
Recentemente, diversos meios de comunicação divulgaram uma notícia que deveria ter recebido mais atenção: “O Google fechou o maior acordo de remoção de carbono de sua história para apoiar um projeto em mais de 200 mil hectares de plantações de arroz no Rio Grande do Sul”. Aparentemente, isso parece algo extraordinário.
Um arrozal alagado no sul do Rio Grande do Sul aparenta estar muito distante dos centros de dados onde o Google treina seus sistemas. Na contabilidade climática, no entanto, ambos podem estar vinculados: debaixo da água dos arrozais, microrganismos produzem metano, um poderoso gás de efeito estufa, enquanto telas e servidores nos centros de dados consomem energia e geram emissões que a empresa busca diminuir ou compensar.
O projeto Google-Terradot
O projeto em arrozais gaúchos, anunciado em setembro pelo Google e pela Terradot — empresa especializada em intemperismo acelerado de rochas, (técnica que será explicada adiante) da qual o Google é acionista — une duas abordagens. A primeira consiste em alternar períodos de alagamento e drenagem da lavoura, técnica chamada de molha e seca alternadas. A segunda é a aplicação de basalto moído nos campos, o que acelera as reações naturais que removem CO₂ do ar.
A proposta é ousada. Até 2030, o Google planeja adquirir resultados climáticos equivalentes à diminuição de 1 milhão de toneladas de CO₂, por meio da redução das emissões de metano. Até 2040, pretende alcançar resultados equivalentes à remoção permanente de mais de 1 milhão de toneladas de CO₂ por meio do intemperismo das rochas. No entanto, as duas contas não são equivalentes: reduzir as emissões de metano impede a entrada na atmosfera de um gás de efeito estufa altamente potente, enquanto a remoção de CO₂ é um processo diferente, mais lento e de difícil mensuração. O primeiro erro seria somar os dois resultados sem esclarecer essa diferença.
Ainda é prematuro considerar o projeto como um crédito de carbono finalizado. O anúncio diz respeito à aquisição futura de resultados relacionados ao clima. Até o momento, não existem registros públicos de créditos emitidos ou confirmados para os arrozais do Rio Grande do Sul. Além disso, não foram fornecidos à certificadora o valor, a lista de produtores, a linha de base, o método final de medição nem informações observadas sobre emissões negativas. Há uma promessa de grande escala; a confirmação terá de vir depois.
A água que deixa de emitir
A água impede que o oxigênio entre no solo do arroz irrigado. Nesse ambiente, microrganismos degradam matéria orgânica e geram metano, sendo que uma parte desse gás é liberada na atmosfera pela própria planta. Assim, os arrozais figuram entre as principais fontes globais desse gás, juntamente com a digestão dos bovinos e a indústria do petróleo. Quando a lavoura é drenada por alguns dias, o solo recupera o oxigênio, reduzindo a produção de metano. Dessa forma, é viável diminuir as emissões sem abandonar o cultivo de arroz.
A ideia não surgiu em uma sala de reuniões no Vale do Silício. Uma meta-análise divulgada em 2024 estimou que a irrigação alternada diminuiu, em média, 51,6% das emissões de metano em relação ao alagamento contínuo. No Rio Grande do Sul, pesquisadores avaliaram gases ao longo de quatro safras em arrozais de Capão do Leão e compararam os dois manejos. Assim, existe evidência gerada no contexto local para analisar a resposta das emissões à alteração na irrigação.
No entanto, uma média científica não pode ser aplicada a todas as lavouras de forma indiscriminada. A diminuição varia de acordo com a precipitação, o tipo de solo, o fertilizante, o cultivo, o momento da drenagem e a possibilidade de voltar a irrigar quando a planta precisar. Além disso, é necessário levar em conta o óxido nitroso (N₂O): em determinadas pesquisas, suas emissões crescem quando o solo não permanece mais alagado. Assim, medir apenas o metano pode melhorar um aspecto do balanço, mas piorar o resultado climático geral. Metodologias rigorosas requerem a inclusão do N₂O na conta.
A rocha e a passagem do tempo
O intemperismo acelerado simula um processo natural que tem contribuído para a regulação do CO₂ atmosférico por milhões de anos. A técnica envolve a moagem de rochas vulcânicas e a aplicação do pó resultante em solos agrícolas ou silvestres. Quando em contato com a água, os minerais reagem ao CO₂, transformando-o principalmente em bicarbonato dissolvido. Essa substância pode permanecer no solo ou ser transportada pelos rios até os oceanos, onde o carbono pode ser armazenado por longos períodos. Uma das rochas empregadas nessa técnica é o basalto, abundante no Rio Grande do Sul.
