
Meu caro vizinho,
Não sei se você vai ler esta carta até o fim. Se desconfiar logo nas primeiras linhas, eu entendo. Eu mesmo não tenho certeza de que estou escrevendo pensando somente em você, ou no irmão que conheci depois de velho — e esta é uma longa história —, da prima espírita ou dos parentes de minha esposa que, como você, também têm raiva do Lula. Não estou aqui para dar uma lição, explicar para você – ou qualquer outro parente meu – como deve votar, não é isso.
Nunca disse a você que, enquanto aposentado, sempre via você chegando em casa depois de mais um dia de trabalho. Primeiro no ônibus escolar, depois no da cooperativa e finalmente no Uber, antes do seu problema com o ombro. Vi o quanto se dedicou a transportar alunos, o sofrimento de dirigir um ônibus de cooperativa sem condições, o ombro que o incomodou, as horas de Uber que perdeu por isso, as dificuldades com o orçamento por causa disto. Sei que, no meio dessas contas, passa pela sua cabeça que você trabalhou a vida inteira e ainda não conquistou a segurança que achava ter merecido.
Não conheço todos os detalhes da sua história que você me conta nos churrascos que fazemos juntos, mas é semelhante à de muitos homens como você: serviram à pátria, tiveram várias profissões, sustentaram a família e descobriram que a vida nem sempre devolve o que a gente dá a ela. Sei que você foi açougueiro, motorista de ônibus escolar e hoje roda por aplicativo; não preciso lhe explicar que trabalho não é abstração. Você tem horários, cansaço, riscos e, muitas vezes, dor. Tem orgulho também: o de não ter ficado esperando que alguém resolvesse seus problemas e de saber preparar um churrasco para os amigos. E tem o sonho de ter um caminhão.
Esse sonho merece atenção. Para quem passou a vida ao volante, um caminhão é a diferença entre trabalhar para os outros e ter algo seu. Não vejo nada de errado nisso. Seria uma sociedade bem pobre aquela em que um homem que trabalha, cuida da família e sonha com o próprio negócio tivesse de pedir desculpas por querer melhorar de vida. Também não há nada de errado em querer que a esposa tenha segurança, que a mãe receba os cuidados de que precisa e que a família atravesse uma doença sem ficar à mercê da sorte. Quem já viu a saúde de alguém querido depender de dinheiro sabe que dignidade não se mede só pela renda.
Você vai me perguntar o que isso tem a ver com o Lula. Tem tudo, mas não do jeito que a gente imagina. A política começa muito antes de escolhermos um candidato. Começa quando decidimos o que é uma vida digna, quem deve ser responsável por ela e que sociedade queremos construir. Por isso me interessa entender como alguém que trabalhou tanto e sonha com independência pode olhar para o Lula e enxergar não só um adversário, mas o símbolo de tudo o que considera errado no Brasil. Sim, eu li a sua postagem nas redes sociais, e desculpe, são redes, e desejo lhe oferecer outro olhar aqui. Quero só compartilhar algumas ideias e ver se ajudam você a fazer uma boa escolha política.
O homem que aprendeu a não depender de ninguém
Existe uma virtude na independência. Quem teve de trabalhar cedo e brigar pelo seu espaço sabe o valor de não ficar esperando que decidam por ele. É o seu caso, não? Sempre na luta. Mas a vida tem sua ironia: ela nos ensina a valorizar a independência justamente quando nos mostra o quanto dependemos dos outros. Eu peço a você que me ajude a trocar um interruptor; você me pede emprestado um ancinho. E assim também vamos.
Pense comigo. Você, como eu, dirige, mas depende de estrada, segurança pública, combustível e de uma economia que não controla. Eu espero honestamente que um dia você consiga comprar o caminhão que deseja, mas ele também depende do preço do veículo, dos juros, da demanda por frete. Tanto você como eu, se adoecemos, dependemos de médico, hospital e, quem sabe, da Previdência. Sei da luta de sua esposa por um direito dela, a aposentadoria por incapacidade, e espero profundamente que ela consiga, mas não basta ela querer, você sabe: alguém tem de reconhecer, na lei e na perícia, que ela tem direito. Nada disso diminui o seu mérito; ela trabalhou demais e adoeceu por isso. O esforço de cada um acontece dentro de uma rede que ninguém construiu e controla sozinho.
