
Passei quinze dias em uma caminhada de longa distância, em companhia de outras oito mulheres. Fizemos o Caminho Cora Coralina, no interior de Goiás, no qual percorremos 300 km – cerca de 240 km a pé. Me preparei durante quatro meses para o desafio: horas dedicadas à musculação, pilates, funcional, esteira, alongamento e muitas caminhadas, na cidade e por trilhas. Nunca havia feito tanto exercício.
Também pesquisei os melhores equipamentos: calças e blusas longas com proteção solar, bastões de caminhada, meias tecnológicas, vaselina e Band-Aid especial para os pés, tênis para trilhas, devidamente amaciados. Toda esta preparação valeu a pena. Estreante nesse tipo de atividade, consegui acompanhar pessoas bem mais experientes sem bolhas nos pés, torções ou outras intercorrências que pudessem me impedir de continuar.
O calor inclemente — com temperaturas maiores do que as esperadas, que chegaram a 40º C, possivelmente por conta do super El Niño — foi o responsável por encurtarmos alguns percursos e não chegarmos aos 300 km planejados.
A exaustão após seis a sete horas andando por trilhas e estradas de terra, cortando parques e fazendas, era imensa, mas nada que uma ótima refeição e algumas horas de descanso não resolvesse. Ver o sol nascer no Cerrado, as belas paisagens e o desafio do percurso faziam com que levantássemos todas as madrugadas cheias de entusiasmo.
Cheguei me sentindo ótima ao fim do percurso. E foi aí que pisei na bola. Ao invés de agradecer ao meu corpo por ter aguentado tanto e dar-lhe um tempo para descansar, acreditei que poderia voltar à rotina já no dia seguinte de minha volta para casa. Fui para a academia logo cedo e, à tarde, para uma reunião do meu clube de leitura. Para tanto, coloquei saltos altos, dirigi mais de uma hora e passei longas sete horas com minhas amigas, como fazemos todos os meses, discutindo o livro e brindando à vida.
A conta veio pela manhã. Acordei com meus pés inchados, parecendo duas grandes batatas, toda dolorida e com mal-estar, tossindo e congestionada. Passada a excitação, meu corpo me avisava para respeitá-lo. É como se me dissesse: “Fiz tudo o que você queria, será que não podia me dar só um pouquinho de tempo para repousar?” Me senti mal, como se tivesse cometido uma injustiça com outra pessoa, só que era comigo mesma. Foram dois dias de cama e outros dois para me recuperar totalmente, sendo o último o dia do primeiro turno das eleições.
Assim como eu, a maior parte das pessoas das minhas relações, mesmo tendo se preparado para o que poderia acontecer, ficou em um estado de estupor, tristeza e raiva, sem saber o que fazer com toda aquela excitação. Desde então, todos seguem em estado de alerta permanente, recusando-se a dar uma parada, a permitir ao corpo descansar antes de seguir na luta.
Tendemos a esquecer que somos corpo, formado pela parte física e pela mente. Ambos precisam ser respeitados, cuidados e treinados. Só assim podemos estar inteiros para pensar e agir com responsabilidade, e não sucumbir no meio do caminho.