
Oswaldo Montenegro e Roberto Menescal, em homenagem aos compositores brasileiros, lançaram um excelente álbum intitulado “Letras Brasileiras”. Com ele, os artistas visaram homenagear a alta qualidade poética e lírica da música popular brasileira. Os autores selecionaram 13 lindíssimas canções, cujas letras são um ofertório à cultura nacional. O projeto obteve altíssimo êxito, conduzindo seus proponentes à produção de um segundo álbum (Letras Brasileiras 2 – 2003). Recordo-me de ter adquirido o primeiro álbum e de tê-lo escutado inúmeras vezes. Não era apenas o prazer de ouvir aquelas canções que me atraía. Com o tempo, percebi que algumas obras de arte permanecem conosco porque nos devolvem algo que a rotina frequentemente nos rouba: a capacidade de sentir, de lembrar e de olhar novamente para aquilo que parecia familiar. Talvez seja por isso que a música ocupe um lugar tão importante em minha relação com a vida.
Estou me remetendo ao sensacional álbum acima citado, porque a música é uma das obras de arte que me cala profundamente. Gosto de aproveitar todos os estilos musicais. Do intitulado clássico ao dito popular. Das expressões traduzidas em fado e chorinho àquelas que vão às ruas entoar as sofrências da vida, do sertanejo vibrante ao carimbó bailante. Um dos autores de minha amizade publicou uma obra intitulada “O crepúsculo dos ídolos ou a filosofia a golpe de martelos” (1889). Em seu aforismo 33, o filósofo escreve: “Quão pouca coisa é necessária para a felicidade! O som duma gaita. — “Sem música, a vida seria um erro”. Confidencia em carta enviada ao amigo Peter Gast (1988): “A vida sem a música é simplesmente um erro, uma tarefa cansativa, um exílio”.
Penso que a arte é a mediação mais genuína da vida em seu frescor. Enquanto o cotidiano e a racionalidade tendem a enrijecer nossa vida, as manifestações culturais conferem vitalidade, leveza e entusiasmo. E como precisamos disso num mundo cada vez mais fatigante. “O Misantropo” (1666), de Molière, é uma das formas mais brilhantes e ácidas de brincar com a realidade ao dissecar a hipocrisia, as falsidades e as convenções sociais da corte francesa do século XVII — dilemas que continuam perfeitamente atuais. O parisiense usa a comédia não apenas para fazer rir, mas como um espelho incômodo da sociedade. Nietzsche (1888) considera caótica e sofrida a verdade nua e crua da existência, por isso expõe: “Temos a arte para não morrer de verdade” (seção 822 dos Fragmentos Póstumos).
Em “A morte de Ivan Ilitch” (1886), Tolstói também revela, pela literatura, a fragilidade e a artificialidade de uma existência submetida às convenções sociais. Diante da morte, o protagonista percebe o vazio de uma vida orientada pelas aparências, pelas obrigações e pelo reconhecimento social. A literatura, assim, não apenas retrata a existência, mas pode nos fazer interrompê-la por um instante para perguntar pelo seu sentido. Na coletânea intitulada “Caminhos da Floresta” (1950), Heidegger escreveu: “A obra de arte abre, à sua maneira, o ser do ente. Na obra acontece esse abrir, i.e., o desencobrir [Entbergen], i.e., a verdade do ente. Na obra de arte, a verdade do ente se pôs em obra. A arte é o pôr-se-em-obra da verdade”.
Outro exemplo de como a arte nos provoca e denuncia um cotidiano desprovido de reais significados é o famoso quadro de Pablo Picasso (1903/1904) “O Velho Guitarrista”, no qual retrata a fragilidade humana e a busca de consolo diante da miséria e finitude. Além disso, muitos de nós assistimos, nos idos dos anos oitenta, à película “Sociedade dos Poetas Mortos”. Nela, um docente e seus alunos vivenciam a extraordinária descoberta da brevidade da vida. Recordo que o filme popularizou a expressão “Carpe Diem”.