Eu sei que você agora, como motorista de aplicativo, é patrão de si mesmo, mas isso também depende de regras que você não escreveu. Você escolhe a hora de trabalhar, mas não o preço do combustível. Quer ser dono do caminhão, mas não manda na taxa de juros do financiamento. A liberdade econômica existe, só que não chega igual para todo mundo. É disto que estou falando: quem fará nossa sociedade menos desigual? Reconhecer isso não é defender que o Estado administre tudo, é perceber que independência não dispensa uma instituição que funcione e que tenha regra previsível. Talvez a pergunta nem seja se devemos depender do Estado ou só de nós mesmos, mas esta: como construir uma sociedade em que as instituições públicas não humilhem as pessoas, os mercados não abandonem o trabalhador e o trabalho permita uma independência de verdade? Essa pergunta devia ser o centro, não concorda?
Por que Lula provoca tanta raiva?
Vi seu comentário sobre Lula. Vi ali sua raiva. Vou ser franco: faz tempo que me pergunto por que Lula desperta tanta raiva. Não é só você que chama um político de ladrão, crápula ou inimigo da família; há muitos, mas, quando fazem isso, não estão fazendo uma avaliação administrativa. Estão o condenando moralmente. Já disse a você que sou o primeiro a criticar Lula, e já escrevi um livro inteiro sobre isso chamado A Corrosão do PT (disponível aqui). Fala sério: que esquerda é essa que, no poder, não toca nos interesses profundos do capital? Faltam reformas estruturais profundas! Mas, ainda assim, eu sou cuidadoso no meu julgamento moral, porque, se o faço, o político deixa de ser alguém cujas decisões se examinam à luz dos fatos e vira uma ameaça àquilo que eu considero certo. Eu não chamo essa reação de ignorância. Não. Como você, a gente forma opinião com a própria vida, com a experiência, as conversas, a memória da família. Um programa de transferência de renda é, para um, proteção contra a fome; para outro, é motivo de dúvida sobre o incentivo ao trabalho e uso do dinheiro público. Essas divergências não somem quando alguém joga uma estatística na mesa. Precisam ser conversadas pelo seu fundamento.
Também seria erro achar que toda crítica ao Lula nasce de manipulação nas redes. Há críticas sobre a economia, as alianças, a qualidade dos serviços públicos. Para mim, umas são bem fundamentadas, mas outras não. Você deve também ter sua opinião. Mas uma coisa é criticar decisões de governo; outra é culpar uma só pessoa por todos os males do país. Quando alguém diz que o presidente acabou com o Brasil, eu pergunto: acabou como? Na inflação? No emprego? Na segurança? Cada uma dessas perguntas pede evidência própria. Se o desemprego cai, isso conta; se a dívida pública sobe, também; se a renda de alguns trabalhadores melhora enquanto outros seguem apertados, é preciso olhar as duas coisas. Avaliação séria não escolhe só os números que confirmam o que já pensamos. Pois é, dá trabalho, eu sei. Mas é o único jeito de decidir um bom voto.
Por isso lhe proponho uma distinção: você pode continuar desconfiando do Lula, discordando das propostas dele e criticando suas decisões. E nós continuaremos com nosso churrasco de amigos nos fins de semana. O que não precisamos é que nossas ideias sobre política nos afastem um do outro, transformar essa desconfiança em explicação para tudo o que está errado e brigar por isso. O Brasil é maior que qualquer presidente; as amizades e relações familiares, maiores que qualquer eleição. O governante responde pelo que faz e pelo que deixa de fazer, mas não por tudo o que acontece durante o mandato. A régua vale para o Lula e para qualquer outro, não?
Quando uma frase confirma tudo aquilo em que já acreditávamos
Quero examinar uma das afirmações mais fortes do seu depoimento: a de que o Lula teria dito que pobre não deve estudar, deve trabalhar, porque, se ficar inteligente, deixa de votar nele. Se um presidente defendesse mesmo manter os pobres na ignorância para preservar o eleitorado, seria uma declaração incompatível com a democracia. É uma acusação muito grave.
