
Em uma campanha eleitoral, quase tudo vira slogan ou promessa. Quase todos os candidatos prometem prevenir os danos causados pela chuva que derruba pontes, pela estiagem que seca represas e pela destruição das matas que ajudam a conter o solo e regular a água. Poucos explicam como farão isso.
A natureza não segue ideologias. A água mata a sede sem perguntar em quem a pessoa votou; o calor não escolhe a região onde será mais implacável; e o solo que perde fertilidade não consulta a preferência política de quem vive da colheita. Apesar disso, no Brasil — e no mundo —, o debate sobre florestas, clima, petróleo e saneamento passou a ser condicionado por vieses ideológicos. Tratar esses problemas como marcas de identidade política, em vez de desafios que atingem a todos, é um erro grave.
Isso não significa que saúde, emprego, segurança e inflação devam perder espaço na campanha. Ao contrário: a pauta ambiental atravessa todas essas questões. Ela influencia o preço dos alimentos e da energia, amplia ou reduz os prejuízos causados pelas enchentes e afeta o abastecimento das cidades. Na eleição de 2026, os candidatos precisam mostrar como suas propostas abordam essas interconexões.
O desmatamento reduziu – mas o petróleo avança
O governo atual tem resultados ambientais concretos para apresentar. Segundo o PRODES, do INPE, a taxa estimada de desmatamento em 2025 foi de 5.796 km² na Amazônia e de 7.235 km² no Cerrado, quedas de cerca de 11% nos dois biomas em relação ao ano anterior. Entre agosto de 2025 e julho de 2026, os alertas do DETER também recuaram: 2.874 km² na Amazônia e 5.119 km² no Cerrado. Os sistemas têm funções diferentes. O PRODES consolida o mapeamento anual; o DETER emite alertas para orientar a fiscalização. Ainda assim, os dois mostram redução significativa.
No entanto, ainda há muito a proteger. Há vários estados, incluindo Mato Grosso, Tocantins, Maranhão e Piauí, onde a derrubada da vegetação nativa continua extensa. Reduzi-la tem efeito sobre a água, a agricultura, o risco de desastres e a imagem do país. O Tribunal de Contas da União já registrou em diversos relatórios que a perda de capacidade de fiscalização e as falhas de coordenação acompanham os aumentos do desmatamento.
Há outra face do atual governo que é muito menos confortável. No Plano de Negócios 2025–2029, a Petrobras prevê US$ 77,3 bilhões para exploração e produção de óleo e gás, incluindo US$ 7,9 bilhões especificamente para exploração. Para iniciativas de transição energética, prevê US$ 16,3 bilhões, principalmente em investimentos em plantas de biocombustíveis já instaladas. Em outubro de 2025, a empresa recebeu licença para perfurar um poço exploratório em águas profundas do Amapá. A autorização não permite a produção e, até agora, não se comprovou a existência de petróleo comercialmente aproveitável na área. Mas a expectativa da Petrobras e do governo não é apenas encontrar novas reservas, e sim produzir em quantidades expressivas. Esse é um ponto, inclusive, em que governo e oposição estão em total acordo.
O Ministério de Minas e Energia sustenta que óleo e gás continuarão estratégicos por razões de segurança energética, arrecadação e demanda de setores difíceis de descarbonizar. Esse debate é legítimo: o país precisa garantir energia durante a transição e, provavelmente, dos lucros do petróleo por algum tempo. Mas também precisa decidir quanto investirá em novas fronteiras petrolíferas que só irão produzir daqui a décadas, quais estratégias servirão para seu aproveitamento e que parcela dos recursos será destinada a reduzir nossa dependência em combustíveis fósseis. A transição leva tempo e exige investimentos. A velocidade com que ocorrerá também é uma decisão política.
Saneamento para o clima?
A oposição também tem que se posicionar claramente quanto a essas questões. Em sabatina da TV Globo, Flávio Bolsonaro afirmou que “a melhor forma que nós temos de proteger o meio ambiente é oferecer um saneamento básico para a população”. A afirmação destaca uma necessidade real, mas não responde sozinha ao conjunto dos desafios ambientais. O saneamento protege rios, reduz doenças e limita a contaminação que torna mais precária a vida urbana e rural. A desigualdade de acesso mostra a urgência do problema. Em 2023, 93,4% dos domicílios urbanos tinham acesso à água tratada, contra apenas 32,3% dos rurais; o acesso à rede de esgoto ou à fossa ligada à rede alcançava 78% dos domicílios urbanos e apenas 9,6% dos rurais. Universalizar esses serviços é indispensável.
