Ver o agora colega Amir Bliacheris erguer o canudo que o tornou jornalista no último dia 31, em formatura na Famecos (PUC), me provocou sentimentos profundos de genuína alegria, íntima satisfação e justificada desforra contra a grosseria e a falta de sensibilidade.
Acompanho a trajetória desse menino bom, inteligente e afetivo desde que ele frequentava a nossa casa quando criança, porque era e é amigo do meu filho Pedro, da mesma idade, e também da minha filha Paula, ainda que cinco anos mais nova. Somos amigos da família, diga-se, numa relação afetiva e de identificações importantes, que vão da identidade cultural à visão de mundo. Os pais do Amir são o Marcos (Xixa) e a Brenda. O mano é o Beni. Gente com “G” maiúscula, que a vida pôs no nosso caminho.
Mais que nos pôr no caminho, acrescento, a vida nos proporcionou um impressionante aprendizado, em especial pelo conhecimento que tivemos de um doce menino autista, com suas provações, dilemas e, na rica diversidade que a natureza lhe deu, as especiais características que vão das dificuldades às qualidades.
Não se trata de edulcorar uma barra, mas o autista, em meio a desafios emocionais, preconceitos e incompreensões muito pesadas (literalmente, uma barra!), tem características que serão úteis ao Amir no exercício da profissão e também na vida. Basta respeitá-lo e compreendê-lo, nesta ordem. A diversidade é algo essencialmente humano e fascinante. Asseguro isso, como homem e profissional do ramo. Talvez a sua linda inocência, a sua pureza, seja um empecilho em alguns momentos de interpretação da maldade humana, o que também é algo simples de se conduzir por gestores sensíveis que saibam tirar o melhor das características de cada pessoa, e é aí que entra o bom gestor, numa redação de jornal ou numa escola, claro. Se eu fosse editor do repórter Amir, saberia como aproveitar seu belo texto, sua inteligência, seu foco, seu interesse, sua curiosidade que leva às perguntas mais pertinentes (aquelas que boçais talvez não fizessem), sua honestidade e, sobretudo, a sua qualidade do papo reto. Se você perceber, é de papo reto que precisamos neste mundo predominantemente cínico, egoísta e hipócrita tonificado pelas redes sociais que dão vazão a imbecis e covardes. Perceba a riqueza da diversidade proporcionada pelo Amir.
O Amir tem em si o que acredito ser o futuro do Jornalismo, a profissão que tanto amo. Sou um apreciador da sinceridade e do papo reto, do olho no olho. Procuro exercê-la diariamente, na vida e na profissão, e acho que a tenho na minha alma, na minha essência, desde sempre. Mais: creio que essa é a característica que vai salvar a humanidade. Exagero? Dá uma espiada no mundo virtual e volta aqui pra me dizer se estou errado.
Aposto no Amir! Adoro o Amir! Admiro o Amir!
Me honra saber que agora ele é oficialmente meu colega.
Me honra lembrar que ele é meu sobrinho de alma.
Me honra perceber que ele e meu filho são tão amigos, há 20 e poucos anos.
Pessoas como o Amir melhoram o mundo. Jornalistas como o Amir dão esperança pra profissão cuja essência está em apurar e relatar buscando a verdade.
São pessoas como o Amir que vão levar ao Jornalismo aquilo de que ele mais necessita e que é sua sempre urgente razão de existir: a sinceridade pura, a verdade mais próxima da objetividade e às vezes plenamente verificável (sim, isso existe, crianças: o céu é azul e a Terra é redonda).
(o Jornalismo é a necessária formação humanista que se contrapõe à enfadonha e desgastante embromação excessivamente academicista, por vezes desonesta e distorciva, que frequentemente vai do nada pro lugar algum, que dá vazão a sofistas modernos irresponsáveis revestidos da bobagem chamada “pós-verdade” e cheios de dogmas e preconceitos sustentados contra todas as evidências e os fatos. O Jornalismo, sim, é franco e leva a algum lugar, de forma reta como temos de ser na ética, na estética e na realidade)
Fiquei absurdamente emocionado com a colação de grau do Amir.
