
Em sua obra clássica, “Os intelectuais”, Johnson (1988) dedica um capítulo para tratar de Sartre. Analisa de forma lúcida e crítica a trajetória do parisiense sem paixão ou piedade. Dos conflitos à incompreensão, da busca de reconhecimento, da conturbada relação com Simone de Beauvoir à ministração de famosas conferências, o autor faz percorrer os caminhos da vida de Jean-Paul até galgar a estatura de “monstro sagrado” (Un monstre sacré). O filósofo é apresentado por Xavana Celesnah (Casa do Saber, s/d) como alguém que brindou o seu tempo com “uma reflexão radical sobre a liberdade humana, a angústia existencial e a responsabilidade individual em um mundo considerado sem um sentido pré-determinado”.
Na obra “Qu’est-ce que la littérature?” (1947), o parisiense menciona que “seja como for, a escrita é uma certa forma de querer a liberdade; se vocês começaram, queiram-no ou não, vocês estão engajados.” No mesmo livro, esclarece: “Se um escritor escolheu o silêncio ou a sabotagem, isso ainda é uma escolha. Na guerra, cada palavra tem repercussão, e cada silêncio também”. Ainda que o próprio Sartre tenha se autoboicotado em posicionamentos e opções equivocadas, sabia que “O homem faz a história na mesma medida em que a história o faz.” (Critique de la raison dialectique, 1960) e tentou fazê-la com e apesar de suas contradições.
Convencido do protagonismo humano, refere-se a que “…os homens fazem a sua história sobre a base de condições reais anteriores […] mas são eles que a fazem e não as condições anteriores: caso contrário, eles seriam os simples veículos de forças inumanas que regeriam, por meio deles, o mundo social” (Sartre, 1973:156). Aqui está o cerne do existencialismo sartreano e a sua visão sobre a liberdade humana e a história, propondo um equilíbrio dialético entre o determinismo social e a ação humana, posicionando o homem como o verdadeiro sujeito de sua própria jornada.
Na conferência “Em Defesa dos Intelectuais” (1965), o existencialista definiu o intelectual como aquele que contesta verdades estabelecidas, agindo fora de sua especialidade técnica para propor uma visão global da sociedade. Diferencia o “técnico do saber prático” do intelectual engajado, focando na consciência da contradição entre servir ao particular e ao universal. Compreende que o verdadeiro intelectual é uma figura solitária que assume uma postura ética de denúncia; é um especialista em sua área (seja ela física, literatura ou filosofia) que, em determinado momento, decide usar sua voz e sua projeção pública para intervir em questões políticas e sociais.
Em Sartre, o saber também nasce da experiência. Deste modo, toda filosofia é prática. A filosofia é uma forma de ação no mundo isenta de apriorismos, de tal maneira que sua formulação já é tomada de posição diante do mundo, pois a ação do intelectual visa a oferecer ferramentas de transformação e emancipação. Postula, em “O Existencialismo é um Humanismo” (1946), que “O homem nada mais é do que o seu projeto; só existe na medida em que se realiza; não é nada além do conjunto de seus atos, nada mais do que a sua vida.” Assim, “O escritor engajado sabe que a palavra é ação: ele sabe que desvendar é mudar e que não se pode desvendar senão tencionando mudar.” (“Qu’est-ce que la littérature?” (1947). Sua militância política está caracterizada por uma postura radical de crítica ao imperialismo, defesa dos oprimidos e uma relação complexa com o marxismo.
É um autor amplamente reconhecido como uma das figuras mais polarizadoras do século XX, despertando tanto admiração fervorosa quanto críticas severas devido às suas posturas filosóficas e engajamento político. Contudo, mesmo reconhecendo-o como controverso e algumas vezes contraditório, assumo que ele me provoca a pensar as tarefas do intelectual em pleno século XXI, sobretudo na proximidade eleitoral que nos abraça neste setembro de 2026. Logo mais, estaremos a fazer escolhas imprescindíveis para o presente e o futuro de nosso Brasil. Esta é a minha declarada intenção. Não vou, não quero e não tenho competência para escrever um artigo sobre o francês. Trago-o tão somente como porta de entrada para a discussão presente.