A pergunta da entrevista, entretanto, era sobre mitigação climática. O saneamento é importante, e o país ainda o deve a milhões de brasileiros, mas não substitui a redução de emissões, a proteção das florestas, o planejamento de cidades expostas a enchentes e ao calor, nem a adaptação das lavouras a chuvas cada vez mais irregulares. A resposta, portanto, desconsiderou o tema central da pergunta.
Na mesma entrevista, o candidato se negou a associar diretamente o aquecimento atual à ação humana e disse acreditar que ele faz parte de ciclos naturais de calor, chuva e seca. Há ciclos climáticos, evidentemente. Mas a ciência não está diante de duas hipóteses equivalentes: o IPCC concluiu de maneira inequívoca que as atividades humanas, sobretudo por meio das emissões de gases de efeito estufa, causam o aquecimento global. É possível divergir sobre a maneira mais apropriada de direcionar impostos, regulação e financiamento. Não é possível, porém, formular uma política eficaz fingindo que a causa principal ainda é uma incógnita.
O que tem ficado fora dos palanques
O governo anterior ao atual deixou um legado lamentável. O TCU registrou que a taxa de desmatamento na Amazônia Legal alcançou 13.038 km² em 2021, 73% acima da de 2018, e apontou problemas de governança, coordenação e fiscalização nas políticas de controle. Isso não obriga ninguém a votar de determinada maneira. Obriga apenas quem quer governar a explicar o que fará de diferente diante de números tão trágicos. E, pelo que vimos até agora, nada será diferente.
Também seria impreciso dizer que todos os candidatos ignoram a pauta ambiental. Não existe levantamento nacional comparável que catalogue programas e discursos de cada aspirante a governador, senador ou deputado. Há candidatos, organizações e movimentos tratando de clima, energia, água e conservação. Mas a atenção é desigual onde deveria ser mais nítida. O Observatório do Clima examinou 28 itens em oito eixos nos programas de seis presidenciáveis. Encontrou propostas ambientais mais detalhadas no plano de Lula e lacunas relevantes em todos os demais. É uma avaliação de uma rede da sociedade civil, não um veredito oficial. Seus critérios e métodos, porém, estão públicos. Basta conferir.
Há também um desencontro entre as propostas dos candidatos e o que os eleitores dizem esperar. Em pesquisa online da Ipsos, encomendada pelo mesmo Observatório e realizada com 1.800 adultos em agosto, 91% consideraram importante que candidatos apresentem planos para enfrentar a mudança climática; 62% disseram que isso é muito importante. Clima ainda perde para segurança, economia e serviços públicos quando os brasileiros listam suas maiores preocupações. Talvez porque raramente lhes seja mostrado como estas questões estão interligadas.
A pergunta que interessa
A natureza segue leis físicas, ciclos biológicos e limites planetários que continuam operando quando termina a propaganda eleitoral. Por isso, seus efeitos não se ajustam às preferências políticas dos governantes: uma seca prolongada não se torna menos danosa porque o governador prefere menos Estado, nem uma encosta deixa de colapsar após uma chuva extrema porque o prefeito prometeu mais crescimento. Do mesmo modo, uma plataforma não se converte em instrumento de transição energética apenas porque reduziu as emissões de suas operações, enquanto continua a produzir diariamente milhares de barris de petróleo.
A pergunta útil não é qual campo político tem o monopólio da virtude ambiental.
A pergunta é outra: o que cada candidatura pretende fazer, com metas, recursos e prazo, para reduzir a destruição das florestas, universalizar saneamento, proteger cidades de enchentes e calor, preparar a agricultura e conduzir a mudança energética? Quem tiver respostas boas deve ser ouvido. Quem não tiver deveria ser ignorado.
Nestas eleições, para seu próprio bem, escolha candidatos de fato compromissados com a preservação ambiental.