Só que essa frase, que circulou nas redes, não corresponde ao sentido do discurso. Em 24 de outubro de 2022, num evento na PUC-SP, Lula criticou justamente a mentalidade histórica de que pobres e negros deveriam trabalhar em vez de estudar. O argumento dele era que o acesso à educação, sobretudo ao ensino superior, foi restringido por muito tempo à maioria dos brasileiros. A agência Aos Fatos examinou a gravação e mostrou que o trecho divulgado estava fora de contexto (disponível aqui) Repare na ironia: uma fala que criticava a exclusão educacional virou, editada, uma fala a favor dela. Confesso que, quando li a checagem, fiquei um bom tempo olhando para a tela.
Não conto isso para dizer que você é ingênuo por ter acreditado numa publicação. Todo mundo compartilha o que parece confirmar o que já pensa: gente instruída e gente sem diploma, eleitor de esquerda e de direita, todos, enfim. O que importa é o que fazemos quando surge a suspeita de que a informação está errada. Dá para rejeitar a checagem só porque ela contraria nossa posição? Ou dá para ver a gravação e decidir o que o contexto mostra? A segunda opção dá mais trabalho, mas preserva a nossa autonomia de pensamento. E tem mais: corrigir uma frase não obriga, de novo, a você gostar do Lula. Você pode ajustar sua leitura e continuar discordando dele por mil outras razões. A verdade não é propriedade de partido, e corrigir uma informação não é jurar fidelidade a ninguém.
A corrupção e a confiança que se perdeu
Não vou fugir de uma das questões mais espinhosas da política brasileira. Você tem todo o direito de exigir honestidade dos governantes e de cobrar explicação sobre o dinheiro público. A corrupção distorce prioridades e destrói a confiança nas instituições, e não há razão, no meu caso, para minimizá-la quando envolve um político de quem gosto. Mas, justamente porque a acusação é séria, precisamos ser precisos.
No caso do Lula, o Supremo Tribunal Federal confirmou em abril de 2021 a anulação das condenações da 13ª Vara Federal de Curitiba, por entender que aquele juízo não era competente para julgar os casos. Em março do mesmo ano, a Segunda Turma do STF reconheceu a parcialidade do então juiz Sergio Moro no processo do tríplex. As decisões estão nos registros do Supremo (disponível em aqui e aqui)
Convém entender o alcance disso. Anular condenação por incompetência do juízo não equivale a dizer que toda acusação era falsa. Mas também não dá para tratar como válidas condenações anuladas. Podemos discutir os erros, a atuação das instituições, os efeitos da Lava Jato. O que não dá para fazer é trocar a análise jurídica por uma palavra usada como sentença definitiva. Digo isso não para proteger o Lula, mas para defender uma regra que também protegeria você, sua família e qualquer cidadão diante do poder do Estado. Imagine ser considerado culpado para sempre, não importa o que digam os tribunais, só porque uma parte da sociedade o detesta. A justiça perde o sentido quando vira instrumento de vingança política. Podemos exigir mais dos governantes sem renunciar à exigência de provas.
Ser capitalista e defender direitos sociais é uma contradição?
Você estranha que gente inteligente, que vive do capitalismo, defenda o Lula. Mas todo mundo é inteligente à sua maneira. Mas acho que a pergunta que você fez precisa ser refeita. O capitalismo não exige que todo mundo concorde sobre o papel do Estado. Tem empresário que defende saúde e educação públicas, autônomo que apoia a Previdência e gente de baixa renda que prefere menos Estado. Dá para discutir tudo isso, mas incoerente não é. Aliás, o capitalismo brasileiro nunca foi obra só da iniciativa individual: dependeu de investimento público, infraestrutura, crédito e legislação. Você o conhece pela vida de todo dia, sabe que ele também é banco que concede ou nega empréstimo, empresa que contrata motorista e plataforma que define as condições do seu trabalho.
Você pode achar que imposto alto sufoca o pequeno negócio, que a burocracia atrapalha quem trabalha por conta e que a Previdência tem de fechar a conta. Mas nada disso obriga você a rejeitar toda política social, não é mesmo? O debate de verdade está nas escolhas concretas. Como financiar a saúde sem quebrar as contas? Como garantir aposentadoria sem mandar a fatura para os netos? Como proteger o trabalhador sem travar a criação de emprego? São perguntas difíceis, e ninguém tem resposta pronta. Mas nenhuma exige tratar o eleitor adversário como inimigo. Se todos queremos que as famílias vivam melhor e que o trabalho seja valorizado, já temos um terreno comum. O problema não é divergir, mas sim divergir a ponto de não reconhecer no outro alguém que também quer uma vida digna.