No mundo digital, o conceito de intelectual alargou-se para inserir aquelas pessoas que criticam e disseminam conhecimento no espaço público, não obstante a avalanche de inverdades disseminada. Desse modo, não nos referimos de maneira exclusiva ao acadêmico clássico que escreve ensaios complexos; falamos de outros modos de inteligência — e das desinteligências — ao serviço da produção de opinião pública. Pierre Lévy, em entrevista cedida a Sandra Álvaro, publicada em 2019, afirmou que: “A questão é: como usaremos as novas tecnologias de forma significativa para aumentar a inteligência humana coletiva?”
Essa transição da atuação intelectual para o ecossistema mediático e digital também é central nas análises estruturais da pós-modernidade. Zygmunt Bauman, em “Legisladores e Intérpretes” (2010), conceitua que o intelectual contemporâneo deixou de agir como um legislador intérprete com a tarefa de mediar a comunicação e traduzir sentidos em uma realidade caótica, incerta e fragmentada; posição acompanhada por Byung-Chul Han (2022), para quem a dinâmica das plataformas digitais e do algoritmo reduziu o pensamento crítico a mero “conteúdo” fragmentado, em que o barulho incessante da informação rápida destrói a contemplação, o silêncio e o tempo necessários para que o intelectual possa exercer uma verdadeira resistência e transformação social.
Retomando a discussão sobre o intelectual, iniciada desde a mirada no filósofo francês Jean-Paul Sartre, deveremos informar que o classificamos como tal, retomando a tradição que remonta ao século XIX, conforme definição de Georges Clemenceau, que entendeu ser intelectual aquele que mantém o gosto e o desfruto do prazer literário, da arte e da ciência (Pinto, 2024). Todavia, um novo posicionamento de quem será esse sujeito e quais são as suas urgentes tarefas precisa levar em conta o cenário mundial. Não se trata de um futurismo ou do intento de propor magicamente quem ocupará esse lugar de intelectual. Trata-se de desenhar um cenário possível.
Em textos como “Corpos em Aliança e as Políticas das Ruas” (2018), Judith Butler propõe que os intelectuais devem ceder espaço às populações marginalizadas para desestabilizar normas opressivas. Djamila Ribeiro (2017) reflete que o intelectual brasileiro precisa romper com o modelo eurocêntrico e masculino, inserindo vozes historicamente silenciadas no centro do debate público. Por isso, me permito incluir no hall de intelectuais, agentes sociais que atuam nas bases gerando reflexão crítica, artistas de rua e poetas populares que fazem do cotidiano objeto de sua arte. Movimentos sociais coletivos que atuam focados em temas como: emergência climática, combate ao racismo e à violência contra as minorias, ao feminicídio, à transfobia, ao déficit habitacional etc., estão a inaugurar uma nova pedagogia social.
Poderíamos citar, como exemplos: CLOC, CUFA, MST, UAC. O surgimento de novos atores, organizados em ONGs, no terceiro setor e em associações, são exemplos de intelectuais que emergem na luta social e na formação de novas consciências. Não viso a sustentar que toda pessoa que produz opinião é intelectual. Quero firmar que o intelectual contemporâneo não se conceitua apenas pela posse especializada do conhecimento, mas pela capacidade de transformá-lo em reflexão pública, devendo estabelecer mediações críticas e assumir responsabilidade pelos efeitos sociais de sua intervenção. Dessa forma, não se define na produção da opinião pública. O que o distingue do produtor de opiniões é o método, o rigor analítico e a independência crítica. Em uma sociedade saturada de informações, o intelectual busca decifrar a complexidade estrutural dos fenômenos, enquanto o agente de opinião pública tende a simplificá-los para consumo imediato.
Pode ser importante estabelecer critérios objetivos para sugerir um perfil do intelectual hoje. Destaco alguns: capacidade de produzir/intermediar conhecimento; intervenção no espaço público; elaboração crítica da realidade; responsabilidade diante dos efeitos de seu discurso; capacidade de questionar consensos e produção de mediações entre conhecimento e sociedade.
Levando em conta que pessoas não são abstrações existentes nos ares, proponho um breve cenário de contextos nos quais estamos vivendo, visando a melhor problematizar minha tese.
