mal moral (Auschwitz, com seu projeto de eliminar o que havia de “humano” no Outro).
Mas a própria Democracia não cumpriu o que prometeu: as desigualdades sociais e econômicas, as hierarquias de classe, de gênero, de etnia, de cultura não foram equalizadas e reduziu a democracia ao simples direito ao voto e escolher “representantes”, o que, para os gregos, era uma “desonra”: assim como ninguém pode sentir por mim, ou pensar por mim, não deveria falar por mim!
Mas aí veio 1968! Estava aberta uma época de revolução, não política ou social, mas dos costumes e dos direitos antes exclusivos de certos segmentos: o feminismo, as pedagogias dialogais, o movimento negro americano, o machismo e o patriarcalismo, e a aparição de uma vanguarda “pop” com hábitos, linguagens, vestimentas e modos de vida antes inimagináveis, inclusive na ética sexual. O grafite que melhor expressa essa sensibilidade foi escrito nos muros da Sorbonne: “É proibido proibir!”. Ali se situava uma fronteira moral: saía a ética imperativa e categórica do Kantismo e entrava uma ética hedonista do prazer e do gozo, não apenas genital, mas aquela em que a repressão da cultura apontada por Freud no Mal Estar na Civilização seria contestada por uma dessublimação não repressiva! Era a própria noção de cultura ocidental que estava em cheque e, com ela, todas as nossas instituições, da família à política, da escola à religião, da música à literatura (basta lembrar o clássico On the Road,de Jack Kerouak).
Não faltava muito para que os movimentos chamados de “identitários” viessem ao proscênio da vida cultural e política. É aqui onde o Universalismo da modernidade se confronta com o “particularismo” das reivindicações identitárias.
Para que essa operação de desmonte do ideal universalista/iluminista pudesse funcionar, foi preciso elaborar uma contracultura pós-colonial com seus pressupostos, que esboçarei rapidamente:
a) O Homem (com maiúscula) é uma invenção francesa; existem homens em sua diversidade cultural;
b) Uma “epistemologia” colonial não elimina ou anula o colonizado: se instala nele, que passa a se ver pelos olhos do colonizador (Fanon);
c) O colonizador essencializa características biológicas e fenotípicas (o índio é preguiçoso, o negro não é capaz de abstração, a mulher é mais emoção do que razão…). O caso da “mulher” inferiorizada mostra que o projeto colonial também atinge segmentos colonizadores, brancos e europeus. Na França, país dos direitos humanos, as mulheres só votaram em 1936!
d) O colonizador pratica um “epistemicídio”: anula ou invalida as formas de conhecer e de dar sentido aos outros saberes não europeus.
e) A cultura colonial visa reduzir o OUTRO ao MESMO.
Aqui, no interior de uma contracultura pós-colonial, a própria democracia passa a ser vista como não dotada da UNIVERSALIDADE cidadã que prometia: existem os cidadãos de segunda e de terceira classe, destituídos de direitos civis e políticos. Mas é preciso ter cuidado com aquilo que supomos nos libertar ou libertar grupos invisibilizados. Não preciso lembrar que boa parte de nossas crenças utópicas e libertárias terminaram em totalitarismos e exclusões!
Os chamados movimentos identitários tratam de um mecanismo de interpelação subjetiva: convoca Você a se tornar SUJEITO (como direito, reivindicação histórica ou diferencialismo). Tudo sob a custódia da autonomia do pensar, do avaliar, do agir e fazer isso no interior de um corpus conceitual que te oferece os valores com os quais SE AVALIAR. E qualquer pessoa que estiver “fora” desse corpus não dispõe do “lugar de fala” que autoriza o falante e lhe oferece “autoridade”: só negros falam de negros, só trans falam de trans, só povos originários podem falar de si…
Receio, finalmente, que possamos estar diante de um impasse político e cultural com o avanço da fragmentação identitária: fim dos movimentos sociais e das políticas de classe, pulverização da democracia, particularização conteudística das pedagogias e guetificação social. Os sinais estão à nossa vista!