No sul do Brasil, a combinação de solos férteis, umidade e proximidade de pedreiras pode fazer com que a opção seja interessante. Além disso, o basalto pode fornecer nutrientes e corrigir a acidez do solo. No entanto, para determinar o benefício climático líquido de cada tonelada de carbono associada à prática, é necessário subtrair as emissões produzidas durante a extração, britagem, transporte e aplicação do pó de rocha no campo. O monitoramento deve avaliar a dissolução real do material, em vez de apenas quantificar a quantidade aplicada. Além disso, devem-se observar mudanças no pH, na qualidade da água e nos sedimentos, assim como a possível liberação de metais pesados e seus impactos na vida aquática.
Quando a redução se torna crédito
O crédito de carbono tem início depois que as mudanças são documentadas no campo. Primeiramente, é necessário comprovar que a lavoura emitiu menos. Em seguida, demonstrar que essa diminuição não teria acontecido sem o estímulo do projeto. Por exemplo, se a irrigação alternada já fosse economicamente vantajosa e provavelmente fosse adotada de qualquer maneira, o projeto não poderia reivindicar toda a redução alcançada. O ponto principal não é determinar se a prática deveria ser obrigatória, mas sim se o financiamento do carbono foi crucial para sua realização.
Isso é conhecido como adicionalidade: apenas o que não seria implementado sem o incentivo pode ser contabilizado. Posteriormente, é necessário definir uma linha de base realista, medir ou estimar, utilizando um método apropriado, os gases que não foram emitidos ou o carbono que foi sequestrado, considerar as incertezas e submeter as informações à verificação independente.
Pode parecer burocracia, mas é o cerne da questão. Se a fazenda já drenava uma parte do arrozal para economizar água, não se pode considerar toda a redução como nova. Se a linha de base considera uma inundação contínua em um local onde antes não havia, o crédito surge maior do que a alteração efetiva. Os satélites podem indicar a diminuição da lâmina d’água, porém, por si só, não realizam a medição do metano, óxido nitroso, nem demonstram a decisão que o agricultor teria tomado na ausência do dinheiro do carbono.
Esse cuidado não é apenas teórico. Em 2024, a Verra, entidade internacional responsável pela certificação de créditos de carbono, declarou inválidos 37 projetos antigos de metano em arroz, resultando na anulação de 4,5 milhões de créditos. A Voluntary Carbon Markets Integrity Initiative (VCMII) identificou, nesses projetos, questões relacionadas à adicionalidade, área declarada, classificação de escala e evidência insuficiente de implementação. O precedente não reprova antecipadamente o projeto gaúcho, mas explica por que a metodologia e o logotipo de uma certificadora não são suficientes: a integridade do crédito depende da qualidade dos dados, da linha de base e da verificação.
Uma conta não anula a outra
Uma crítica frequente em relação aos créditos de carbono é a seguinte: eles podem possibilitar que os poluidores persistam na contaminação. Em alguns casos, até permitem o aumento. Quando uma empresa adquire unidades frágeis para afirmar neutralidade, enquanto procrastina a redução de emissões em suas operações, o resultado é uma conta equilibrada e um ambiente deteriorado.
No entanto, restringir-se à crítica também torna a questão excessivamente simples. Um projeto de alta qualidade pode custear assistência técnica, diminuir o uso de água e energia para bombeamento, compensar agricultores e reduzir emissões de metano fora da cadeia de valor da empresa compradora, auxiliando na mitigação em setores mais desafiadores para a descarbonização. As emissões do Google não diminuem apenas porque um arrozal emite menos. O que pode ocorrer é uma redução externa, registrada e complementar, que pode contribuir para conter o aquecimento enquanto a empresa continua trabalhando para diminuir suas próprias emissões.
A sequência dos elementos aqui é relevante. O padrão Net-Zero da Science Based Targets Initiative determina que as empresas precisam reduzir significativamente as emissões geradas por suas operações e por sua cadeia de valor. A mitigação externa pode agregar a esse esforço, porém não o substituir. Para atingir o net-zero, a empresa precisa diminuir mais de 90% dessas emissões e compensar as remanescentes por meio de remoções permanentes. A redução do metano nos arrozais é benéfica para a mitigação a curto prazo, porém não diminui as emissões operacionais nem permite o adiamento de cortes internos.
O projeto Google–Terradot pode oferecer uma oportunidade para o arroz gaúcho, porém também pode se transformar em uma promessa climática excessivamente ambiciosa em relação às evidências que a respaldam. A diferença estará na avaliação dos resultados, na verificação independente, na clareza da linha de base, na compensação dos produtores e na disposição para corrigir ou anular créditos quando a evidência for inadequada. Em um mercado legítimo, uma tonelada anunciada só tem valor se corresponder a uma tonelada comprovada — e não substitui a redução das emissões por parte de quem a adquire.