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Aliás, andei resenhando aqui o livro de crônicas do seu pai, o Xixa. Busque o texto “Um livro que transborda empatia”, de 19/12, e entenda a que me refiro. Já o título do livro diz a que ele vem: “Diferente como a gente (crônicas de inclusão e esperança)”.
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Mas voltemos ao Amir e também ao início deste texto. Talvez você não tenha entendido o uso da palavra “desforra”. Pois então, agora a explico.
Essa família sensível e amorosa, há pouco mais de 10 anos, lutou judicialmente e foi vitoriosa num processo contra uma escola que rejeitou o Amir.
Viraram notícia nacional! Saiu matéria em tudo que é canto, Brasil afora.
Agora, com a formatura do Amir, essa vitória tem uma espécie de pós-graduação da dignidade e do justo, depois da graduação pela conquista nos tribunais. Minha vontade é de enviar este texto pros diretores da escola de Brasília que o expulsou quando Xixa, advogado da União de enorme conhecimento na área ambiental e (principalmente depois de assumir a luta do Amir) na do respeito às diferenças, foi viver lá – vejo forte ligação entre ambas áreas, aliás.
Por isso, a palavra “desforra” lá em cima. Tomara que tomem conhecimento!
E aqui embaixo vou recorrer ao bom texto do G1 na época pra resumir o que foi a luta dessa família querida que colhe os frutos do amor, da perseverança, da consciência paterna e materna e, enfim, do que é justo e precisa prevalecer.
Conta o G1 que “o Tribunal de Justiça do DF condenou (em 4 de dezembro de 2015) uma escola particular a pagar R$ 20 mil a um autista de 11 anos que foi expulso no meio do ano sob a alegação de ‘reiteradas condutas inadequadas’ e agressivas. O garoto acabou tendo matrícula recusada em outras dez instituições privadas e precisou concluir a 6ª série na rede pública.”
Segue a reportagem: “Entre os incidentes envolvendo o garoto estavam uma briga com colega durante partida de futebol e o fato de ele ter falado palavrão em sala de aula. Amir Bliacheris foi matriculado no Colégio Logosófico Gonzales Pecotche no início de 2014 depois de longa pesquisa feita pela mãe, a advogada Brenda Bliacheris. A família se mudou para Brasília para acompanhar o pai, que é servidor público, e fez questão de escolher uma instituição que pudesse entender a situação do garoto.”
Brenda contou ao G1 que diversas vezes esteve na escola e ofereceu os contatos da psicóloga que o acompanhava. A instituição nunca quis fazer contato com a terapeuta e se negou a tentar adaptá-lo – como empregar uma carga horária reduzida de aula. Em nota, o colégio argumentou que sempre deu suporte a Amir e que nunca deixou de atender alunos com deficiência.
“Em razão do acúmulo de excessos e após seguirmos todos os procedimentos regimentais da escola considerando a graduação das ações que vão desde advertência até o cancelamento de matrícula, passando por reuniões com os pais e com o conselho de classe, o aluno foi desligado da instituição”, disse.
Brenda ponderou que a escola tinha pouca compreensão com relação às limitações de Amir, que não tem coordenação motora fina, não entende ironias, atropela palavras e tem dificuldades para lidar com frustração e momentos de ansiedade, conhecidas características do autismo.
Achei especialmente doloroso este depoimento de Brenda: “A escola pressionava muito ele. A escola exigia letra bonita. Aí ele fazia uma redação, e diziam que a letra dele estava feia. Tinha que apagar tudo e reescrever. Diziam que não estava bom. Faziam isso com ele três, quatro vezes. E mesmo a gente dizendo antes que a letra era feia por causa da situação dele, ignoravam. Eu dizia para deixarem ele descansar então, mas nada. Depois da terceira, quarta vez, ele começava a chorar, a gritar, ele perdia o controle. Ele tinha uma espécie de crise de nervos”. (…) “Quando ele está nessa situação, você não consegue mais falar com ele, ele já está fora de si. E dar uma volta faz ele piorar, porque ele se sente excluído, ele se sente colocado para fora de sala de aula, mas era o que faziam” (…) . “Ele é muito metódico. Se esbarram nele, por exemplo, sem querer, ele não entende. Aí ele se vira e diz ‘não esbarra em mim, sua idiota’. A professora manda sair para se acalmar, mas o que fica nele é um sentimento grande de injustiça, porque não entende porque tem de sair, se não foi ele quem esbarrou. Na cabeça dele, a pessoa fez por querer.”
