
Edson chegou bem na hora marcada. Ele é um trabalhador pontual. Além do serviço aqui em casa, tinha outro já acertado para o mesmo dia. Tinham passado 48 horas do primeiro turno da eleição.
Conversador da boa conversa, articulado, apesar da pressa, não demorou muito para abrir o papo. E a política, o que o senhor está achando?
Está meio complicada, né? Mas eu voto no Lula, respondi.
Aí, foram uns 15 minutos de lamentos e queixas da política e dos políticos, sem desviar os olhos das ferramentas e materiais que manipulava. Sobrou reclamação até contra parentes, coisa comum nestes tempos em que o debate político é transformado — por alguns — em duelo armado entre o ruim e o pior, em vez de disputa entre o ruim e o melhor.
Abro parênteses na minha conversa com o Edson: a pesquisa DataFolha divulgada no dia 8 deste outubro eleitoral mostra que 25% dos eleitores de Flávio Bolsonaro o escolheram no primeiro turno para derrotar Lula. Do outro lado, entre os que votaram no Lula, 13% o fizeram para derrotar o filho do ex-presidente preso. É muita gente reduzindo a eleição de Presidente da República a uma briga de rua entre o ruim e o pior…
Fecho e volto ao papo com o trabalhador.
Agachado, puxando os fios da instalação que fazia, às vezes, Edson soltava as ferramentas, ficava de pé para, cara a cara, enfatizar a crítica à situação política. Foi assim, com a sinceridade brilhando nos olhos, que ele resumiu todo o desalento que sente e que, com certeza, vai guiá-lo na hora do voto decisivo, dia 25.
O senhor conhece a história da caixa de maçãs, aquela da maçã podre que apodrece a caixa inteira… Pois sabe como é que eu vejo a nossa política? Como uma caixa de maçãs podres. Aí, a gente escolhe uma maçã boa, bota ela na caixa e ela apodrece junto com as outras…
Hoje, sábado, 11 de outubro, quando abri o computador, pensando na caixa de maçãs do Edson, lembrei de notícia que li no UOL, no dia 8 deste mês, que justifica, em certa medida, o desalento dele. Olha o título: “69 deputados e senadores eleitos são alvos de investigação por crimes.”
Peculato, fraude em licitação, corrupção, desvio de verbas, crime ambiental, injúria e, pasme (como diria vó Baldíria), até violência doméstica são as pragas que contaminam a caixa política inteira… Não vou tomar o seu tempo (tem alguém aqui?) com os nomes deles.
Em seguida, caiu no meu colo — ou surgiu na tela — o resultado da eleição no Rio. Lá, teremos, a partir de janeiro, uma situação inédita. O Rio de Janeiro tem cinco ex-governadores presos durante ou depois do mandato. A novidade reservada para o ano que vem é que o novo governador já foi investigado antes da posse. Peculato, fraude em licitação, lavagem de dinheiro e organização criminosa infestam Douglas Ruas, essa fruta da política carioca…
Mas não é só essa a surpresa carioca nesta eleição. Como é comum no Maracanã, o VAR foi chamado para decidir um lance duvidoso. Lembremos: a Justiça Eleitoral permitiu que o Garotinho, ex-governador que já esteve preso várias vezes, tivesse o nome incluído na urna eletrônica e, assim, quem quisesse votar nele estava livre para fazer isso.
Pois não é que, depois da eleição, os ministros do TSE decidiram que os votos que eles mesmos tinham permitido que fossem registrados na urna, na verdade, não poderiam ter sido dados? Resultado: os votos de 3% do eleitorado carioca foram cassados e o investigado Douglas Ruas foi declarado vencedor da eleição no primeiro turno… Por que seria que deixaram o Garotinho disputar a eleição???
Difícil não concordar com o Edson e a teoria dele sobre a caixa, não? Agora, sabe por que essas maçãs já meio estragadas se acomodam bem dentro da caixa? São todas frutas da mesma árvore que viceja aqui no Brasil e em várias partes do mundo: a direita radical.
Adubada pelas fake news, pela manipulação, pela preferência das big techs por “flores que não se cheira” saídas dos seus galhos, a árvore direita vai enchendo as caixas todas…
E de quem é a culpa pela contaminação da política? A culpa é nossa. Ainda não conseguimos um defensivo contra o mau uso das redes sociais, contra a manipulação de informações, contra o desalento (como o do Edson) que afasta as pessoas do debate a partir da balela de que “político é tudo igual”.
A grande mídia também tem culpa. Com o argumento da isenção, da imparcialidade, trata igualmente coisas bem diferentes. O jornalismo não tem que ser imparcial. Tem que ser factual. Comentar o erro de um dizendo “é… mas o outro também fez…” é blindar os dois erros. E, geralmente, pelo menos é o que eu tenho visto, toda vez que parece um erro da direita, ele é comparado a alguma atitude da esquerda.
Esse suposto tratamento igualitário das campanhas no segundo turno acaba disfarçando preferências eleitorais. Vou dar só um exemplo: não tem uma matéria sobre malfeitos (e são muitos) do Flávio Bolsonaro que não traga, também, a lembrança de alguma derrapada do Lulinha.
Ora, contra o Flávio há diversas acusações. Ele é investigado por lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas. Mas ninguém noticia isso sem lembrar alguma coisa do Lula, que foi acusado, julgado e cumpriu pena na cadeia.
Não sei em quem o Edson vai votar. Será que ele vai votar pra levar a maçã dele à caixa do Lula? Ou vai ajudar a encher a caixinha do Flávio, que já saiu quase lotada do primeiro turno?
Ainda dá tempo, amiga, amigo. Olha o que estão fazendo e dizendo por aí… Tem pai entregando arma pra filho que nem sabe caminhar direito, tem deputada estadual eleita, a Eduarda Campopiano, escancarando homofobia e racismo (advinha qual o partido dela? Isso, só poderia ser o PL), o candidato a presidente — cujo currículo se resume a ser filho…) diz que vai acabar com a reeleição. Claro, desde que o mandato dele seja prorrogado…
Melhor escolher a caixa do Lula! Ainda dá tempo.