
Quando eu era menina, adorava desenhar mapas! Havia alguma coisa fascinante nessa atividade que era escolar, mas também artística, de habilidades manuais. Adorava aquelas linhas que separavam países, continentes e oceanos. Eu colocava uma folha de papel manteiga sobre o mapa e copiava cuidadosamente seus contornos. Seguia as curvas da América do Sul, da África, tentava reproduzir os recortes da Europa e os desenhos quase impossíveis das costas e fronteiras.
Hoje, penso naquela menina negra, desenhando o mundo com todo o cuidado de quem acreditava estar copiando a realidade. Mas eu não estava copiando a realidade. Estava reproduzindo uma maneira de olhar para ela. E, talvez, essa seja a primeira coisa que achei importante compreender diante da recente discussão sobre a necessidade de rever os mapas utilizados para representar o mundo.
No dia 4 de setembro de 2026, a Assembleia Geral da ONU aprovou a resolução Correct the Map, liderada pelo Togo e impulsionada pela União Africana. A proposta recebeu 164 votos favoráveis, seis abstenções e apenas um voto contrário. A resolução incentiva governos, escolas, instituições e plataformas tecnológicas a abandonarem, progressivamente, a projeção de Mercator quando o objetivo for representar proporcionalmente o tamanho dos territórios.
Você sabe o que é a projeção de Mercator? Trata-se de uma projeção cartográfica desenvolvida por Gerhard Mercator, no ano de 1569. É uma projeção do tipo cilíndrica, conforme caracterizada pela conservação das formas dos territórios e a distorção de seus tamanhos, principalmente daqueles países situados mais distantes da Linha do Equador. Portanto, a projeção de Mercator nos ensinou uma determinada proporção do planeta. E proporções importam, pois organizam nossa percepção e educam nossos olhos. Produzem imaginação.
Durante toda a minha infância, olhei para aquele mapa-múndi e não tive condições críticas de perceber que havia algo estranho naquela distribuição. A Europa parecia grande. A América do Norte parecia enorme. A Groenlândia ocupava um espaço impressionante! E a África, embora estivesse ali, imensa aos meus olhos de menina, ainda era muito menor do que realmente é. A África não ficou maior agora. A África sempre teve o tamanho que tem. Menor, durante séculos, foi a imagem construída sobre ela. Eu não sabia. Ninguém me disse. O mapa estava ali como uma verdade.
A projeção de Mercator foi criada no século XVI para atender a uma necessidade específica da navegação marítima. Não nasceu como um projeto pedagógico para ensinar crianças a enxergarem o planeta. Mas uma coisa é criar uma técnica para orientar navegadores. Outra é transformar essa técnica na imagem mais disseminada do mundo.
Durante séculos, aprendemos a olhar para um mundo em que determinadas regiões apareciam visualmente ampliadas e outras, diminuídas. Quando a notícia de retificar os mapas correu, a primeira pergunta que me fiz foi: o que acontece quando gerações inteiras aprendem as proporções do mundo por meio de uma imagem desproporcional? Porque tamanho também produz significado. Então, aquilo que ocupa mais espaço diante dos nossos olhos parece maior, mais importante e mais poderoso. Consequentemente, o que aparece reduzido pode ser percebido como distante, periférico, secundário.
Não estou dizendo que um mapa criou o colonialismo. Seria uma simplificação confortável demais. O colonialismo é uma máquina histórica muito maior e muito mais violenta, mas o que podemos concluir é que os mapas também participaram dessa máquina. A colonização não ocupou apenas terras, ocupou os modos de representar a Terra. Organizou os critérios por meio dos quais o mundo passou a compreender o que era riqueza, desenvolvimento, civilização e atraso. E é aqui que a discussão sobre Mercator deixa de ser apenas uma curiosidade cartográfica, porque a África foi diminuída no mapa, mas não apenas no mapa.
A África também foi diminuída na História, que frequentemente diz que se iniciou quando a Europa chegou naquele continente. Foi diminuída na Geografia, quando determinadas regiões foram apresentadas como centros naturais do mundo e outras, como periferias. Foi reprimida na Geopolítica, que dividiu o planeta entre desenvolvidos e subdesenvolvidos, como se essas condições fossem resultado de uma corrida em que todos tivessem partido do mesmo lugar. Foi distorcida pelas Ciências Sociais quando estas, tantas vezes, transformaram povos africanos e não europeus em objetos de observação, enquanto reservavam à Europa o lugar de sujeito que pensa, interpreta e produz teoria.
Talvez por isso a recente iniciativa de rever as representações cartográficas seja tão importante. E não porque um novo mapa resolverá o racismo — não resolverá. Não porque devolver uma proporção correta à África devolverá automaticamente aquilo que lhe foi roubado — não devolverá. Mas porque talvez, pela primeira vez, estejamos diante de uma admissão pública de algo muito profundo: a maneira como vemos o mundo também pode produzir injustiça. E se a maneira como vemos pode produzir injustiça, então aquilo que chamamos de conhecimento precisa voltar a ser interrogado.
Ora, se precisamos corrigir o mapa porque ele produziu uma visão desigual do planeta, o que isso nos diz sobre tantas outras representações que continuam organizando nossa sociedade?
Possivelmente seja esse o aspecto mais interessante da proposta defendida agora no âmbito das Nações Unidas: a tentativa de construir uma visão mais justa do mundo por meio da revisão de suas imagens.
Mas eu gostaria de levar essa ideia um pouco mais longe.
Durante séculos, a África foi apresentada como pequena demais para a nossa imaginação e grande demais para o nosso reconhecimento. Digo grande demais nas narrativas sobre fome, pobreza e guerra. De um continente sem filosofia, de povos sem História.
A África não precisa crescer. Ela já é imensa. Nós é que fomos educados para enxergá-la a partir de uma medida menor. Acho que é por isso que eu volto àquela menina com seu papel manteiga. Ela acreditava que estava copiando o mundo. Mas estava copiando um desenho do mundo, uma forma de vê-lo, e me fazendo vê-lo por esta forma.
Isso muda tudo, porque se o mundo que aprendemos a enxergar foi desenhado, então ele também pode ser redesenhado. Não apenas nos Atlas, mas nos currículos das escolas e das universidades. Nas imagens que circulam diariamente diante dos nossos olhos. E, quem sabe, dentro de nós mesmos.
Hoje, penso naquela menina negra desenhando continentes e tenho vontade de colocar outra folha sobre o mapa, não para copiar, mas desta vez, para perguntar:
Quais são os mapas que continuam, ainda hoje, ensinando-nos a aceitar como natural um mundo tão desigual?
Nina Fola, mãe de Aretha e Malyck, é multiartista, socióloga, atuante nos coletivos @afroentes, @coletivoatinuke e @odaba.br. Aborda a questão de raça e gênero em todos os seus trabalhos acadêmicos, artísticos e profissionais. Gestora do @cavalodeideias, uma consultoria em diversidade e inclusão onde faz palestras e formações. (@ninafola)