Duas observações:
- A escola deveria saber lidar com isso.
- O Amir se formou em Jornalismo (!!!).
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Assim, o portal Metrópoles abriu sua reportagem: “A pedagogia do amor é o slogan do Colégio Logosófico Gonzalez Pecotche, na 704 Norte. A proposta, porém, não é simples quando retirada do papel. Em 23 de maio de 2014, a escola cancelou a matrícula de um aluno de 11 anos, com Síndrome de Asperger, condição psicológica do espectro autista. Alegou ‘reiteradas condutas inadequadas por parte do autor’ que geravam ‘insegurança no ambiente escolar’”.
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Brenda acrescentou que se ofereceu para pagar um acompanhante a Amir em sala de aula, mas a instituição se negou a aceitar. A decisão da escola de desligar o menino ocorreu no meio da semana de provas.
“Só deixaram ele entrar, fazer a prova e sair. E a gente esperando na calçada. Ele entrava de cabeça erguida, fazia as provas e saía, sabendo que estava expulso. E ele saiu com média maior que a dos colegas. Ele tinha 13 professores e sabia que todos eles assinaram a ata contra ele.”
Ponham-se nos sapatos desses pais!!! Eu fiz isso e doeu.
Depois do cancelamento da matrícula, a família procurou outras instituições particulares, sem sucesso. Amir foi então matriculado em uma escola pública na Asa Norte. Chegou a receber um prêmio por se destacar na disciplina de ciências. Disse Brenda ao G1: “Ele tinha pânico de escola pública, porque o que ele conhecia era o que via nos filmes americanos. Tinha pânico de conhecer outros alunos, outros 13 professores, outro diretor. Para um aluno qualquer é difícil. Para quem tem Asperger (espécie de autismo) é pior”. (…). “Fiquei no portão por quase um mês, até sentirmos segurança. A gente fica com o coração na mão, ele é o nosso tesouro. Vê-lo sofrer e sofrer injustamente é uma droga. Você se sente de mãos atadas, fica perdida.”
A decisão
O desligamento de Amir foi considerado irregular pela Coordenação de Supervisão Institucional e Normas de Ensino do DF. O juiz Wagner Pessoa Vieira criticou a postura da instituição em manter a expulsão. Disse que o depoimento de testemunhas reforçaram a constatação de falha na prestação dos serviços. “Ficou evidente que a instituição não promoveu as adequações necessárias à correta adaptação e inclusão do autor, nem mesmo lhe ofereceu a oportunidade, em conjunto com seus pais e psicólogos, de estabelecer uma orientação pedagógica destinada a satisfazer suas necessidades educacionais, enquanto pessoa portadora de Síndrome de Asperger (autismo)”, escreveu o juiz Pessoa na sentença.
Volta Brenda com outro depoimento de cortar o coração:
“Eu estava lendo para ele um livro do John Green em que os adolescentes se lembram qual o melhor e o pior dia da sua vida. Ele nem titubeou: ‘o pior dia foi o da minha expulsão’. Isso marcou ele.”
O número de crises nervosas de Amir diminuiu sensivelmente após a saída da escola. “Na época do colégio, as crises eram diárias e duravam horas. Depois que ele saiu, elas passaram a se esparsar e durar menos.”
E outra frase nos faz sentir certo reconforto ao saber que Amir se formou em Jornalismo 12 anos depois de ter sido expulso da escola.
Disse Brenda na época:
“A gente quer dar o exemplo para o nosso filho, que as lutas devem ser assim, a gente não resolve nada no braço, a gente tem que usar o caminho correto. A gente ficou feliz de poder mostrar para ele que existe aquele caminho e que funciona. A gente acha que não vai colher os frutos, mas alguém, daqui a 30 anos, talvez, se nossa história inspirar mais pessoas.”
Ele próprio, 12 anos depois, inspirou-se nos pais e seguiu em frente.
Bem vindo ao Jornalismo, querido colega Amir Bliacheris!
Shabat shalom!
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Foto: arquivo pessoal de Amir Bliacheris