A família não cabe inteiramente em um slogan
Você diz que o Lula teria acabado com o conceito de família. Família é coisa séria para mim também e muito mais que palavra de campanha. É onde as pessoas cuidam umas das outras, dividem despesas, atravessam doenças e amparam os velhos quando o mundo não oferece garantia nenhuma. Para quem não tem dinheiro para pagar todos os serviços de que precisa, é a primeira rede de proteção. Não admira que a ideia de uma família ameaçada inquiete tanto. Essa preocupação merece ser ouvida, não ridicularizada.
Mas é preciso perguntar: que decisão concreta sustenta essa afirmação? Que política prejudicou os laços familiares? Que direito foi alterado? Sem essas respostas, o slogan toma o lugar do argumento. E defender a família não exige que todas sejam iguais, nem que só um modelo mereça proteção. Exige também condições materiais para o cuidado acontecer: tratamento para quem adoece, proteção para o idoso, comida e escola para a criança, tempo de recuperação para o trabalhador acidentado. Isso não resolve as divergências de valores, mas ajuda a separar a defesa concreta das famílias do uso político da palavra. Dá para discordar em questões morais sem transformar quem pensa diferente em inimigo da sociedade. É só deixar, por alguns instantes, nossa emoção de lado e refletir um pouco.
O que o Estado deve a quem sempre trabalhou?
Quero voltar ao seu ombro. Um problema físico muda a nossa relação com o tempo. Antes dele, você talvez achasse que podia trabalhar para sempre, fazer mais corridas, chegar mais perto do sonho do seu caminhão. Mas, depois que o corpo impõe limites, vemos que a vontade não os elimina. É aí que se descobre a diferença entre querer trabalhar e poder trabalhar. Para quem vive do que ganha ao volante, recuperação significa menos corrida, menos dinheiro e mais preocupação. A sociedade elogia o esforço individual, e com razão. Mas precisa responder: o que acontece quando alguém que sempre se esforçou já não consegue produzir no mesmo ritmo?
Uma sociedade justa não deve premiar a inatividade nem tratar o trabalho como dispensável. Deve reconhecer que a gente adoece, envelhece, sofre acidente e precisa de ajuda. Previdência, benefício por incapacidade e saúde pública fazem parte dessa conversa, com critérios transparentes, fraudes combatidas e contas sustentáveis. Mas o princípio é simples: ninguém deve ser reduzido à sua capacidade de produzir renda em todos os momentos da vida. Isso não é concessão a preguiçoso, é reconhecer que a vida humana tem limite. E, para quem quer voltar a trabalhar ou abrir o próprio negócio, a proteção social pode ser justamente o que impede que uma dificuldade passageira vire catástrofe permanente. Pelo menos nisto acho que a gente concorda: quem trabalhou anos a fio não deveria descobrir, depois de um problema incapacitante, que toda a sua história de esforço deixou de valer. Para isso é que existem direitos. Mas eles não existem para sempre, precisam ser reconhecidos. É aí que precisamos de boas escolhas políticas.
O sonho do caminhão e a promessa de prosperidade
A promessa de que qualquer um vence se tiver disciplina, coragem e disposição para trabalhar tem força. E tem verdade: esforço e persistência importam. Quem quer abrir um negócio precisa aprender, planejar e assumir risco. O problema começa quando uma verdade parcial vira explicação total. Se alguém prospera, foi mérito. Se fracassa, faltou disciplina. Somem da conta as doenças, os acidentes, as crises, as oportunidades desiguais. Esse jeito de pensar seduz porque promete controle: se tudo depende de mim, basta me esforçar o suficiente. Mas a vida não funciona bem assim, não é?
Você pode ser excelente motorista e sofrer um acidente. Pode trabalhar muitas horas e ver o combustível comer boa parte do ganho. Pode planejar com cuidado a compra do caminhão e esbarrar numa alta de juros. Reconhecer isso não é desistir do sonho. É entender melhor o que ele exige: crédito acessível, estrada segura, custo previsível, saúde, regras estáveis. É legítimo defender que o Estado não atrapalhe quem quer empreender. Também é legítimo perguntar o que as instituições podem fazer para que o empreendedor não fique sozinho diante de riscos que não consegue administrar.