Não consigo esconder a admiração — quiçá até uma certa inveja — que sinto pelo artista capaz de habitar tão profundamente seus personagens. Ele experimenta, pela criação, possibilidades de existência que não poderia necessariamente viver em sua própria vida. Talvez esteja aí uma das forças mais extraordinárias da arte: permitir que sejamos, ainda que por alguns instantes, outros. Ao escrever meus próprios livros, compreendi também que essa experiência exige uma espécie de liberdade interior. Sem ela, a criação se torna apenas reprodução; com ela, a arte pode abrir novas possibilidades para a experiência da vida.
Estou sempre buscando a guarida da música, da literatura, do cinema nos textos que escrevo. Aprecio as artes e os/as artistas. Gosto de todos! Ultimamente tenho saboreado os excelentes mineirinhos “Sávio e Gustavo”, o carioca “Paulinho Lima”, os “Trimanos” de Ananideua e a animada dupla de forró e vaquejada de Petrolândia/PE, Arthur e Alancid. Me regozija ver toda uma sorte de juventudes despontando em diversos campos das artes. Para mim, eles sinalizam um vivo esperançar, representando aquela propalada luz no fim do túnel. Não que sejam tão somente o futuro vagamente desejado. Eles, de fato, são esse futuro que já está sendo construído no presente. São garotos de muito valor artístico e, eu espero, humano.
Hoje, ao lembrar aquele álbum, voltei a uma canção que, embora não faça parte dele, acolhi em meu coração. Trata-se de “Paciência”, de Lenine e Dudu Falcão, lançada em 1999. Há músicas que simplesmente ouvimos e outras que parecem nos ouvir de volta, porque dizem algo que ainda não havíamos conseguido formular. “Paciência” pertence, para mim, a essa segunda espécie. Ela me faz pensar sobre o tempo, a pressa que incorporamos como modo de viver, aquilo que vamos perdendo quando já não conseguimos parar, e, principalmente, sobre mim mesmo.
Antes de discorrer um pouco acerca do sentimento e do significado que a composição assume para mim, permita-me, amigo(a), fazer o carinho de brindar você com a letra dela:
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma,
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma,
A vida não para
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora, vou na valsa
A vida é tão rara
Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência
O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo, e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência
Será que é tempo que lhe falta pra perceber?
Será que temos esse tempo pra perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara, tão rara
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para
A vida não para, não
Será que é tempo que me falta pra perceber?
Será que temos esse tempo pra perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara. tão rara
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para
A vida não para, não
A vida não para
A vida é tão rara
Reza a lenda que Duda Falcão esteve contido no estafante e horroroso trânsito recifense, fato que o induziu a refletir como as pessoas vivem em uma urgência constante e desnecessária. Duda partilhou a provocação com o amigo Lenine e os dois, imediatamente, “psicofonaram”, disse o cantor, a melodia. Daí nasceu a belíssima “Paciência”. A proposta é pensá-la como uma atitude consciente de desacelerar e resistir ao ritmo intenso e urgente da sociedade moderna. Explica a necessidade de não se deixar esmagar pelo cotidiano. Por isso, ela não é um dom, é uma conquista. Assim, ela não implica tão somente na espera. Significa reconquistar a capacidade de habitar o tempo. Para além de uma atitude individual, pode ser concebida como uma forma coletiva de resistência.
Gramsci postula a cultura radical como caminho para a hegemonia popular. Mas entendia que a transformação na sociedade observa uma marcha às vezes vagarosa. Daí emerge o conceito de paciência como resistência e luta, pois as transformações sociais não acontecem com o piscar dos olhos mediante um golpe de força (“guerra de movimento”). É plausível remeter ao sardo uma das gêneses do termo “Paciência Histórica”. Paulo Freire, assíduo leitor do marxista italiano, tematizou essa visão em sua pedagogia.
