
Os grandes debates nacionais do momento estão sendo gerados pelas eleições. No entanto, no nosso curralzinho psicanalítico as coisas também andam bastante quentes. Talvez esse curral não deva ser tão negligenciado porque, apesar de tudo, a disciplina freudiana vem sobrevivendo há mais de 120 anos. Nem sempre foi fácil. E, sim, sempre foi político e cultural.
Não fosse a sexualidade reprimida do século XIX, talvez nunca chegássemos a esse grande movimento de resistência cultural chamado histeria. Digo resistência cultural para retirar um pouco o ranço psicopatológico que coloca efeitos nas categorias das causas naturais. E, graças à indagação que a histeria provocou na ciência, nasceu a psicanálise. À contrapelo da própria ciência e, claro, da religião. Uma disciplina nascida e premida entre estes dois grandes só se mantém por pura arte política.
Freud o sabia e, por isso, não bastava com fazer avançar a psicanálise no seu consultório e nos livros; era preciso fomentar o que depois se chamou movimento psicanalítico, sobre o qual o próprio discorreu. Obviamente, o mundo em guerras também agitou e contribuiu para esse movimento. Gosto de lembrar que foi a partir da Primeira Guerra Mundial, com o retorno à casa dos chamados à época neuróticos de guerra – que hoje seriam conhecidos como portadores do transtorno de estresse pós-traumático – que Freud revisou sua teoria pulsional e sua grande tese de até então. Chamo de grande tese porque está no livro que marca a inauguração da psicanálise – A Interpretação dos Sonhos, de 1900. Ali, Freud havia dito que o sonho era uma realização de desejo. Só que não foi mais possível sustentar essa tese quando aqueles que retornavam da guerra insistiam em sonhos com as piores e mais drásticas cenas. Foi aí que, mais uma vez, o político adentrou a clínica – se é que algum dia esteve de fora…
E hoje, o que temos? Debates incansáveis sobre uma clínica psicanalítica que se faça mais aberta às questões de gênero, deficiências, raça, sexualidade. Esta última, agora não só como repressão ou expressão, mas como identidade que situa politicamente o sujeito no mundo. Que resiste e constrói esse mundo que, a cada tanto, insiste em se esfacelar em totalitarismos e suas falsas promessas agregadoras. E, ainda hoje, em 2026, no auge de uma das eleições mais difíceis do cenário brasileiro – na qual está em jogo não apenas direita e esquerda, mas Lula versus um projeto de poder totalitário, neoliberal, miliciano e entreguista – o que temos? Psicanalistas se posicionando exemplarmente e outros que, não contentes com o questionável silêncio, vêm a público defender a neutralidade da clínica psicanalítica. Oi?
A Gestapo esteve duas vezes na casa de Freud, confiscando dinheiro, bens e aterrorizando a sua família. Além de que Anna Freud foi sequestrada para interrogatórios e os livros de Freud queimados. Em 1938, com a ajuda política da amiga e discípula, a princesa Marie Bonaparte, finalmente Freud pôde ser exilado em Londres com parte da família. O mesmo destino não tiveram suas quatro irmãs, que foram assassinadas pelo regime nazista. Freud, então, pôde viver um pouco mais e, não por acaso, escreveu no exílio Moisés e o Monoteísmo, em que examina as origens da religião judaica, origem pela qual foi perseguido. Diante disso, não posso acreditar que psicanalistas percebam toda essa história e conhecimento como apolítico e neutro. Penso mesmo é na isenção e na pouca capacidade de se posicionar, buscando o conforto do muro que está por ser derrubado.
Por fim, nunca achei que neutralidade fosse uma grande coisa para a psicanálise. Para mim, uma quimera. Temos raça, gênero, estilo, cheiro, voz… Mas nem abrimos a boca e já somos pura mensagem para nosso paciente. Neutralidade, talvez, tenha a IA terapeuta, mas nem nela eu acredito, porque ela também tem regência política no fim das contas.
Prefiro falar de abstinência na clínica. Ora, você pensa, você julga, você sente, mas o foco não é você, mas o seu paciente. Então, você se abstém para que aquela subjetividade tenha alguma chance. Mas isso é você, psicanalista, no consultório, onde as dinâmicas em jogo e os abusos de poder são sempre um risco. Outra coisa é você, psicanalista, no laço social, se você se dirige a ele como um pensador ou pensadora da cultura. Ali a preservação é coletiva. Aproveito para dizer que a palavra coletivo é antônimo de individual, não de singular. O singular do coletivo existe e é a criação, por exemplo, na resistência.
Então, cuidado se você, psicanalista isento ou isenta, está mesmo querendo proteger “singularidades”. Isto é o que você diz, mas pode ser apenas o anseio de proteção da sua individualidade.