O caminhão não precisa ser símbolo de disputa entre capitalismo e política social. Pode ser símbolo de algo mais simples: o desejo de que o próprio trabalho dê para construir um futuro. A questão é como tornar esse futuro possível para mais gente, sem prometer que todos vão ficar ricos e sem culpar quem enfrenta dificuldade.
A raiva também pode ser uma forma de pertencimento
Escrevo isto porque uma questão tem tomado meu pensamento: como furar a bolha? Ela existe porque as redes sociais transformaram a divergência política numa disputa de identidades. Em vez de discutir ideias, passamos a nos reconhecer como membros de grupos que precisam ser defendidos. Quando a publicação de um grupo ataca o grupo adversário, dá uma satisfação imediata, não? Ela confirma que estamos do lado certo, que enxergamos o que os outros não enxergam. O problema é que isto acontece à direita e à esquerda. As plataformas favorecem o que provoca indignação e medo, mas não dá para pôr tudo na conta do algoritmo. Nós escolhemos com quem conversar, o que compartilhar, que fonte considerar confiável. E precisamos fazer estas escolhas para saber votar.
Pelo que você escreveu, você deve ter visto uma enxurrada de publicações dizendo que o Lula é comunista, que quer destruir a família, que quer manter os pobres na ignorância. E talvez, ao compartilhar essa ideia, tenha sentido que defendia algo importante. Não sei se foi assim, apenas imagino que foi assim. Eu quero dizer o seguinte: isso é um mecanismo comum porque produz uma narrativa que oferece um culpado, uma explicação simples e um grupo a que pertencer. Os problemas deixam de parecer soltos e viram uma história na qual alguém é responsável pelo que está errado e nós somos os que finalmente entenderam. Na esquerda funciona igual, quando se trata todo eleitor conservador como ignorante, egoísta ou manipulado. A tentação é forte porque dispensa o trabalho de entender o outro. Se eu estou aqui escrevendo desta forma, é porque estou tentando entender você.
Você notou que se fala muito de bolha, mas alguém, de fato, foi olhar uma? Eu penso na imagem da ferida: a bolha protege a pele, o atrito repetido a inflama, e furá-la com agulha suja só aumenta o risco de infecção. Na conversa política, a agulha suja é o desprezo. Chamar alguém de pobre de direita, ignorante, fascista ou massa de manobra rende aplauso entre quem já concorda comigo, mas não abre conversa honesta com quem foi insultado. Vale também para os insultos dirigidos ao Lula e aos seus eleitores. Quando um político vira a encarnação de todo o mal, qualquer informação que o contrarie soa como agressão à identidade de quem o rejeita. É assim que a conversa se fecha. Não precisamos renunciar às convicções para reconhecer o mecanismo. Basta admitir que todos somos vulneráveis à tentação de ouvir só o que confirma nossas certezas.
A esperança não é uma promessa de que tudo dará certo
Há um autor que gosto muito, que é Byung-Chul Han. Ele escreveu um livro chamado O espírito da esperança, no qual faz uma distinção que acho importante: esperança não é otimismo, nem expectativa de resultado previsível. O otimismo diz que tudo vai melhorar. A expectativa promete recompensa se fizermos certas coisas. A esperança pede que a gente siga aberto ao futuro, mesmo sem garantia. Penso nisso quando imagino o seu caminhão.
Ninguém pode assegurar que você vai comprá-lo. Seria irresponsável prometer que basta trabalhar mais. Mas seria injusto dizer que o sonho é inútil. Entre a promessa vazia e a desistência, há um espaço onde as pessoas planejam, se ajudam, procuram alternativa. A esperança não elimina a dificuldade. Só impede que ela seja a única coisa que a gente consegue enxergar. Para isso, frase inspiradora não basta. É preciso condição material, relação de confiança e instituição que funcione. Quem quer empreender precisa de oportunidade real, a família com doente precisa de atendimento, o trabalhador precisa saber que seus direitos serão respeitados. Nenhum governante garante isso sozinho, e nenhuma ideologia resolve os conflitos da sociedade por mágica, mas, com algum esforço, podemos encontrar um candidato melhor para isso. Eu sei que, se Lula ganhar, ele terá sérios problemas para governar, mas as decisões políticas são assim, tornam algumas possibilidades mais acessíveis e outras mais difíceis. Por isso devemos avaliar os governos pelo que fazem. E por isso a esperança não deveria ser monopólio de partido nenhum. Ela é de quem quer construir uma vida melhor, mesmo quando discorda de como chegar lá.