A letra da canção se volta contra o imediatismo, a normalização do caos, a ansiedade para obtenção de êxitos que não conduzem a muita coisa. Isso porque “a vida é tão rara”. Jamais esqueci o drama biográfico “O homem elefante” (1980). Película baseada na história real de Joseph Merrick. O obra desvela o contraste entre a grave deformidade física de Merrick e a frieza da alta sociedade para demonstrar que a dignidade, a beleza e a moralidade são virtudes interiores. Enquanto o protagonista demonstra uma alma nobre e resiliente por trás de sua aparência grotesca, a aristocracia e a comunidade científica expõem uma miséria espiritual oculta, mascarada por roupas finas e falsos modos civilizados. A película prova que o valor humano e a compaixão operam em uma dimensão invisível aos olhos, desafiando preconceitos estéticos e sociais.
A música, a literatura, a pintura, a arte, de maneira geral, está sempre a nos lembrar da transitoriedade desta vida. A meu ver, esta é uma questão social e política. Quando os sinos do capitalismo dobram, apontando valores inalcançáveis, a descartabilidade da vida, o pragmatismo associado ao individualismo, a lógica da urgência, convida-nos a afastarmo-nos de coisas que são deveras essenciais, como a própria construção cotidiana da vida e do viver, e a dignidade de cada e todo ser humano. Quando lutamos e aspiramos a uma sociedade que faça valer os direitos fundamentais das pessoas, é porque não nos rendemos ao sedutor canto da sereia capitalista em sua máxima reprodutivista. Queremos pensar o bom e o belo. Visamos alcançar um mundo em que a política represente a organização da cidade em função do bem comum e as artes possam manifestar o que há de melhor em cada um e cada uma, demonstrando a vida ética. Uma ética que respeita o passo e o compasso, que exala cheiro e cor de gente em movimento rumo à felicidade.
Oswaldo Montenegro é compositor e intérprete da música “A lista”. A canção é uma convocação a que reflitamos sobre a passagem do tempo, as escolhas que fazemos e a forma como nossas relações e sonhos mudam. O cantor esboça, com delicadeza e verdades, um convite a que não nos desprendamos das coisas mais importantes. Os Titãs, em sua canção “Epitáfio” (2001), fazem o poeta admitir que devia “ter visto o sol nascer”. Exploramos neste texto, a arte como uma expressão genuína da vida, no intento de demonstrar que, em diversas ocasiões, as urgências do corre-corre diário nos cegam a visão. Pensamos de tal forma porque almejamos na arte não somente a representação do existir, mas possibilidades de produções de outras experiências de vida. Por isso, recorremos à música “Paciência” como eixo de nossa reflexão. Os poetas Lenine e Dudu brincam com a polissemia da palavra rara. De fato, por que a vida é tão rara?
Perseguimos, nas obras de arte, chaves para formas de apreensão dessa “raridade”, pois eis que a vida é muito breve e cada sujeito é único e irrepetível, cada pessoa é inconclusa e vulnerável. Numa palavra, é rara. Não pode se limitar ao frenesi focado no bem-estar e conforto material, no reconhecimento social e prestígio supostamente gerados por títulos e poder. Nenhuma pessoa tem o condão de cessar o movimento, parar o tempo, recuperá-lo. É a canção que ressoa: “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia” (Lulu Santos/Nelson Mota, 1983). Daí que “a vida é rara” é um apelo à ética, à compreensão de que a existência humana não deveria estar subordinada integralmente à cartilha da eficiência, mas vivida com abertura, não permitindo que o tempo seja uma armadilha de negação da belezura daquilo que a vida pode vir-a-ser.
Em uma sociedade marcada pela aceleração, pela produtividade e pela urgência permanente, a arte pode recuperar a experiência da vida como algo que não deve ser simplesmente consumido ou produzido, mas vivido; por isso, a paciência deixa de ser uma disposição passiva e pode tornar-se uma forma ética de resistência à redução da existência ao pressuposto da utilidade. A arte nos devolve a percepção daquilo que a pressa cotidiana nos faz esquecer. Afinal, a vida é tão rara.