
Daqui de cima, sobre o que resta da amurada do calçadão, ele parece uma figura recortada de um quadro de Edward Hopper. Há uma solidão geométrica na cena. A praia de Tramandaí está quase deserta, ainda falta um tempo para o início do verão. O vento frio do Litoral Norte gaúcho levanta uma poeira de areia fina, cortando a imensidão cinzenta onde, ao fundo, a silhueta de concreto da plataforma de pesca avança mar adentro feito um braço inerte e estéril.
E ali, perto da espuma, permanece aquele homem. Um velho sozinho, sentado em uma cadeira de praia de alumínio listrada. Usa um chapéu que esconde seus olhos.
Da distância em que estou, posso apenas imaginar seus pés. Devem estar imóveis, pesados, mapeados por aquelas varicosidades e inchaços que os anos imprimem na carne.
A água do mar avança em lâminas finas. Lambe seus tornozelos e recua.
Quem passa não sabe o que ele pensa. Quem olha de longe é obrigado a inventar. Lembrei-me de um dos muitos relatos que circularam durante os meses mais duros da pandemia. Falavam de um homem que perdeu a esposa no hospital. Eram vistos sempre juntos, caminhando de braços como dois jovens namorados. Diziam que ela morreu sufocada, sem ar, afogada pela agonia e pelo isolamento. Ele nem pôde se despedir. Na pressa dos necrotérios cheios, a teriam envolvido num saco plástico preto, espesso. Um zíper rápido. O lacre definitivo. Contavam também — com aquela crueldade miúda que as cidades guardam — que alguém em algum bar teria rido do caso, imitando entre copos e gracejos os estertores finais da mulher e o choro do “pombinho” desasado.
Fixo os olhos no velho. Pergunto-me se é ele o homem daquela história.
O ar falta na praia. Adivinho, pelo movimento dos ombros dele, uma respiração penosa. O peito sobe e desce num ritmo pesado, assíncrono. Então, mexe-se. Seus braços sobem devagar. Os dedos se curvam no ar. Estica o pescoço para trás, a boca entreaberta para o céu nublado. Começa a imitar um gesto. Um espasmo mecânico, grotesco. De longe, lembra uma liturgia muda. Estaria ele reproduzindo o sufocamento dela? Ou o deboche do algoz? Estaria encenando aquela coreografia de dor diante da imensidão não por rendição, mas por afronta — como quem recusa a vitória da barbárie?
Estaria esperando a maré definitiva? O tsunami prometido?
O mar à sua frente já não obedece às antigas tábuas de maré. É o tempo de agora. O Atlântico está aquecido, inflado pelo derretimento silencioso dos polos, avançando centímetro por centímetro para roer as bordas do mundo. É uma massa pesada que perdeu o compasso.
De repente, a água recua de forma surpreendente. A areia fofa fica nua, escura.
Vem a onda. Não a lâmina suave de antes, mas uma parede turva e volumosa, armada pelo vento bruto que desce do horizonte. O impacto atinge as pernas da cadeira com um baque seco. O alumínio cede na areia que se liquefaz. O chapéu salta de sua cabeça e desaparece imediatamente na espuma. A cadeira tomba de lado, semienterrada.
Limpo os olhos atingidos pelo borrifo salgado, esperando o vazio.
Mas o velho está de pé.