O que a esquerda precisa aprender a ouvir
Não quero terminar dizendo que a esquerda tem todas as respostas. Seria trair o argumento que tentei desenvolver. Eu já fui considerado pela esquerda como de direita por fazer críticas a ela e de esquerda pela direita por minhas críticas ao neoliberalismo. Pois eu digo que, em muitos momentos, a esquerda falou dos trabalhadores sem escutá-los direito. Ela precisa entender que nem todo mundo que trabalha por conta própria se reconhece na palavra “trabalhador” do jeito que os partidos a usam, e que alguém pode valorizar família, religião, disciplina e iniciativa individual sem ser tratado como inimigo da democracia.
A esquerda precisa, sobretudo, largar a ideia de que basta apresentar o dado correto para a pessoa mudar de opinião. A mesma estatística que pode ser convite à reflexão pode ser percebida como tentativa de provar que o outro não sabe nada. E precisa reconhecer que o trabalhador que quer comprar um caminhão não quer só sobreviver. Quer crescer, ter autonomia, deixar algo para a família. Esse desejo não é inimigo da justiça social. Se a esquerda quer defender os trabalhadores, tem de ouvi-los quando falam do custo de vida, da insegurança e do cansaço com a política, sem esperar que troquem suas preocupações pela linguagem dos partidos. Por isso não basta a esquerda dizer que um programa é socialmente justo; é preciso mostrar como funciona, quem alcança, quanto custa e como pode melhorar. Não basta condenar o empreendedorismo como ideologia individualista; mas eu entendo que é preciso separar o desejo legítimo de autonomia da promessa enganosa de que todo mundo prospera, seja qual for a sua condição. Não é bem assim, não acha? E não basta dizer que a esperança é necessária: é preciso dar razões para acreditar que as coisas podem mudar.
Felizmente, para a esquerda, a direita também não é uma coisa só. Tem quem defenda menos imposto porque acredita que isso permite investir e contratar, quem tema que a burocracia sufoque o pequeno negócio, quem valorize a religião como fonte de solidariedade, quem tenha críticas legítimas à corrupção e à ineficiência do Estado. Essas posições devem ser examinadas pelos argumentos, e não descartadas pela identidade de quem as defende. O que precisamos combater é o que ameaça a democracia: a desinformação demonstrável, a corrupção, a violência política. E aplicar esse critério também aos nossos aliados. É o que tento fazer com a esquerda.
O que devemos uns aos outros
Meu vizinho, você talvez continue discordando de quase tudo o que escrevi. Não vou resolver os problemas do Brasil numa carta, nem seria justo exigir que você abandonasse suas posições depois de algumas páginas. O que proponho é mais modesto e, ao mesmo tempo, mais difícil: não confundir discordância com impossibilidade de reconhecer a humanidade de quem pensa diferente.
Você não precisa deixar de valorizar o trabalho para reconhecer que há trabalhadores que precisam de proteção social. Não precisa abandonar o sonho de empreender para defender um serviço público que funcione. Não precisa concordar com o Lula para exigir que as acusações contra ele sejam demonstradas. E quem defende o Lula, como eu faço, não pode negar os problemas do governo, minimizar a corrupção e nem tratar toda crítica como preconceito.
A democracia não exige que todos pensem igual. Exige que possamos corrigir informação falsa, cobrar responsabilidade e reconhecer os direitos de quem discorda. O mais difícil na nossa situação talvez seja isto: de tanto apontar o adversário, esquecemos o que dividimos com ele. Dividimos a estrada, o hospital, a escola, a economia e os problemas que não somem quando acaba a eleição. Dividimos a necessidade de segurança, de oportunidade e de alguma previsibilidade para organizar a vida. Dividimos também a fragilidade do corpo. Ninguém garante que vai continuar saudável ou ter trabalho para sempre. Por isso precisamos de instituições públicas que protejam sem destruir a autonomia, de mercados que ofereçam oportunidade de trabalho sem transformar todo risco em culpa individual e de governos que entendam que administrar um país é mais que ganhar voto. Não se trata de eliminar o conflito. Trata-se de impedir que ele nos impeça de construir soluções comuns.