Rasquilha (2024) identifica 18 megatendências que, conforme diz, movimentarão o mundo nos próximos dez anos. Ele as apresenta agrupadas em seis tópicos (tecnologia e conectividade, ambiente e clima, política e economia, social e humano, saúde e bem-estar, educação, empresas e negócios). Falando em desglobalização, Kodja (2021) enxerga megatrends que promoverão mudanças estruturais em escala global. São elas: mudanças na ordem global, luta pela supremacia tecnológica, propagação da economia ilícita, ativismo social, mudanças climáticas, processo de desglobalização. É necessário prestar muita atenção à revolução tecnológica e à inteligência artificial. Elas têm a capacidade de instaurar uma nova ordem mundial. Além disso, aos eventos climáticos extremos que começam a nos afetar. Aos investimentos vultuosos em transição energética. A nova geopolítica estabelece um diálogo cada vez mais tenso e uma enxurrada de guerras pelo poder. Por fim, esses fatores têm a capacidade de instaurar uma nova ordem mundial. Os eventos climáticos extremos que começam a nos afetar, os investimentos vultuosos em transição energética, a nova geopolítica que estabelece um diálogo cada vez mais tenso e uma enxurrada de guerras pelo poder, e as novas tendências na produção e acumulação de riquezas caracterizam o abandono da globalização.
No espaço latino-americano, o fenômeno Trump é algo preocupante devido à sua imprevisibilidade e megalomania. Os próximos anos, juntamente com uma possível reeleição infeliz dele, certamente apresentarão desafios importantes para um continente em que vários países estão se rendendo aos seus encantos em razão da ascensão de governos de extrema-direita. O narcotráfico e os novos legalismos ganham raízes em países do continente, com seus cartéis e infiltração em zonas de vulnerabilidade historicamente desassistidas por governos capitalistas, alargando as preocupações com a insegurança; o retorno tenso e agitado do El Niño, indicando preocupações severamente climáticas, volta a colocar o continente sob pressão inflacionária e graves alterações na atividade econômica.
O Brasil caminha rumo a uma transição demográfica acelerada, com drástica queda da taxa de natalidade e aumento significativo do envelhecimento, pressionando de forma importante o sistema de saúde, a previdência social e a qualidade de vida. Há uma transição religiosa com o rápido crescimento de igrejas evangélicas, do narcopentecostalismo, da identificação religiosa com a política. O agronegócio joga um papel fundamental na economia. Um advento mais intenso da iniciativa privada com a emergência de uma classe média identificada com valores da extrema-direita também deve ser observado.
Diante dos cenários desenhados, caberia a indagação: quais dessas transformações alteram as condições de produção, circulação e legitimação do conhecimento no espaço público? Tais contextos apresentam desafios de compreensão do empobrecimento e exclusão social com elementos que atravessam os quatro cantos do mundo e não podem ser ignorados. O capitalismo permanentemente redesenhado, segundo os ditames dos novos sujeitos e modelos, continua a promover a globalização da miséria. Nestes cenários, o que seria, então, o intelectual contemporâneo? A meu ver, hoje devemos caracterizá-lo pela capacidade de gerar reflexão pública e crítica em um mundo saturado de informações.
Somos sujeitos de uma prática social que interfere diretamente na vida das pessoas. Palavras, imagens, sons, ruídos, tudo isso forma um conjunto que conduz à reflexão ou ao convencimento. Assim, não há nenhuma neutralidade na comunicação, nem inocência no que se veicula por todas as vias de interação social. A atuação histórica da grande mídia brasileira demonstra que os meios de comunicação não constituem espaços neutros de circulação de informação, mas instituições inseridas em disputas políticas, econômicas e ideológicas.
Sem pretender ser seu arauto do apocalipse ou guardião da última verdade, creio urgente nossa inserção dialógica, crítica e corajosa nesse contexto que castiga com severidade a vida dos empobrecidos. Alheios, sem informações verdadeiras, ludibriados, dispersos, sem mobilização social, os pobres se prestam à massa de manobra. É fundamental entender e atuar com os movimentos sociais como mediadores de saberes e ações que progressivamente superam a opressão. A eleição é precisamente o momento em que a responsabilidade pública do intelectual se torna mais evidente. É imperioso entender que suas palavras, imagens e ideias não circulam de forma neutra, mas produzem efeitos sobre a capacidade de julgamento dos cidadãos.
Em uma democracia, a participação política exige condições para que os indivíduos possam formar suas convicções de maneira informada, crítica e autônoma, sem que sejam submetidos à manipulação ou à desinformação. Na clássica obra “Responsabilidade dos Intelectuais” (1967), Noam Chomsky define que a função primordial do pensador reside no dever moral de “falar a verdade ao poder”, combatendo ativamente as manipulações institucionais de governos e corporações.