
As eleições se aproximam, cercadas de notícias e comentários desanimadores. O panorama visto por vários ângulos é desolador. Escândalos, STF em litígio, interferências de todo lado, ameaças, campanhas medíocres, cidades tomadas por cartazes que só poluem. Dinheiro jogado fora! Definitivamente, a ética está sendo ignorada de todas as formas. E sabemos que muitos dos que aí estão fazendo suas campanhas não sabem o que significa a palavra ética. Só querem o poder a qualquer custo e estão dispostos a fazer qualquer coisa para destruir a nossa dignidade. Dias complicados! Mas não vamos abrir mão da nossa democracia e da nossa liberdade. Diante deste quadro nada promissor, que ativa o medo, o otimismo vai encolhendo. E, para não perdermos a esperança, o jeito é esticar o olhar para além dos nossos umbigos, botões, janelas, ruas, esquinas, cidades em busca de horizontes limpos e cheios de luz. Organizar o delírio. Dar um trato na ansiedade. Buscar o equilíbrio razoável entre o caos e uma possível ordem que faça sentido para encarar quem quer destruir a soberania do Brasil.
E lá vem a arte mais uma vez para me socorrer nesta luta pela autonomia de um país cercado de ameaças internas e externas, de políticos corruptos que se colocam como salvadores da pátria, mas o que querem é entregar o Brasil para poderes estrangeiros e destruir a nossa dignidade. Entreguistas que não se importam com a nossa história, nossa memória, nossas raízes culturais, nossa autonomia. Políticos que já se venderam por muito dinheiro, que já debocharam das mortes por Covid em 2020 – “É só uma gripezinha”. “Não sou coveiro” – e continuam sem escrúpulos, envolvidos em negócios absurdos, mas disfarçados de boa gente.
Diante de tanto descaso, impossível não voltar ao escritor mineiro Murilo Mendes, nascido em 1901, que resumiu com a sabedoria e a simplicidade da poesia momentos lamentáveis do cotidiano político do Brasil.
Linhas Paralelas
Um presidente resolve
Construir uma boa escola
Numa vila bem distante.
Mas ninguém vai nessa escola:
Não tem estradas pra lá.
Depois ele resolveu
Construir uma estrada boa
Numa outra vila do Estado.
Ninguém se muda pra lá.
Porque lá não tem escola.
Esses singelos versos definem muito bem o que aí está. A política turbulenta de adversários corruptos que jamais se preocuparam com as reais necessidades do povo, que não se importam com a saúde, a educação, a segurança e a miséria escancarada em cada esquina. Candidatos que já debocharam da população e hoje se colocam como defensores do povo. É muito cinismo! Por isso, a importância de acompanhar as campanhas, por mais cansativas que sejam. É nosso direito e dever saber das verbas disponíveis, saber como são usadas, conhecer projetos e acompanhar as ações dos candidatos, especialmente no que diz respeito à educação, à saúde, à segurança, à acessibilidade, à inclusão, à reutilização dos espaços e dos prédios públicos. Não podemos permitir demolições que apagam a história e negam a preservação da memória. Precisamos de uma urbanização sustentável, que não contamine e destrua o meio ambiente.
“Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, escreveu Fernando Pessoa, um dos mais importantes escritores/poetas de Portugal. Mas a política da extrema direita praticada no Brasil não tem alma. É mais predatória do que civilizadora. Mais escusa do que ética. Mais econômica do que social. Mais burocrática do que libertária. Mais individual do que coletiva. Não olha para o povo e suas necessidades. Simplesmente acomoda os seus escolhidos e financiadores no poder para não perder privilégios. E ponto! Lá em 1968, o pintor e escultor carioca Hélio Oiticica, em carta para a também pintora e escultora mineira Lygia Clark, já percebia isso: “Quando há real inovação, a sabotagem sempre impera”.
Hora do voto
O momento é delicado e o jogo é cruel e egoísta. Estamos mesmo interessados em investigar as ações ou omissões que provocaram o uso indevido do dinheiro público e de financiadores de candidatos já denunciados? Não podemos deixar que oportunistas sem caráter destruam o que já conquistamos. Não podemos cair na superficialidade da mesquinha política eleitoreira que está em toda parte. Essa é a hora de ratificar e manter a política contemporânea do Brasil hoje, feita com honestidade para o bem comum, que trabalha pela nossa soberania. Uma política que não tem medo do pensamento crítico, do aprendizado múltiplo, da diversidade, da história, da cultura, da arte, da liberdade, da criatividade. Uma política que não tira nossos direitos legítimos!