Uma última conversa, antes que cada um volte para sua casa
Volto à imagem que me acompanhou durante a carta: você chegando em casa depois do trabalho. Eu cuidava da sua chegada para talvez combinar um churrasco no fim de semana, e sei que podem aparecer uns amigos da rua, cada um com suas opiniões sobre o Brasil. Alguém fala de política, outro reclama do preço das coisas. Discordamos, discutimos e depois voltamos a falar da vida. Mas é nessas horas que a vida é mais complicada do que as imagens das redes. O homem que discorda de você não é só um voto. A mulher que defende uma política pública não é só uma militante. O vizinho que critica o Lula não é só um adversário. Cada um carrega uma história de vida que não cabe nas suas opiniões políticas, e é por isso que precisamos ter cuidado com as palavras que usamos para descrevê-los.
Sou professor. Em Pedagogia da esperança, Paulo Freire nos lembra que o diálogo não começa quando alguém finalmente admite que está errado. Começa quando aceitamos que o outro tem experiência e conhecimento a partir dos quais se pode conversar. Dialogar não é concordar com tudo. É deixar as perguntas abertas tempo suficiente para examinar as nossas respostas. Você pode me perguntar por que alguém como eu insiste em escrever sobre esperança num país tão dividido, insiste em defender o voto em Lula quando há outra opção. Eu respondo, se quiser ouvir, que não vejo outro jeito de impedir que a política vire guerra permanente entre gente que precisa continuar vivendo junta e aqueles que querem explorar ainda mais este país.
A esperança de que falo não é a certeza de que o Lula, ou qualquer outro, vai resolver nossos problemas. É a possibilidade de reconhecer que o futuro não está inteiramente decidido. Podemos discordar dos caminhos e ainda assim discutir resultados. Podemos até mudar de opinião quando os fatos mostram que estávamos errados. Isso não é fraqueza. É independência de pensamento. Se você acha que o Lula prejudicou o Brasil, apresente os fatos que sustentam isso. Se eu entendo que certas políticas dele melhoram a vida do trabalhador, tenho a obrigação de explicar por que, reconhecer seus limites e aceitar que os resultados sejam avaliados. E, se uma informação que compartilhamos estiver errada, corrijamos, mesmo contra a nossa posição. Ninguém perde a dignidade por reconhecer um erro.
Não sei se você vai conseguir comprar o caminhão. Não sei se sua esposa vai conseguir o benefício de que precisa, nem quanto tempo ainda para seu ombro terminar de se recuperar. Por isso não vou prometer o que não posso garantir. Mas gostaria de viver num país em que o esforço de alguém como você não fosse desperdiçado, em que uma doença não significasse o desmoronamento de uma família, em que empreender fosse possibilidade concreta e em que os direitos sociais fossem administrados com responsabilidade, sem humilhação e sem privilégio indevido. E gostaria, sobretudo, de poder conversar livremente em nosso país sem que a primeira pergunta fosse de que lado estamos.
Você continua sendo meu vizinho e as divergências até as eleições podem ficar fundas. Mas precisamos continuar a viver na rua, dividindo a tarefa de construir uma vida e uma cidade melhor para nossos filhos e netos, sermos vizinhos. Termino voltando à ideia que me levou a escrever esta carta: vivemos em bolhas e precisamos furá-las. Uma bolha inflamada não se cura com mais atrito, como a sociedade dividida, não se reconstrói com mais insulto. Meu caro vizinho, não escrevo para exigir que abandone suas certezas. Escrevo porque acredito que todos temos a responsabilidade de submetê-las ao exame dos fatos e à experiência de quem divide a vida com a gente. Peço a você apenas uma coisa: avalie bem o seu voto, analise as trajetórias dos candidatos e os seus feitos. Não decida com a emoção, com a raiva; decida com a razão. Talvez seja esse o primeiro passo para furar a bolha: descobrir que, do outro lado, não há só um adversário. Há alguém com uma história, uma família, um corpo que cansa, um sonho que insiste em ficar e um futuro que ainda não está pronto.
Com respeito,
Jorge Barcellos